COMPORTAMENTO
06/02/2019 14:51 -02

Atendimento psicológico a vítimas e famílias de Brumadinho deverá ser contínuo

Segundo especialistas, afetados por tragédia podem apresentar de ansiedade e depressão até comportamento suicida, em casos extremos.

Associated Press

Já se passaram 11 dias desde o rompimento de uma barragem da Vale em Brumadinho (MG), que matou 150 pessoas e deixou outros 182 desaparecidos. Para aqueles que ficaram, entre moradores, familiares e amigos das vítimas, a busca por explicações que elaborem os significados da tragédia está longe de chegar ao fim.

De acordo com especialistas, depressão, ansiedade, medo, estado de alerta e, em casos extremos, até um comportamento suicida são reações esperadas quando a questão é a saúde mental dos atingidos por tragédias como a do último mês.

Segundo a professora Maria Julia Kovacs, do Instituto de Psicologia da USP, o processo de elaboração de um trauma dessa dimensão vai depender do quanto a pessoa foi afetada pela situação.

Pesquisas sobre o impacto de tragédias na saúde emocional das vítimas  demonstram que, além da pessoa atingida diretamente, há pelo menos 3 pessoas que também sofrem a partir dela.

“O impacto desse desastre afeta a todos, mas de maneira diversa. A possibilidade de elaborar uma tragédia como essa é uma capacidade individual, que vai depender da história de cada pessoa. É preciso compreender os recursos de enfrentamento de cada um e oferecer ajuda especializada nesse processo”, explica Kovacs em entrevista ao HuffPost Brasil.

Uma pesquisa publicada em 2018 pelo Núcleo de Pesquisa e Vulnerabilidade em Saúde da UFMG (Naves) e a Cáritas Regional de Minas Gerais demonstrou que 12% dos afetados pelo rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG), ainda sofrem de estresse pós-traumático. Entre crianças e adolescentes, o índice foi muito maior e chegou a 83%.

“O rompimento da barragem é também uma ruptura que há na vida de todos os atingidos”, explica Ana Lucia Horta, terapeuta e chefe do departamento de Saúde Coletiva da Unifesp. “O cuidado emergencial é poder levar um acolhimento para lidar com o impacto desse momento. Ninguém fica imune.”

O impacto psicossocial dos atingidos de Mariana (MG)

28,9% das vítimas apresentaram depressão (a incidência é equivalente a 3,5 vezes a esperada na população em geral)

32% relataram TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada)

12% relataram TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) - em crianças, a porcentagem chegou a 83%.

De acordo com o estudo, a lentidão na reparação das perdas e a falta de acompanhamento psicossocial estão entre os principais fatores para o adoecimento.

*A pesquisa foi realizada em 2017 com 271 vítimas do rompimento da barragem do Fundão pelo Núcleo de Pesquisa e Vulnerabilidade em Saúde da UFMG (Naves) e a Cáritas Regional de Minas Gerais.

No caso de Brumadinho, se forem confirmadas as mortes dos desaparecidos, o que subiria para 332 vítimas fatais, essa será a maior tragédia nacional nos últimos 50 anos. 

 

Luto de uma cidade inteira

Para Horta, não se trata apenas de alguns indivíduos, mas de uma cidade inteira que vai precisar de ajuda para atenuar esse estresse agudo. É uma situação em que alguns moradores chegaram a comparecer em até 8 velórios no mesmo dia para se despedir de amigos, filhos, alunos e familiares. 

“Vão ser necessários trabalhos coletivos, mas também individuais, para lidar com esses abertos emocionais em resposta às situações vivenciadas. Será necessário a disponibilidade de pessoas treinadas para ajudar no fortalecimento emocional dos atingidos e isso passa pela construção de um ambiente de acolhimento e de escuta.”

Horta e Kovacs concordam que as ações de acolhimento devem ser imediatas para lidar com esse trauma, mas precisam ser contínuas mesmo quando Brumadinho deixar os holofotes da mídia.

Adriano Machado / Reuters

“O rompimento da barragem não foi apenas uma única tragédia. Houve perdas súbitas de entes queridos, que foram violentas e múltiplas. E essas pessoas vão passar por um período em que permanecerão sob estado de alerta, assombradas com novas possibilidades de perdas”, explica a terapeuta. 

Ao mesmo tempo, é um cenário em que os sobreviventes devem lidar com a  ambiguidade da perda: entende-se que há pouca possibilidade de encontrar os entes queridos com vida, mas enquanto não forem identificados os corpos ainda existe a esperança. Situações como essa podem desencadear o luto patológico, que aumenta a predisposição para os transtornos mentais.

″É como se o ciclo não se encerrasse e os familiares das vítimas vão precisar lidar com uma mescla de sentimentos que dificulta a elaboração de um momento tão intenso como esse”, explica Kovacs.  

 

O cuidado da saúde mental em Brumadinho

Após o desastre, a prefeitura de Brumadinho organizou um centro de operações de emergência em saúde (COES) que vem atuando junto à população.

De acordo com Rodrigo Chaves, responsável pelas ações de saúde mental, apesar de ser um momento complexo para a cidade, o atendimento à população tem sido satisfatório.

Segundo o coordenador, todo o serviço da rede de saúde municipal está preparado para o atendimento psíquico da população.

Por meio de parcerias, o Ministério da Saúde e a coordenação de médicos do estado de Minas Gerais disponibilizaram psicólogos e psiquiatras que estão de plantão nas unidades de atendimento da região.

“Toda a rede cuida da saúde mental e os casos mais agravados são direcionados para atendimento específico. As Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e o Hospital Geral da região estão com atendimento 24h de profissionais especializados, algo que antes não existia. Nós expandimos essa rede por entender a gravidade do sofrimento psíquico decorrente dessa tragédia”, explica. 

A Vale disse que disponibilizou também cerca de 400 profissionais entre médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais para o atendimento das vítimas.

Voluntários do grupo Médicos Sem Fronteiras ainda iniciaram uma ação emergencial de ajuda psicossocial que acontece desde o dia 31 de janeiro. A equipe é formada por terapeutas e psiquiatras e atua em conjunto com os profissionais locais.