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11/09/2019 05:00 -03

A pedido de Bolsonaro, Alcolumbre dá uma mãozinha a Aras no Senado

Presidente pediu ajuda do senador para aprovar indicado à PGR, e Alcolumbre convocou reunião de líderes para que Aras pudesse se apresentar — prática incomum no rito de busca de votos.

Foto: Marcos Brandão/Senado Federal
Depois de se reunir com senadores, Augusto Aras diz que não pode

O indicado para a PGR (Procuradoria Geral da República), Augusto Aras, se reuniu com líderes do Senado na tarde de terça-feira (10) por mais de duas horas, atendendo a um convite do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Prática incomum no rito de busca de votos, quando o candidato costuma recorrer individualmente aos senadores que vão sabatiná-lo e decidir sobre seu futuro, o encontro em grupo e a portas fechadas chegou a ser classificado como “incompatível” com as funções de um procurador-geral da República

“Deu um ar de acordo político, o que é incompatível com aquilo que o Ministério Público Federal deve fazer”, avaliou o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE). Segundo ele, Aras disse aos senadores que está comprometido com “isenção”. Porém, isso deve mesmo ser avaliado na sabatina a que ele será submetido na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), ainda sem data certa, mas com previsão para ocorrer na semana dos dias 23 a 27 de setembro. 

Em silêncio desde quando seu nome ainda era apenas uma hipótese — o que tem provocado, inclusive, preocupação na categoria —, Aras avisou que falaria à imprensa na saída da reunião com os lideres. Contudo, frustrou expectativas de quem acreditava que ouviria propostas.  

“Aqui eu me encontro à espera da sabatina. E respeitosamente não posso responder às perguntas como todos gostariam, tendo em vista que somente ao Senado, na sabatina, caberão todas as respostas. As perguntas certamente serão respondidas na sabatina”, afirmou, retirando-se do Senado cercado de seguranças na sequência.

A boa vontade do presidente do Senado responde a um pedido pessoal feito pelo presidente Jair Bolsonaro para que Alcolumbre auxiliasse Aras na caminhada ante os colegas parlamentares. Embora no comando da Casa, Alcolumbre não tem ingerência sobre todas as frentes de senadores. Por isso resolveu que poderia ser interessante fazer uma apresentação formal do aspirante a PGR. 

“Da mesma forma que eu tratei com outras instituições, com os outros órgãos do governo, eu também quero dar esse prestígio à Procuradoria-Geral da República na figura do indicado do presidente”, disse o presidente do Senado.

Desde que Bolsonaro sinalizou com a indicação do filho Eduardo para a embaixada dos Estados Unidos, o governo tem colocado à disposição de Davi Alcolumbre um série de cargos em órgãos importantes na administração, com orçamentos milionários. Exemplos: a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e os R$ 720 milhões disponibilizados neste ano, ou a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), com pouco mais de R$ 593 milhões.  

Campanha de subserviência

Alessandro Vieira, que esteve presente em parte da reunião, criticou a forma como se deu a escolha de Augusto Aras, sem que o presidente Jair Bolsonaro considerasse a lista tríplice elaborada pela ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), o que era uma tradição desde 2003. Para ele, isso fez que a situação se tornasse “extremamente politizada”. “Ele [Aras] fez campanha direta com o presidente [Jair Bolsonaro], o que exigiu dele subserviência”, ressaltou o senador. 

Afirmando conhecer Aras “há muitos anos”, o senador Otto Alencar (PSD-BA) discordou de Alessandro Vieira e destacou que não houve “nenhuma conotação ideológica” na apresentação do subprocurador aos líderes, assim como “não há em sua atuação profissional desde sempre”. “Ele não vai interpretar a lei como pensa o presidente. Quem vai colocar sua história, sua vida no lixo assim?”, argumentou. 

Para Alencar, caso a indicação de Augusto Aras seja avalizada pelos pares no Senado, “ele não vai dever favor a ninguém”. “Não vai dever a mim, muito menos ao presidente. Será um mérito pessoal dele”, concluiu. 

De acordo com o líder do PSL na Casa, Major Olímpio (SP), Aras apresentou-se e defendeu seu currículo. E acabou questionado sobre o fato de ser advogado, a que respondeu que, sendo aprovado como procurador, entregará a carteira da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Corrida por votos

Para ser avalizado pelo Senado, Aras precisa ser aprovado pela maioria absoluta dos parlamentares no plenário, 41 senadores. Por isso está tão dedicado a tratar com os parlamentares. 

Desde segunda (9), ele já se encontrou com quatro senadores: Nelsinho Trad (PSD-MS), Mecias de Jesus (Republicanos-RR), Fabiano Contarato (Rede-ES), e Izalci Lucas (PSDB-DF). Além de ter se reunido reservadamente também com Alcolumbre.