OPINIÃO
06/02/2020 02:00 -03 | Atualizado 06/02/2020 09:07 -03

Em 'Aves de Rapina', Arlequina é fetiche masculino embalado num conceito de girl power

Com filme, Warner quer te vender entretenimento ruim disfarçado de “vingança feminista”.


O que filmes como Coisas Para Fazer em Denver Quando Você Está Morto, Contrato de Risco, Tiro e Queda e Santos Justiceiros têm em comum além do fato de ninguém mais lembrar deles? Eles fazem parte de um sub-gênero que se tornou uma praga nos anos 1990: as cópias genéricas de filmes de Quentin Tarantino.

Mesmo com apenas três longas rodados naquela década, o estilo criado por Tarantino em Cães de Aluguel (1992) e consolidado em Pulp Fiction - Tempo de Violência (1994) tornou-se tão influente que se transformou em uma fórmula.

Principalmente Pulp Fiction e suas histórias múltiplas contadas de forma não linear, com diálogos recheados de referências pop, humor sarcástico e violência gráfica, onde tudo parece muito cool.

Agora, pense nesses “Tarantinos falsificados” misturados aos filmes do Deadpool - mas com um elenco praticamente todo feminino para vender a ideia de “empoderamento” - como um saco de pipocas acompanhado de um smoothie de unicórnio. Conseguiu visualizar? Isso é Aves de Rapina - Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (6). 

Espécie de continuação que tem (com muita razão) vergonha de seu predecessor, o horrível Esquadrão Suicida, Aves de Rapina pega a única coisa que deu certo no filme de 2016, a Arlequina de Margot Robbie, e lhe dá um filme para mostrar que a tão criticada relação abusiva dela com o Coringa (o de Jared Leto, não o de Joaquin Phoenix) é coisa do passado. Indicando que agora é a hora dela brilhar.

A vilã agora é uma mulher independente, “emancipada”, como o próprio subtítulo do filme sugere, pronta para tocar o terror em uma festa do pijama do inferno com aliadas improváveis, como a Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) e a Detetive Montoya (Rosie Perez). Mas tudo com supostamente muito estilo, humor e porrada. Ou seja, o que um departamento de marketing acha que é feminismo.

Na fossa depois de terminar com o Coringa, Arlequina (Robbie) resolve aproveitar a vida de solteira curtindo a vida adoidado. O problema é que, sem a figura ameaçadora de seu ex-namorado para protegê-la, ela passa a ser perseguida por uma multidão de pessoas que querem matá-la pelos mais diversos motivos.

Uma dessas pessoas é o rico empresário Roman Sionis (Ewan McGregor), um supervilão conhecido como Máscara Negra, que está prestes a colocar as mãos em um diamante que é a chave para a fortuna de uma família mafiosa. Porém, a jovem ladra Cassandra Cain (Ella Jay Basco) rouba a joia e tem sua cabeça colocada a prêmio por Sionis.

Enquanto Arlequina, a Canário Negro e a Detetive Montoya correm atrás de Cain, uma misteriosa assassina conhecida como Caçadora cruza o caminho delas.

Divulgação
Rosie Perez, Mary Elizabeth Winstead, Margot Robbie, Ella Jay Basco e Jurnee Smollett-Bell em cena de "Aves de Rapina".

Com uma irritante (e datada) narração em off engraçadinha que volta e avança no tempo constantemente, a Arlequina de Robbie comprova que o destaque em Esquadrão Suicida se deu porque ela tinha que dividir o tempo de tela com muitos outros personagens. Agora com todos os holofotes voltados a ela, a personagem consegue o feito de irritar e entediar o espectador ao mesmo tempo. Seus maneirismos são repetitivos e perderam totalmente a graça, e com cenas de ação tão absurdamente genéricas e intermináveis que chegam a dar sono. 

E olha que estamos falando de uma atriz muito talentosa como Robbie. O que não é o caso de McGregor, que há décadas não faz nada marcante. Seu Roman Sionis parece ter saído da saudosa série do Batman dos anos 1960. É uma versão piorada do Coringa de Cesar Romero, que ficou famoso por não raspar seu bigode para interpretar o personagem, pintando-o de branco, o que o deixava ridiculamente visível. O sotaque americano do escocês McGregor é o seu equivalente ao bigode de Romero.

Não se engane, Aves de Rapina não é cinema, é um produto como um esmalte de unhas com algum novo efeito de glitter. A Warner não está nem aí para a qualidade do roteiro, direção, atuações e tudo mais. Ela quer te vender entretenimento ruim disfarçado de “vingança feminista” só porque é escrito, dirigido e estrelado por mulheres em papéis estereotipados que chutam bundas de capangas genéricos. Não caia nesse papo de vendedor. A Arlequina não é feminista. É apenas um fetiche masculino embalado num conceito de girl power muito bem calculado.