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27/06/2020 05:00 -03 | Atualizado 27/06/2020 05:00 -03

Após flexibilizar isolamento, ao menos 4 estados têm piora em casos ou mortes por covid-19

Doença volta a crescer em junho, diante do início da reabertura de Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

Pelo menos 10 unidades da federação com indicadores de recuo da pandemia voltaram a registrar aumento no número de casos ou de óbitos causados pela covid-19 em junho, de acordo com dados das secretarias estaduais de Saúde analisados pelo HuffPost Brasil. Na avaliação de pesquisadores, o fenômeno pode ser explicado pela flexibilização do isolamento social em ao menos 4 estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

Além desses estados, sofreram um revés nos indicadores epidemiológicos neste mês as seguintes unidades da federação: Rio Grande do Norte, Tocantins, Distrito Federal, Goiás, Espírito Santo e Santa Catarina. Em todos os estados em que a transmissão do vírus acelerou, foi observado aumento na circulação de pessoas, de acordo com análise dos dados da consultoria In Loco, a partir de geolocalização dos celulares.

O principal problema apontado por epidemiologistas é a falta de coordenação, transparência e critérios claros entre governadores e prefeitos, que acaba impactando no comportamento da população. “Essa coisa da psicologia social é muito importante porque você tem mensagens contraditórias das  autoridades, bate cabeça entre estado e município”, diz ao HuffPost o professor do Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Mario Roberto Dal Poz.

O especialista lembra que a Prefeitura do Rio antecipou etapas do plano de abertura, “o que fez a população se sentir efetivamente autorizada a ir para rua”. No último fim de semana, imagens das praias e do Aterro do Flamengo lotados chamaram atenção. 

Em 1º de junho, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) anunciou um plano em 6 fases, que começou com a liberação de atividades ao ar livre e parte do comércio. Já as ações do governo fluminense se centraram em normas genéricas para setores econômicos considerados inviáveis por algumas prefeituras e na liberação do transporte intermunicipal, que provocou a volta da circulação intensa. 

Em junho, os óbitos novos por covid-19 no estado caíram para 953 na semana de 7 a 13 de junho, ante 1.362 na semana anterior. Na sequência, de 14 a 20 de junho, passaram para 1.232. Já os novos casos caíram de 17.887 na semana de 24 a 30 de maio para 12.113 na semana seguinte, mas continuaram a crescer desde então, chegando a 16.701 entre 14 e 20 de junho.

A piora da epidemia já era esperada pelos sanitaristas. ”Ônibus, trem e metrô voltaram a estar lotados. Isso é matemática. Era completamente esperado que ia voltar a transmissão que estava caindo”, analisa Dal Poz.

Sobre a falta de adoção de critérios sólidos por prefeitos e governadores, o especialista afirmou que o comitê científico do qual ele fazia parte apresentou ao governador Wilson Witzel (PSC) uma proposta “totalmente diferente”. “Recomendou fazer bandeiras, um conjunto de indicadores para acompanhar e usar o poder normativo do Estado para orientar qual região devia fechar mais, abrir algumas áreas, e não fizeram nada disso.”

A experiência internacional mostra que retomar mecanismos de redução de mobilidade é difícil, ainda mais no caso do Rio, em que se perdeu a credibilidade.Mario Roberto Dal Poz, professor da UERJ

De acordo com o professor, nunca houve uma coordenação entre o estado do Rio de Janeiro e o conjunto dos municípios, “muito menos com a capital de forma que nas ações de redução do contato entre as pessoas fosse efetiva numa mensagem só”. “Objetivamente o Rio nunca conseguiu ter uma taxa de isolamento sustentada”, afirma.

Poz aponta que o comércio em cidades como Duque de Caxias, Nova Iguaçu e São João do Meriti, todas com mais de 1 milhão de habitantes, nunca fechou de fato. Grande parte da população desses municípios trabalha na capital, para onde se locomove por ônibus, trem e metrô. O transporte é um dos principais focos de contaminação.

Apesar de a prefeitura do Rio recomendar que se mantenha uma distância de no mínimo um metro entre os usuários do transporte público, na prática, não foram adotadas medidas para que isso seja possível. Não há marcações nos assentos e não houve uma retomada de 100% da frota. “Os ônibus estão lotados, os trens lotados, o metrô lotado”, resume Poz.

O agravamento da crise sanitária é especialmente alarmante porque é mais difícil voltar atrás com a flexibilização. “A experiência internacional mostra que retomar mecanismos de redução de mobilidade é difícil, ainda mais como no caso do Rio, em que se perdeu a credibilidade. Tem denúncia todo dia de corrupção, estamos no terceiro secretário de saúde, ele ainda não está dando entrevista, não aparece. Não tem coordenação, credibilidade, liderança”, afirma o professor da UERJ.

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Em junho, os óbitos novos por covid-19 no estado do Rio caíram para 953 na semana de 7 a 13 de junho, ante 1.362 na semana anterior. Na sequência, de 14 a 20 de junho, passaram para 1.232.

Pandemia não está controlada no Brasil

Epidemiologista e pesquisadora da UnB (Universidade de Brasília), Fabiana Ganem afirma que “com certeza a maior circulação de pessoas vai provocar um aumento de casos”, mas é preciso observar os cenários locais para fazer essa relação entre medidas de flexibilização do isolamento e piora da crise sanitária.

Devido à forma de transmissão do vírus e ao ciclo da doença, os efeitos da redução do isolamento têm impacto em mais ou menos duas semanas. Há também um atraso nos dados divulgados em relação ao cenário real devido ao ritmo de processamento de testes laboratoriais.

Se a resposta do sistema de saúde for adequada, uma reabertura controlada não necessariamente resultaria em mais mortes, aponta Ganem. “Você pode diminuir a circulação para criar uma estratégia de enfrentamento e melhoria da capacidade antes de reabrir. Isso não necessariamente se traduziria em óbitos se a capacidade está melhor. Por outro lado, se você produz mais casos graves, você tem mais óbitos, e isso teria uma relação por exemplo com a estrutura etária, comorbidades etc”, explica ao HuffPost.

Os gráficos epidemiológicos brasileiros nas últimas semanas assumem aos poucos a forma de platô, em vez de um pico de casos e mortes. A tendência de interiorização da pandemia também se mantém. Em 24 de junho, 4.937 municípios (88,6%) registraram casos do novo coronavírus e 2.374 (42,6%) tiveram óbitos. Em 18 de junho, eram 4.590 municípios com casos e e 2.165 com mortes.

Relatório do InfoGripe publicado nesta sexta-feira (26) com dados da semana de 14 a 20 de junho mostra que todas as regiões do País apresentaram números de casos e de mortes muito altos de pessoas internadas com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). A a maioria foi confirmada com covid-19.

De acordo com o levantamento, Centro-Oeste e Sul são as regiões onde se mantém a tendência de crescimento de internações. Com exceção de Mato Grosso, em todos os estados nessas áreas há sinal de crescimento dos casos de SRAG.

No início de junho, quando ganharam força decisões de governadores e prefeitos em favor da flexibilização do isolamento, pesquisadores alertaram que não era o momento correto. “Houve um apagão entre os cientistas que estavam monitorando esse cenário e o que os gestores estão falando. E a população não sabe o que fazer. Já está cansada de ficar em casa e está sendo deixada levar, quando, na verdade, estamos entrando na pior fase da epidemia no Brasil”, afirmou à época o pesquisador Domingos Alves, do grupo Covid-19 Brasil, em entrevista ao HuffPost.

Os planos regionais deixaram de lado critérios estabelecidos pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para reabertura, como transmissão do vírus controlada e sistemas de saúde com capacidade de detectar, testar, isolar e tratar todas as pessoas com coronavírus e os seus contatos mais próximos.

Pernambuco: Doença volta a crescer

Em Pernambuco, os casos confirmados estavam em queda desde fim de maio e aumentaram em meados de junho, de acordo com a Secretaria de Saúde estadual. Na semana de 17 a 25 de maio foram confirmados 8.298 novos casos. Os números caíram nas 3 semanas seguintes, até 5.310 na semana de 7 a 13 de junho. Em seguida, a tendência de recuo acabou e foram confirmados 6.447 novos casos na semana de 14 a 20 de junho.

Na avaliação do epidemiologista da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Jones Albuquerque, como não houve ampliação da testagem no estado, o aumento pode ter sido causado pela maior circulação de pessoas. “Observamos que o número de testes se mantém no patamar de 2 mil por dia, apesar da grande fração desses serem testes rápidos — o que poderia gerar ‘falsos negativos’. Mesmo assim nota-se o aumento aí nos casos”, conta ao HuffPost.

De acordo com o pesquisador, “seguramente, o aumento de circulação de pessoas desde o fim da ‘quarentena rígida’ em 31 de maio na região metropolitana de Recife pode ter influenciado esse aumento”, além da disseminação da doença para o interior do estado, iniciada em abril.

Levantamento da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) mostra que, entre 17 de maio e 6 de junho, o interior respondeu por 37,5% das novas infecções em Pernambuco, enquanto a capital representou 34,4% e as demais cidades metropolitanas (13 municípios, sem Recife), 28,1%.

Na última terça-feira (23), o governo pernambucano restringiu as atividades econômicas nas cidades de Caruaru e Bezerros, responsáveis pelo aumento de 71% dos casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) na região do Agreste na última semana. Entre 26 de junho e 5 de julho, a população dos 2 municípios só poderá sair de casa para ir a supermercados, farmácias, padarias, postos de gasolina e serviços de saúde.

De acordo com Albuquerque, os pesquisadores não tiveram acesso aos critérios de reabertura. Não há transparência sobre como um município pernambucano passa de uma fase para outra. Uma apresentação enviada à imprensa em 5 de junho com título “Plano de Convivência - Atividades Econômicas” mostra 4 níveis, com etapas internas.

No mais rígido (4), previsto para as 3 primeiras semanas de junho, a única diferenciação entre cidades é a previsão de que o comércio na região metropolitana esteja aberto apenas das 9h às 18h. A fase seguinte (3), permite a abertura de shoppings e academias e de bares, restaurantes, lanchonetes, com 50% da capacidade. A etapa 2 permite abertura de museus, cinemas e teatro com ⅓ da capacidade e a fase 1 libera eventos esportivos com limitação de público.

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O estado de São Paulo voltou a registrar um crescimento no indicadores epidemiológicos. De 7 a 13 de junho, foram registrados 1.523 óbitos a mais em relação à semana anterior. Já entre 14 a 20 de junho, foram 1.913 novas mortes.  

São Paulo: Curva de infectados sobe novamente

Primeiro epicentro da covid-19 no Brasil, o estado de São Paulo também voltou a registrar um crescimento no indicadores epidemiológicos. De 7 a 13 de junho, foram registrados 1.523 óbitos a mais em relação à semana anterior. Já entre 14 e 20 de junho, foram 1.913 novas mortes.

Quanto aos casos, entre 31 de maio e 6 de junho foram 33.407 a mais. O número teve um leve recuo para 32.326 entre 7 e 13 de junho e subiu para 42.918 entre 14 e 20 de junho.

Em 27 de maio, o governador João Doria (PSDB) anunciou um plano de reabertura em 5 fases. Apesar de ser apresentado como baseado em critérios científicos, pesquisadores apontaram uma série de falhas. A proposta permite, por exemplo, que um município dobre o número de óbitos em uma semana e, mesmo assim, permaneça na fase que permite shoppings abertos

Nesta sexta, a capital e as sub-regiões do ABC e de Taboão da Serra avançaram para fase que permite o funcionamento de bares, restaurantes e salões de beleza. O prefeito Bruno Covas (PSDB), no entanto, decidiu avaliar até a próxima sexta-feira (3) se colocará a medida em prática. Em caso positivo, a reabertura desses estabelecimentos começará em 6 de julho.

No interior, houve recuo, e restrições voltaram a ser impostas em Franca, Ribeirão Preto, Araçatuba, Presidente Prudente, Marília, Bauru, Sorocaba, Registro e Piracicaba.

Rio Grande do Sul: Mais casos e mortes

No Rio Grande do Sul, os óbitos oscilaram de 65 novos registros entre 31 de maio e 6 de junho para 61 na semana seguinte e aumentaram para 86 entre 14 a 20 de junho. Já os casos começaram a cair desde o fim de maio, chegando a 2.590 registros novos entre 7 e 13 de junho e subiram para 4.511 na semana de 14 a 20 de junho.

Para o epidemiologista da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Ricardo Kuchenbecker, o crescimento dos números é explicado por diversos fatores, como ampliação da testagem e flexibilização do isolamento social. Há um alerta também devido à sazonalidade das doenças respiratórias, com maior incidência no inverno e que podem agravar o cenário gaúcho especialmente por 2 fatores: alta concentração de população idosa no estado e elevado índice de tabagismo.

Esse perfil pode fazer que os hospitais lotem mais rapidamente. De acordo com o especialista, modelos matemáticos apontam que o pico do uso de leitos de UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) em Porto Alegre pode ser atingido nas próximas duas semanas.

A epidemia não tem CEP. A distância de um município para o outro é um trajeto de um ônibus de 15 minutos.Ricardo Kuchenbecker, epidemiologista da UFRGS

O estado vizinho, de Santa Catarina, também tem uma composição demográfica e uma clima semelhante ao Rio Grande do Sul e registrou aumento recente dos indicadores epidemiológicos de covid-19. Os óbitos caíam desde o fim de maio e voltaram a subir na semana de 14 a 20 de junho, quando foram registradas 44 novas mortes. Já os casos caíram de 7 a 13 de junho e voltaram a subir na semana seguinte, quando foram contabilizados 3.812 novos diagnósticos. 

“A epidemia não tem CEP. A distância de um município para o outro é um trajeto de um ônibus de 15 minutos. O vírus não olha para o território do município A ou B”, analisa o professor da UFRGS ao HuffPost.

Kuchenbecker também ressalta o comportamento da população na piora da crise. “O crescimento tem a ver com flexibilização das medidas de distanciamento social das diferentes regiões. Em algumas delas, a flexibilização foi mais entendida como uma liberação mais ampla, quando na verdade não é isso. Há um entendimento às vezes um pouco mais fragilizado, seja de parte dos prefeitos, seja de parte da própria comunidade. Não é exatamente uma liberação indistinta. É uma retomada parcial das  atividades econômicas”, completa.

O plano do governador Eduardo Leite (PSDB) para reabertura foi apresentado no fim de abril e conta com uma série de bandeiras definidas a partir de 11 indicadores que dão conta principalmente de duas dimensões: o avanço da epidemia (casos e mortes) e o impacto na assistência (leitos disponíveis). 

Nesta sexta-feira, subiu para 9 o número de regiões que ganharam bandeira vermelha, ou seja, de risco alto para novo coronavírus — incluindo a região metropolitana de Porto Alegre.