Comportamento

Aurora Boreal: Como é 'caçar' as luzes verdes na Noruega

Um relato da busca pela "dança" do céu em meio ao Círculo Polar Ártico.

Ver o céu dançar de verde talvez seja um dos principais objetivos dos viajantes em busca de aventuras espalhados pelo mundo. Mas presenciar a Aurora Boreal é 99% de sorte e aquele 1% de planejamento.

Em outubro, tive a oportunidade de ver ao vivo as luzes na Noruega e posso confirmar: vale toda a emoção. Mas presenciar a Aurora foi um plus na minha viagem, digamos assim.

O tempo estava ruim, a época do ano não era exatamente a mais propícia e, bem, eu nem sabia direito o que esperar.

Viajei até Tromso, uma das cidades mais ao norte do país e um dos principais pontos turísticos do Círculo Polar Ártico, com a minha família. Explico a seguir como organizamos toda essa aventura.

Por que escolhemos Tromso

Para os amantes de aventuras, “caçar” as auroras é uma baita experiência. Mas prepare-se para dedicar uma boa quantidade de dinheiro e de paciência.

A opção mais comum é viajar, com tours privados, para os locais em que a Aurora acontece. Os pacotes fechados saindo do Brasil podem ter como destino a Noruega, Suécia, Dinamarca, Alasca, Finlândia, Escócia, Rússia, Islândia, Groenlândia e Canadá - países em que o fenômeno é visível.

No meu caso, preferi organizar o passeio como parte do itinerário da minhas férias em que visitei alguns países nórdicos. Já estaria pela região e decidi dar um “pulo” na ilha de Tromso, tão famosa pelos shows do céu.

Desembarcamos na Noruega em um voo que chegou na capital, Oslo, e dedicamos dois dias para conhecer a cidade (vale a pena!).

Depois, pegamos um trem à noite até a cidade portuária de Stavanger, conhecida por ser o ponto de partida para quem quer conhecer os fiordes noruegueses. De Stavanger, fomos de ônibus para Bergen, também conhecida pelas montanhas rochosas em meio ao mar, e em seguida voamos até Tromso.

Tromso é conhecida por ser a “capital” da Aurora Boreal. Apesar de ser a opção com maior estrutura, não é a única cidade da região em que é possível experimentar as “luzes nórdicas”.

Além de Tromso, as Ilhas Lofoten, a ilha de Senja, a cidade de Alta (onde foi construído um dos primeiros observatórios de auroras do mundo) e a ilha de Svalbard são ótimos destinos para quem quiser se aventurar.

Como tínhamos apenas três dias para “caçar” a Aurora, escolhemos Tromso por ser o local de mais fácil acesso (veja bem, estávamos em meio ao Ártico) e com mais opções de estadia.

E por que se diz que é preciso “caçar” uma Aurora?

Ao contrário do que muita gente pensa, a Aurora Boreal não é visível todos os dias. Mas eu só fui aprender isso quando já estava em Tromso.

Talvez por falta de informação, eu pensava que bastava estar no local certo e na hora certa que eu veria a Aurora. Mas não é exatamente assim.

Na minha cabeça, a Aurora Boreal era tipo o pôr-do-sol: acontece todos os dias, mas nem sempre prestamos atenção porque não estamos no local mais adequado para apreciá-lo.

Porém, o fenômeno tem uma época do ano específica para ocorrer, do final de setembro até março, mas o período com maior chances de ver as luzes é entre janeiro e fevereiro, quando a neve intensa já passou e o céu está mais limpo no hemisfério Norte.

E para que o show das luzes seja perceptível aos olhos humanos, é preciso que uma combinação de fatores aconteça.

O que é a Aurora Boreal

A Aurora Boreal é resultado do impacto das partículas do vento solar na alta atmosfera da Terra.

Esses ventos solares estão repletos de partículas menores que um átomo, mas que são carregadas de muita energia. Esse material, chamado de plasma, provoca o fenômeno que entendemos como as luzes da Aurora assim que entram em contato com os campos magnéticos dos polos Norte e Sul.

Apesar de o céu verde ser o mais replicado em imagens da Aurora, outras cores como vermelho e tons de lilás também podem ser vistas no fenômeno.

O verde é formado pela emissão de átomos de oxigênio, já o vermelho é resultado da emissão de átomos de nitrogênio.

Feita toda essa contextualização sobre o fenômeno, vamos ao que importa: como é a experiência de caçar a Aurora na Noruega.

Depois de decidir a cidade na qual iríamos em busca das luzes, precisávamos decidir se iríamos contratar o tour já do Brasil.

Dei uma busca nas redes sociais e encontrei diversos perfis de “caçadores” de Aurora, mas a maioria só oferecia a opção de tours fechados saindo do Brasil e com pacotes que duravam até 10 dias - algo que não se encaixava no meu planejamento.

Ao mesmo tempo, como teríamos poucos dias na cidade de Tromso, não queria correr o risco de não encontrar vagas para o passeio. Acabei conversando com o Andrei, guia do Enjoy The Artic, agência especializada em tours na região por meio do Instagram.

Ele me explicou que, em outubro, já começava a alta temporada para os turistas em Tromso e, fazendo uma busca e comparação de preços na internet, resolvi agendar um dia de tour com ele - e não me arrependo.

Em paralelo, comecei a pesquisar sobre como caçar auroras por conta própria na região.

Uma das primeiras dicas se você vai para Tromso e quer caçar auroras por contra própria é alugar um carro. Ao contrário do que algumas imagens podem levar a crer, para se ter uma boa visualização das luzes é preciso estar afastado da iluminação da cidade - e, para isso, é preciso dirigir.

Depois, existem aplicativos em que você consegue estudar os gráficos de maior probabilidade de visualização da Aurora. Por lá, usamos dois, principalmente: o My Aurora Forecast - Aurora Alerts Northern Lights e o Aurora Now.

Como foi a minha experiência de “caçar” a Aurora na Noruega

Assim que pousamos em Tromso, nos surpreendemos por a ilha estar toda coberta de neve. A imagem era linda, mas para quem vai em busca da Aurora, a neve não é um bom sinal.

Ao longo do dia, percebemos o céu bastante nublado e com alguns focos de chuva. Naquele momento, pensei em cancelar o tour que havia agendado, pois todos os indicativos eram contrários à possibilidade de visualização das luzes.

Mas resolvemos insistir. Nos encontramos com o guia às 18h e embarcamos em um carro com outros turistas. Com o celular em mãos e os aplicativos abertos, ele nos explicou sobre o gráficos que mediam a “potência” da Aurora e da movimentação dos ventos solares.

De acordo com ele, a Aurora estava acontecendo, mas era preciso encontrar um “pedaço” de céu em que fosse possível a sua visualização - nem que, para isso, a gente dirigisse algumas horas até a Finlândia (sim, a Finlândia.)

Entre algumas paradas em meio à estrada para observar o céu e algumas ligações para perguntar como estava o tempo ao redor da ilha, escolhemos um local na beira de estrada longe de qualquer iluminação da cidade e com um pouquinho menos de nebulosidade.

Era ali o nosso “local estratégico” e, se tivéssemos alguma sorte, a dança das luzes ia acontecer.

Em um dado momento, o Andrei se animou ao olhar para o céu e apontar para uma espécie de nuvem um pouco mais esbranquiçada. Ele pediu para eu observar com atenção: aquilo era a Aurora.

Olhei, olhei, olhei e não consegui perceber nada além de uma nuvem mais espessa. Não era nada verde nem florescente. O meu primeiro pensamento foi: nossa, que frustração. Então é isso? Fui realmente enganada pela edição das fotos no Instagram?

O Andrei pediu para que eu posasse para uma foto e, ao olhar a imagem na camera, consegui ver o céu verde. De fato, o fenômeno estava acontecendo, mas não na intensidade em que era possível enxergar a olho nu.

Um pouco desapontada, mas resiliente em meio ao frio congelante, resolvi abstrair e me contentei em esperar o tempo passar conversando com os turistas ao redor da fogueira.

Até que, em uma espiadinha despretensiosa para o céu, eu a vi. Assim, uma explosão. Verde, lilás, iluminada. Era uma luz tão intensa que se podia abrir um livro e, como diziam as descrições dos outros turistas, parecia uma “alma” que dançava no céu - não à toa há diversas lendas vikings que tentam explicar a magia das Auroras.

Foi aí que eu entendi o encanto desse fenômeno da natureza, que não, não é resultado de uma edição de foto em rede social.

O show das luzes durou cerca de 15 minutos, acompanhado de muitas estrelas cadentes no céu. Foi realmente surpreendente.

Alguns aprendizados da caça à Aurora

Fiquei muito feliz de poder ter presenciado o fenômeno, mesmo com um dia em que o tempo estava tão adverso. Então, talvez o primeiro aprendizado tenha sido esse: tudo pode acontecer, inclusive nada.

É óbvio que as expectativas são altas, afinal, o investimento é alto e o frio é de congelar. Mas nada é garantido. Há dias em que não se pode visualizar a Aurora. Acontece.

Depois, o que nos ajudou foi ter o Google Maps sempre em mãos. Com ajuda do guia, montamos um mapa para que pudéssemos caçar a Aurora por conta própria nos dias em que teríamos livres ainda em Tromso - e essa é uma estratégia super válida, já que os tours com agências não são baratos.

Por último, baixe os aplicativos e “estude” os gráficos para entender a probabilidade de visualizar o fenômeno, assim é mais fácil calibrar as expectativas.