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23/05/2020 07:00 -03

Planalto avalia que vídeo foi mais benéfico que prejudicial a Bolsonaro

Monitoramento das redes sociais, importante termômetro para o presidente, mostra apoio maciço de bolsonaristas a presidente, a despeito das revelações da reunião gravada em 22 de abril.

Adriano Machado / Reuters
Planalto começou monitoramento nas redes sociais assim que vídeo foi divulgado, no fim da tarde desta sexta-feira (22).

Os ânimos no Palácio do Planalto foram da tensão máxima, experimentada desde as últimas semanas, ao alívio no início da noite desta sexta-feira (22), quando se começou a ter dimensão da repercussão do vídeo da reunião interministerial do dia 22 de abril. A divulgação do encontro tão falado desde a demissão do ex-ministro Sergio Moro, que acusou o presidente JairBolsonaro de na ocasião pressionar por interferência na Polícia Federal, foi, aos olhos do governo, “menos bombástica” do que se previa, conforme relatos de integrantes do governo ao HuffPost. 

Para o presidente, uma análise muito importante a ser feita é da repercussão nas redes sociais e da reação de seus apoiadores na internet e grupos de WhatsApp, ferramentas fundamentais para sua eleição. Desde o fim da tarde de sexta, quando o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello autorizou a divulgação do vídeo, a equipe responsável pelas redes no Planalto realiza monitoramentos. A conclusão, até o fim da noite, segundo fontes palacianas afirmaram ao HuffPost, é que a publicidade do encontro foi “extremamente positiva” a Bolsonaro na relação com seu núcleo político. 

Houve, claro, reações contrárias e críticas às falas do mandatário e de ministros na ocasião, como aos da Educação, Abraham Weintraub, Meio Ambiente, Ricardo Salles, e das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanas, Damares Alves. 

No fim das contas, o resultado foi mais positivo que negativo na visão do governo. Muito mais elogios à participação de todos vindos da rede bolsonarista do que crítcas. Surgiu até mesmo um movimento segundo o qual o vídeo é tão benéfico ao presidente que o reelege em 2022. 

Essa foi a opinião até mesmo de uma ex-aliada, a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), que há pouco tempo teceu duras críticas ao mandatário e chegou a sugerir que ele se afastasse do cargo. 

A avaliação palaciana também encontrou várias menções da neutralidade do vídeo, que afirmaram não terem visto nele “a bomba-relógio esperada por todos”. Havia, desde semana passada, quando a AGU (Advocacia-Geral da União) entregou a gravação ao Supremo, uma grande expectativa sobre o real teor daquela reunião. Até sexta, havia somente uma guerra de versões. Para o Planalto, portanto, a divulgação é, em grande parte benéfica a Bolsonaro, ao menos até o momento. 

Ao mesmo tempo em que se monitoravam as redes, grupos de WhatsApp “bolsonarista raiz” trabalhavam divulgando trechos selecionados do vídeo, conforme fontes contaram ao HuffPost. Entre as principais estratégias, estão ignorar os trechos negativos, como a fala do ministro Salles, em que ele sugeriu aproveitar foco da imprensa no coronavírus para relaxar as regras ambientais. Palavrões do presidente foram motivo de comemoração. Há, como de costume, mobilizações para ignorar o noticiário televisivo, em especial da TV Globo. 

Reprodução/YouTube
Presidente Jair Bolsonaro, ao lado de ministro-chefe da Casa Civil, Braga Netto, vice-presidente, Hamilton Mourão, e ex-ministro da Justiça Sergio Moro na reunião de 22 de abril.

Para além das redes

Além de todo o monitoramento na internet, o Planalto também considera positivo que o procurador-geral da República, Augusto Aras, a quem cabe apresentar, eventualmente, uma denúncia contra Bolsonaro, tenha mantido, na sexta, o entendimento anterior de que a divulgação integral do vídeo apenas corrobora para um tom político-eleitoral antecipado, como destacou O Globo

Na manifestação enviada esta semana ao ministro Celso de Mello, Aras disse: “a divulgação integral do conteúdo o converteria, de instrumento técnico e legal de busca da reconstrução histórica de fatos, em arsenal de uso político, pré-eleitoral (2022), de instabilidade pública e de proliferação de querelas e de pretexto para investigações genéricas sobre pessoas, fatos, opiniões e modos de expressão totalmente diversas do objeto das investigações”.

Segundo as fontes do Planalto com quem o HuffPost conversou após a divulgação da gravação, apesar de todos os pesares do vídeo — e aí constam de falas de ministros e palavrões às menções à PF —, apenas esse último aspecto é alvo do inquérito que corre atualmente. E na avaliação palaciana, as falas do presidente não podem ser enquadradas como crime. 

Apesar das notícias consideradas positivas ao governo, segundo o UOL, o presidente foi alvo de panelaços no Rio e em São Paulo na noite de sexta, enquanto falava à imprensa na porta do Palácio da Alvorada, por volta de 20h. 

Aos jornalistas, Bolsonaro criticou a divulgação integral do vídeo, afirmando ter pedido ao STF que fossem revelados somente os trechos que tratam da PF. “Foi uma reunião reservada, não era para ser divulgada. Em uma entrevista para você, eu não falaria assim. Agora, se divulga uma fita que estava aqui por nós classificada como secreta, a responsabilidade passa para o Celso de Mello”, disparou. 

O mandatário voltou a negar qualquer interferência política na PF e disse que a gravação mostra que isso não ocorreu. “Qual é o ponto que eu interfiro na Polícia Federal? O senhor Sergio Moro deve estar revoltado. Não tem nada, isso é o que interessa. Qual ponto do vídeo eu digo que tem que trocar o diretor-geral? Mais um tiro na água, mais uma farsa como tantas outras”, afirmou.

Em trechos do vídeo, o presidente afirmou que vai intervir na corporação e chega a dizer a palavra “interferir”

Pô, eu tenho a PF que não me dá informações. Eu tenho as... As inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. Abin tem os seus problemas, tenho algumas informações. Só não tenho mais porque tá faltando, realmente, temos problemas, pô! Aparelhamento etc. Mas a gente não pode viver sem informação. (...) E me desculpe; o serviço de informações nosso, todos, é uma... São uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado! E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma extrapolação da minha parte. É uma verdade.

“Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia”

É claro que houve constrangimentos entre ministros, em especial da ala militar, com algumas declarações reproduzidas no vídeos. Uma específica causa a maior preocupação do governo neste momento: os ataques de Abraham Weintraub ao Supremo.

O decano do STF, Celso de Mello, dedicou 5 páginas das 55 de sua decisão sobre o vídeo para tratar somente do teor do que disse Weintraub. Para ele, há a possibilidade de o ministro ter cometido crime contra a honra em suas referências. E grifou os seguintes trechos da fala do chefe do MEC na reunião do dia 22 de abril: 

Tem três anos que, através do Onyx, eu conheci o presidente. E o que me fez, naquele momento, embarcar junto era a luta pela... Pela liberdade. Eu não quero ser escravo neste País. E acabar com essa porcaria que é Brasília. Isso daqui é um cancro de corrupção, de privilégio. Eu tinha uma visão extremamente negativa de Brasília. Brasília é muito pior do que eu podia imaginar. As pessoas aqui perdem a percepção, a empatia, a relação com o povo. Se sentem inexpugnáveis. A gente tá perdendo a luta pela liberdade. (...) O povo tá gritando por liberdade, ponto. Eu acho que é isso que a gente tá perdendo, tá perdendo mesmo.
Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF. (...) A gente tá conversando com quem a gente tinha que lutar. A gente não tá sendo duro o bastante contra os privilégios, com o tamanho do Estado.

Celso de Mello classifica a fala de Weintraub como calúnia e destaca que põe em evidência “seu destacado grau de incivilidade e de inaceitável grosseria”. Para o magistrado, a postura também “configuraria possível delito contra a honra (como o crime de injúria)”. Ele encaminhou aos demais 10 ministros da Corte a degravação completa da reunião, bem como o vídeo, para que cada um dos integrantes do STF decida como proceder. 

O HuffPost conversou com ministros do Supremo e interlocutores que destacaram não haver decisão a respeito do assunto. A fala de Weintraub foi recebida pela maioria com “indignação”.

No Planalto, é justamente essa incerteza sobre o que os ministros farão que gera apreensão. Weintraub é alvo frequente de críticas de parlamentares e integrantes do governo, em especial da ala militar. Isso se intensificou na noite de sexta, após a decisão de Mello, ao frisar a possibilidade de crime. 

Alas do centrão com quem o HuffPost conversou, porém, destacam que toda vez que há pressão sobre Bolsonaro para o chefe do MEC ser afastado, “parece que ele [Weintraub] ganha mais força”. Outro deputado que tem conversado bastante com o presidente nas últimas semanas, desde que o mandatário começou a se aproximar do centrão em troca de apoio no Congresso, afirmou à reportagem que ”é melhor deixar Weintraub cair sozinho do que exigir seu afastamento”. 

Esse entendimento vem do fato de o ministro da Educação contar com amplo apoio do clã Bolsonaro. E isso ocorre, justamente, por ele ser um dos principais nomes da ala ideológica no governo. Como afirmou uma fonte palaciana, “Weintraub se tornou uma estrela na ala conservadora”. 

Tanto é assim que, nas redes sociais, o ministro está sendo elogiado por bolsonaristas pela fala contra o STF. 

O irmão do ministro, Arthur Weintruab, assessor especial da Presidência, defendeu-o no Twitter e disse não haver nenhum indício de crime. ”O que foi falado foi totalmente espontâneo, na defesa da função ministerial. Juridicamente, não houve crime algum na fala dele.”