ENTRETENIMENTO
24/03/2019 01:00 -03 | Atualizado 25/03/2019 12:08 -03

O que você está fazendo da vida que ainda não viu 'Atlanta'?

2ª temporada entrou no catálogo da Netflix, uma ótima oportunidade para ver uma das melhores séries da atualidade.

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Brian Tyree Henry e Donald Glover como Paper Boi e Earn, encarando o absurdo que é ser negro na América.

Demorou um pouco demais, mas a 2ª temporada de Atlanta - uma das melhores, mais inventivas e urgentes séries da atualidade - entrou no catálogo da Netflix brasileira. Uma excelente oportunidade para quem ainda não conhece a série entrar de cabeça no absurdo universo criado pelo ator, roteirista, humorista, músico e rapper Donald Glover.

“Absurdo” na acepção da palavra mesmo, significando algo destituído de sentido, de racionalidade, que não se enquadra em regras e condições estabelecidas.

Se na 1ª temporada Glover usa seu estilo peculiar de narrativa com mais moderação, na 2ª, ele desencana de vez de um formato que reconhecemos como tradicional em séries de TV.

Atlanta trata temas como pobreza, falta de oportunidade, criminalidade e racismo sem se fixar em um gênero e sem nunca escorregar para uma linguagem mais panfletária. Às vezes é cômico, em outras, trágico e em tantas outras, absurdo. Glover abre nossos olhos para a bizarrice da realidade que o negro enfrenta diariamente na América dos guetos utilizando um lirismo que beira o fantástico. E por vezes até se deixa levar totalmente por esse elemento fantástico.

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Earn, Darius e Paper Boi preparam-se para a primeira tour.

Ele não liga muito para cronologia para contar a história de Earn (Donald Glover), um afroamericano de 30 e poucos anos ainda meio perdido. Depois de largar um curso na prestigiada Universidade de Princeton, ele passa a fazer um bico aqui e ali para criar a filha que teve com a ex-namorada Van (Zazie Beetz). Mas aí seu primo Alfred (Brian Tyree Henry) começa a se destacar localmente como o rapper Paper Boi, e ele se torna seu empresário.

A trama, porém, é o que menos importa no desenvolvimento de Atlanta. O que vale aqui são as situações que nos fazem conhecer mais a fundo esses personagens e viver com eles as situações de uma América de pessoas que vivem no fio da navalha entre o que podem ou não fazer para sobreviver.  

Na 2ª temporada, a fama de Paper Boi começa a crescer, e o amadorismo de Earn como empresário passa a incomodá-lo. Earn se esforça para agradar seu primo, mas parece fazer sempre as escolhas erradas, como quando consegue uma bela grana de um dos esquemas malucos de Darius (LaKeith Stanfield), roommate de Paper Boi, e consegue jogar tudo fora apostando em um trambique de Tracy (Khris Davis). Isso sem falar da crise na relação com Van.

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Donald Glover irreconhecível como o excêntrico (e assustador) Teddy Perkins.

No entanto, essas questões servem apenas de espinha dorsal para a temporada. Tanto que três de seus melhores episódios não têm relação nenhuma com a trama geral. Barbearia, Teddy Perkins e Fubu são protagonizados por apenas um dos personagens do grupo separadamente.

O primeiro é uma comédia ao estilo “o dia em que tudo dá errado” estrelada por Paper Boi, que só queria cortar seu cabelo e é arrastado para uma série de confusões por seu barbeiro de longa data, o enrolado Bibby (Robert Powell III).

Já Teddy Perkins é um conto de terror vivido por Darius quando ele vai buscar um piano na casa de Teddy Perkins, um rico excêntrico e recluso que guarda muitas semelhanças com Michael Jackson.

Enquanto o drama coming-of-age Fubu mostra um episódio importante da infância de Earn, envolvendo uma camiseta e um acontecimento bem trágico na escola em que estudava.

Atlanta é uma jóia da TV atual. Uma série que trata das questões raciais nos EUA de uma maneira inédita, sem se prender a gêneros ou qualquer estrutura pré-fabricada e que, sem fazer discursos, é um grito contra o absurdo hipócrita do sonho americano.

Está esperando o quê para maratonar?