ENTRETENIMENTO
02/08/2020 02:00 -03 | Atualizado 02/08/2020 02:00 -03

Por que atores com deficiências ainda não recebem reconhecimento em Hollywood?

Até quando será preciso enfrentar um caminho de décadas para se inserir na indústria do entretenimento?

ILLUSTRATION: ISABELLA CARAPELLA; PHOTOS: GETTY IMAGES
Os atores Lauren Ridloff, Marlee Matlin, Ryan Haddad and Danny Woodburn.

Artista circense pedófilo. Mulherengo cômico. Assassino.

Esses foram apenas alguns dos papéis oferecidos a Danny Woodburn quando ele começou a fazer testes para papéis no cinema e na televisão, no início dos anos 1990. Woodburn, que se descreve como uma pessoa pequena, não demorou a descobrir que quase todos os personagens que representava eram “infelizes”, frustrados ou perversos.

O ator e produtor disse ao HuffPost: “Acho que a ideia de praxe em relação às pessoas pequenas é que devem fazer personagens assustadores ou bestiais”.

Mesmo depois de conseguir um papel recorrente em Seinfeld e participações em séries como Watchmen, Jane the Virgin e CSI, Woodburn disse que ainda topa com oportunidades de casting que reciclam chavões que evocam sentimentos de pena pelo “anão coitadinho”. Dois anos apenas atrás, diretores de casting tentaram convencê-lo a fazer um papel em um especial de Natal, dizendo que ele teria a chance de beijar uma artista famosa.

“A grande atração era que eu teria a chance de beijar essa atriz conhecida”, disse Woodburn. “Respondi: ‘Vocês acham que dou a mínima para isso? Vocês criaram um personagem estereotipado horrível e a ideia é que eu deveria me dar por sortudo porque eu, uma pessoa pequena, vou poder estar nos braços dessa atriz conhecida e beijá-la na tela?’ Eles estavam fazendo pouco-caso das pessoas pequenas.”

Woodburn recusou todos os papéis que considerou que aviltam as pessoas com deficiências. Estava decidido a não contribuir para a criação de imagens de deficiência que objetificam o problema.

“Isso me custou muitos trabalhos, mas ao mesmo tempo garantiu mais longevidade à minha carreira”, comentou.

Jerod Harris via Getty Images
Danny Woodburn em um evento da Academia de Televisão e do SAG-AFTRA em Hollywood, no dia 11 de setembro de 2018.

A indústria do entretenimento sempre teve dificuldade em oferecer uma representação autêntica das pessoas com deficiências. Em 2016, segundo estudo da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da University of Southern California, apenas 2,7% dos personagens nos 100 filmes de maior bilheteria do ano tinham alguma deficiência.

Quando pessoas com deficiências chegam a ser mostradas no cinema, televisão ou teatro, tendem a fazer parte de narrativas polarizadoras que as mostram como objetos de compaixão ou figuras inspiradoras. Tramas que abordam personagens deficientes através de uma ótica holística e neutra são poucas e raras.

As pessoas criativas com deficiências tendem a levar significativamente mais tempo que seus pares não deficientes para conquistar sua grande chance no mundo do entretenimento, quando isso acontece.

Pessoas com deficiências frequentemente têm seu acesso a Hollywood barrado porque “fica faltando um degrau na escada” no início de suas carreiras, disse no ano passado a agente de talentos Gail Williamson, da KMR Talent, falando no evento ReelAbilities, o maior festival de filmes para e sobre pessoas com deficiências.

Para algumas pessoas, isso significa serem excluídas da sala de roteiristas. Para muitos, significa falta de apoio em escolas de cinema ou ter que encarar a preferência de um diretor de casting por artistas sem deficiências. Para outros, um simples elevador quebrado pode significar uma oportunidade profissional perdida.

Acessível, mas não realmente

Em janeiro de 2019, Fuchsia Carter se inscreveu para fazer um teste no qual constava especificamente que atores e atrizes com deficiências seriam bem-vindos. Atriz formada que usa cadeira de rodas, Carter mandou um e-mail à produtora para saber se o prédio onde o teste seria realizado tinha acesso para cadeirantes. “Lamentavelmente, o espaço onde trabalhamos só é acessível por escadas”, respondeu a representante da produtora, destacando estar “satisfeitíssima” porque Carter queria participar.

Carter já teve dezenas de experiências semelhantes ao longo de quase uma década. Ela já compareceu a testes, apenas para descobrir que as portas do local não eram suficientemente largas para permitir a passagem de cadeira de rodas, que o elevador estava quebrado ou não havia estacionamento.

Quando ela consegue chegar a um teste, os diretores de casting muitas vezes imaginam que a cadeira de rodas seja um mero acessório para ela. Eles se espantam ao saber que uma cadeirante pode também ser atriz profissional.

“Me pedem com frequência para mostrar a atores sem deficiência como usar cadeira de rodas de uma maneira convincente”, contou Carter, recordando um caso em que os diretores de casting de uma série policial pediram para ela dar aulas para outra atriz que se candidatara ao mesmo papel que ela. “Falei: ‘não, ou vocês me contratam para o papel ou podem catar coquinho’.”

As oportunidades de se aperfeiçoar em sua profissão também são negadas aos atores com deficiências, mesmo nos níveis de estudo mais básicos.

A atriz Christine Bruno, que se diplomou em atuação e direção em 1998, contou que aulas de movimentação de dança geralmente são uma exigência em seus programas de estudos, mas que ela não teve a oportunidade de fazer essas aulas.

“Se negaram a me ensinar porque não sabiam como me ensinar”, explicou Bruno, que tem paralisia cerebral e desde então foi escolhida para o elenco de Law & Order e, mais recentemente, da série God Friended Me, da CBS. “Provavelmente não queriam ser responsáveis por qualquer problema legal que imaginavam que pudesse ocorrer. Portanto, basicamente, não me deixaram fazer as aulas deles.”

Quando ela perguntou à direção da escola se havia alguma outra maneira de ela atender àquela exigência, lhe disseram para não se preocupar.

“Falei, ‘espere um pouco. Estou pagando um monte para ter esta formação. Quero ter as mesmas aulas que todo o mundo.’”

Me pedem com frequência para mostrar a atores sem deficiência como usar cadeira de rodas de maneira convincente.Fuchsia Carter, actor

Outros profissionais com deficiências que trabalham na indústria do entretenimento contaram que já enfrentaram obstáculos semelhantes em seus estudos artísticos.

Carey Cox, atriz teatral que tem a síndrome de Ehlers-Danlos, contou que os diretores em suas aulas de movimento “colocavam as mãos sobre meu corpo e tentavam me ajustar ou me convencer a fazer coisas com as quais eu não estava à vontade.”

“Se eu caía ou me desequilibrava, isso era mencionado nas minhas avaliações”, ela contou.

Dominick Evans, diretor de cinema, disse que um de seus professores de teatro em 2009 lhe deu apenas monólogos de personagens deficientes para fazer – incluindo um personagem surdo e outro cego de Édipo, apesar de Evans ser cadeirante. Ele abandonou a escola no ano seguinte e não concluiu o curso.

Ele se formou alguns anos mais tarde em uma escola diferente de cinema, descrevendo a experiência como “um inferno” devido à falta de acessibilidade e ao fato de um professor lhe ter contado que outros instrutores não o queriam em suas aulas de técnica vocal “porque não sabiam o que fazer comigo por conta da minha cadeira de rodas”.

No mesmo ano, Evans começou a apresentar um chat no Twitter com a hashtag  #FilmDis e conheceu dezenas de outras pessoas indignadas com a falta de representação de deficientes nas telas. Ele converteu a discussão em uma organização homônima que em março deste ano divulgou um estudo que concluiu que homens cisgêneros brancos compuseram a maioria dos personagens deficientes na televisão durante a temporada de 2018-2019.

“Na escola de cinema, nos ensinaram que devemos escrever sobre o que sabemos”, escreveu Evans durante um dos chats no Twitter da #FilmDis. “No entanto, esses filmes todos que mostram pessoas com deficiência não foram escritos por nós.”

Uma escalada íngreme

Quando atores e atrizes marginalizados estão ausentes do processo criativo, tanto a arte quanto a comunidade sofrem. E isso é especialmente o caso quando atores não deficientes são chamados para representar personagens com deficiências.

Em Como eu era Antes de Você, filme de 2016 baseado em um romance best-seller, uma mulher cuida de um tetraplégico que optou por morrer por suicídio assistido (ele é representado por Sam Claflin, que não é deficiente). O filme, além disso, transmite a ideia de que seria melhor para todos se as pessoas com deficiências morressem.

Amigos para Sempre foi criticado por muitos por ter chamado o ator Bryan Cranston para fazer um cadeirante e manter “um fraco por sentimentalismo, clichês e caricaturas”, conforme o Los Angeles Times em 2019.

Mais recentemente, Come as You Are, filme sobre três amigos com deficiências que viajam com um enfermeiro para ir a um bordel para pessoas com deficiências, foi alvo de críticas porque os papéis principais foram representados por atores não deficientes.

Mas há alguns sinais de que a maré esteja começando a virar. Em 2018, por exemplo, cerca de 20% dos personagens deficientes na televisão foram representados por atores com as mesmas deficiências. Dois anos antes, essa parcela havia sido de apenas 5%, segundo estudo da Rudeman Family Foundation, que promove a inclusão plena de pessoas com deficiências.

Lauren Ridloff, que faz uma personagem surda em The Walking Dead, vai se tornar a primeira super-heroína surda da Marvel em Os Eternos, a ser lançado em 2021. Em fevereiro, Zack Gottsagen, astro de The Peanut Butter Falcon, tornou-se o primeiro ator com síndrome de Down a apresentar um Oscar. Ryan Haddad faz um estudante com paralisia cerebral na série da Netflix The Politician. E no ano passado, Ali Stroker tornou-se a primeira cadeirante a receber um prêmio Tony.

Frazer Harrison via Getty Images
Os atores Kumail Nanjiani, Lauren Ridloff, Brian Tyree Henry e Barry Keoghan no Go Behind the Scenes with Walt Disney Studios, em  Anaheim, Califórnia, 24 de agosto de 2019. Ridloff, que faz parte do elenco de “The Walking Dead”, vai ser uma super-heroína da Marvel em “Os Eternos”.

Muitos atores, agentes de talentos e outras figuras da indústria disseram que têm visto mais atores com deficiências fazendo personagens mais dinâmicos, e isso tem naturalmente levado a narrativas mais autênticas, complexas e inovadoras.

Em Raising Dion, série dramática da Netflix que estreou em outubro sobre um garoto super-herói, Esperanza (a novata Sammi Haney) faz amizade com Dion (Ja’Siah Young) e o ajuda a salvar o mundo. Ela é cadeirante, mas isso é apenas um aspecto da história da personagem. Em um episódio, ela diz a Dion que sua barraca de brincar não é acessível a cadeiras de rodas, falando de um jeito que mostra como ela pode ser assertiva, espirituosa e autoconfiante. Em outro, ela se aborrece quando Dion presume que Esperanza sonha em poder trabalhar. Ela mostra a seu amigo que o fato de uma pessoa ter deficiências não significa necessariamente que ela queira ser “curada”. 

Virando parte do normal

A crescente representação da deficiência nas telas é fruto de décadas de ativismo em prol do reconhecimento da deficiência como parte do movimento maior por mais diversidade no entretenimento, e não uma causa separada.

Em 2011, por exemplo, Woodburn e vários outros membros do Comitê de Atores com Deficiências do SAG-AFTRA (Sindicato de Atores- Federação Americana de Artistas de Televisão e Rádio) uniram suas forças com a Associação de Produtores de Cinema e Televisão, que representa produtoras, estúdios e redes. Juntos, criaram uma força-tarefa dedicada a abrir mais oportunidades para atores com deficiências. Isso vem levando a novos relacionamentos com os estúdios e à melhoria das práticas da indústria na contratação de profissionais com deficiências.

Para muitos ativistas, é importante que pessoas não deficientes participem da luta por transformações. Afinal, os deficientes já têm plena consciência de como sua comunidade é subrepresentada.

No final de janeiro a Ruderman Family Foundation divulgou uma carta aberta a executivos e produtoras de Hollywood, pedindo que contratem mais profissionais com deficiências. Dezenas de pessoas do setor – incluindo Marlee Matlin (que em 1987 tornou-se a primeira e única atriz surda a receber um Oscar), Danny DeVito, Eva Longoria, Mark Ruffalo e Glenn Close — assinaram a carta. Desde então, a fundação formou uma parceria com a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, a entidade por trás do Oscar, para recrutar estudantes com deficiências e vindos de outras comunidades subrepresentadas e que queiram trabalhar em Hollywood.

Em Cincinatti, o festival de cinema ReelAbilities, criado para e por pessoas com deficiências, foi relançado em 2018 como o Festival de Cinema Over-the-Rhine. A mudança de nome fez parte de um esforço para converter a deficiência em parte de um diálogo mais amplo sobre contagem de histórias inclusivas.

Jack W. Geiger, diretor gerente do evento, disse ao HuffPost que o festival atraiu quase oito vezes mais pessoas do que havia antes da mudança de nome.

Ele destacou que mais de metade dos filmes exibidos no festival ainda incluem tramas ligadas à deficiência. “Desde a mudança de nome, estamos conseguindo conscientizar um público muito maior sobre a deficiência.”

O melhor do meu sonho de “General Hospital” ter se realizado foi que a personagem não foi escrita como deficiente. Ela é deficiente porque eu sou.Maysoon Zayid, comedian and actor

Também em 2018, a Casting Society of America promoveu seu primeiro convite aberto de casting para atores com deficiências. Mais de 50 diretores de casting participaram e houve testes para mais de 900 atores com deficiências, segundo a Variety – mostrando que o equívoco muito comum segundo o qual não há atores deficientes suficientes para ocupar as vagas que existem simplesmente não tem fundamento.

“A indústria tem uma oportunidade extraordinária de fazer um trabalho que seja verdadeiro”, comentou Lynn Meyers, membro da Casting Society of America que já trabalhou em castings para a Over-the-Rhine.

Meyers, responsável pela escolha dos atores de filmes como O Sacrifício do Cervo Sagrado e Um sonho de Liberdade, disse que “é responsabilidade de todos nós, como produtores, roteiristas, atores e diretores, estar atentos para as pessoas que querem trabalhar conosco e não deixar que elas desistam. Dizer isso é fácil; muito mais difícil é uma pessoa romper essas barreiras.”

Porém, ao mesmo tempo em que a deficiência vem ganhando visibilidade nas telas e nos bastidores, as pessoas deficientes não brancas – incluindo mulheres e LGBTQs não brancos – muitas vezes ficam de fora das narrativas.

“Sempre que você vê um deficiente, é um rapaz branco”, disse a humorista e atriz Maysoon Zayid, aludindo a Ryan O’Connell em Special,  RJ Mitte em Breaking Bad e Micah Fowler em Speechless.  

Astrid Stawiarz via Getty Images for Together Live
"O melhor do meu sonho de ‘General Hospital’ ter se realizado foi que a personagem não foi escrita como deficiente. Ela é deficiente porque eu sou”, disse Maysoon Zayid, vista aqui em um evento em Nova York em novembro passado.

“Gosto deles e dou todo apoio a eles, mas poderíamos ver mais mulheres nas telas, não?”, ela disse.

Segundo Zayid, mesmo em séries inovadoras, os diretores e roteiristas precisam se perguntar: “Quem estou deixando de fora?”.

Zayid passou o primeiro ano e meio de sua vida profissional fazendo testes para filmes e programas de TV. Quando ninguém quis contratá-la, ela, uma palestina muçulmana com paralisia cerebral, começou em vez disso a fazer shows de humor stand-up. As oportunidades de trabalho como atriz eram poucas, e ela só conseguiu alguns papéis pequenos.

No ano passado ela ganhou um papel recorrente como advogada em General Hospital. Ela levou mais de 17 anos para chegar a esse ponto.

“O melhor do meu sonho de ‘General Hospital’ ter se realizado foi que a personagem não foi escrita como deficiente”, comentou Zayid. “Ela é deficiente porque eu sou.”

Os ativistas esperam que a indústria do entretenimento chegue a um ponto em que os artistas com deficiências sejam levados a sério e recebam oportunidades para fazer personagens com histórias complexas, arcos narrativos, personalidades e vidas que não girem apenas em torno de suas deficiências.

“Não quero que me deem um trabalho porque sou deficiente”, disse Fuchsia Carter, a atriz que foi excluída de testes porque não eram acessíveis a cadeirantes. “Quero que me deem a chance de mostrar que tenho talento.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.