ENTRETENIMENTO
05/06/2019 01:33 -03

Por que Aziz Ansari foi aplaudido de pé depois de seu show em Nova Déli?

Seria a redenção de um homem acusado de atacar sexualmente uma mulher?

Jean Baptiste Lacroix via Getty Images
Acusado de comportamento sexual inapropriado, Aziz Ansari usa seu show de stand up para discutir o assunto.

Em 26 de maio de 2019, Aziz Ansari se apresentou em Nova Déli, última etapa indiana de sua turnê Road to Nowhere (Caminho Para Lugar Nenhum). A plateia o aplaudiu de pé.

“O que levou o público a conferir uma reação tão entusiasmada?”, me perguntei. Seria a redenção de um homem acusado de atacar sexualmente uma mulher?

O arco da redenção de Ansari sempre seria mais instrutivo que o de Harvey Weinstein ou o de Louis CK – ele é muito mais próximo da gente que os ataques repetidos e organizados dos quais os outros dois homens são acusados. E a dificuldade de categorizar as transgressões de Ansari só se proliferaram na Índia recentemente, com a eclosão do movimento #MeToo no país.

Acrescente-se a isso a simpatia inerente que temos pelo indiano-americano que obteve sucesso nos Estados Unidos, e tudo o que Ansari faz ganha proporções ainda maiores.

A catarse inicial de reconhecer a dor das mulheres deu lugar a uma pergunta desconfortável – sem um modelo universal, o que seria um acerto de contas público para maus comportamentos privados? Especialmente para homens conhecidos de quem gostamos e que queremos perdoar.

Será que os homens acusados no movimento MeToo se declaram redimidos depois de uma reflexão pessoal? Quem é responsável por dar esse “OK”? Seus amigos? As mulheres que eles agrediram? O público?

Para ser sincera, a nova rotina não parece nada redentora até o final, quando uma admissão do ocorrido joga uma luz diferente na apresentação de Ansari – mas não completamente.

O novo stand-up do comediante nos provoca a confrontar as motivações por trás da nossa luta por justiça social por meio das redes sociais. No fim das contas, alguns se sentem mais culpados por serem cúmplices; outros, mais absolvidos, porque, como diz o comediante, todos somos “pessoas de merda”.

O foco da rotina de Ansari é encontrar os buracos (e a futilidade) nas performances “woke”.

Ele nos lembra que as músicas de R. Kelly são pegajosas, observa que todos nós (e o próprio Ansari também) ignoraram os relatos sobre os abusos cometidos pelo cantor até eles aparecerem embalados num documentário cativante. Ele repete a rotina com Michael Jackson.

Ansari pede que o público levante a mão – “Quem não ouve mais R. Kelly?” (muitas mãos se erguem)

“Quem não ouve mais Michael Jackson” (menos mãos)

Aí ele se concentra em uma pessoa que parece estar OK com Michael Jackson.

“Você pararia de ouvir Michael Jackson se fossem 1.000 crianças, não duas?” O pobre espectador, encurralado, parece concordar com a cabeça.

Aí Ansari começa a falar de um cenário em que Osama Bin Laden fosse um celebrado jazzista antes do 11 de setembro. Ele faz piada com o constrangimento do executivo da gravadora depois da derrubada das torres gêmeas.

Será que Ansari está dizendo que é inútil separar a arte do artista? Ou só ressaltando o fato de que nossos esforços de boicote ou de expressão nas redes sociais é insincero ou fruto da pressão dos pares?

Ansari não está errado. Essa cultura do cancelamento muitas vezes parece um jogo em que todos estão competindo por pontos no Instagram (como ele diz a certa altura, “você perde pontos se atravessar a rua quando vir um cara negro”, mas “ganha se fizer um post enorme denunciando seu próprio privilégio”). 

Chris Pizzello/Invision/AP
O comediante ficou conhecido por sua participação em Parks and Recreations e depois por sua própria série, Master of None.

Ansari enfatiza o obstáculo sobre o qual todos pensamos, mas ainda não sabemos como superar: podemos forçar as pessoas a ser politicamente corretas, mas será que elas de fato mudam?

E se a pessoa que estiver destacando isso for Ansari, um homem acusado de mau comportamento sexual? Será que ele está dizendo que é imune ao que o público pensa dele e, portanto, não está arrependido?

Não é isso. Ansari quer que a gente saiba que ele está em um arco de redenção, mesmo enquanto faz piada com os mecanismos sociais que o trouxeram até aqui.

Há várias referências à namorada – o fato de eles serem um casal interracial, como o controle de natalidade é uma polícia ao corpo da mulher, o dia em que ele a apresentou à sua avó, que sofre de mal de Alzheimer.

Mas esses vários pontos só se unem bem no final do show, quando ele menciona o elefante na sala – num tom baixo e aparentemente sincero. É um texto padrão. Ele lista as várias emoções que viveu no último ano (medo e humilhação) e acaba dizendo que se sentiu “péssimo” por ter feito a mulher que o acusou sentir-se mal.

Ele transforma o episódio numa lição, dizendo que temos de viver a vida nos momentos que criamos uns com os outros. E ele nos lembra que todo o resto é transitório. Ansari estala os dedos, indicando que sua carreira poderia ter acabado de uma hora para a outra.

Os aplausos no final não são apenas para uma boa performance (ele continua sendo um ótimo contador de histórias e tem piadas excelentes sobre as inconsistências dos millennials). Aplaudimos também porque podemos voltar a gostar dele sem nos sentirmos cúmplices.

No final, Ansari usa a performance – justamente aquilo do que ele fez piada – para se redimir perante a audiência. Não temos como saber se ele de fato expiou sua culpa, mas estamos contentes com uma performance pública que inclui as palavras certas e tem o tom certo.

Mas o fato de isso só acontecer no final do espetáculo – e de um espetáculo sobre a insinceridade desse fenômeno como um todo -, nos perguntamos se tudo não passa de uma charada. Você fica com a sensação de que é impossível saber a verdade, e a única coisa que importa é a performance pública do arrependimento.

Há muitas questões não resolvidas, até mesmo não articuladas, que surgiram na esteira desse enorme acerto de contas que estamos testemunhando. E uma das mais importantes é: o que fazemos com os homens que não cometeram crimes, mas fizeram algo ruim?

Nosso mundo está cheio de homens como Ansari – amigos e colegas acusados anonimamente de transgressões graves em relações pessoais, chefes que não fizeram o suficiente para priorizar a segurança e a igualdade no trabalho, até mesmo mulheres que gostam de falar em cobrar responsabilidade das outras mas que não são capazes de fazer o mesmo em relação aos homens próximos delas mesmas.

Vivemos num mundo em que a cumplicidade é pública. Nossa indignação pode parecer oca, mas, no fim das contas, ela ainda tem força suficiente para mudar vidas – algo que Ansari não reconhece, apesar de reconhecer que sua vida mudou por causa disso.

Saímos do teatro carregando as mesmas perguntas que tínhamos quando chegamos, e a principal delas é: qual é a cara da redenção?

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Índia e traduzido do inglês.