COMPORTAMENTO
04/01/2020 02:00 -03

Por que as pessoas estão procurando ajuda da astrologia e do tarô para cuidar da saúde mental

Horóscopo e tarô viraram uma improvável forma de terapia – e os especialistas dizem que eles podem ajudar.

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Quem lida com ansiedade e depressão encontra consolo no tarô, na astrologia e em outras práticas espirituais.

“Quem consegue o que realmente quer da vida sabe quando parar quando as coisas estão boas, mas não boas o suficiente”, tuitou Jessica Dore, uma assistente social e leitora de tarô.

A mensagem estava acompanhada ela imagem do “oito de copas”, carta do tarô que mostra uma figura envolta num manto se afastando de oito taças. O tuíte recebeu mais de 14 mil likes. E há dezenas de outras postagens parecidas.

“Realmente precisava disso hoje”, respondeu um usuário do Twitter. “Obrigado.”

“Precisava disso ... estou assustado!!”, afirmou outro. “Mas sei que preciso me esforçar mais.”

“A carta de hoje. Quem consegue o que realmente quer da vida sabe quando parar quando as coisas estão boas, mas não boas o suficiente. Cuide das partes de você que se sentem lisonjeadas, sortudas e que têm medo de que você não seja capaz de mais. Tudo bem sentir-se assim, mas não deixe que isso dite suas decisões.”

Práticas espirituais como tarô e astrologia existem há muito tempo, mas agora estão ganhando destaque na cultura do bem estar. Graças ao Twitter, aplicativos de horóscopo como Co-Star e outras fontes de informações online, nunca foi tão fácil pesquisar sobre tarô, ler o horóscopo ou estudar seu mapa astral.

“Quando as pessoas estão estressadas ou passando por algo negativo, elas querem entender melhor o porquê”, diz Sari Chait, psicóloga clínica e proprietária do Behavioral Health and Wellness Center, em Newport, Massachusetts. Ela afirma que astrologia e tarô podem fornecer “a estrutura necessária, mesmo não sejam comprovados empiricamente”.

Também não é surpresa que práticas como tarô e astrologia sejam cada vez mais associadas a conselhos de saúde mental. A orientação terapêutica (às vezes por parte de terapeutas de verdade) tem uma plataforma maior graças às redes sociais, que sem dúvida ajudaram a difundir o tema da saúde mental para a população em geral.

Além disso, muitas pessoas não podem arcar com os custos do tratamento profissional, ou então precisam de um complemento para a terapia. A internet e as redes sociais acabam virando fonte de conselhos para lidar com o estresse diário, diz Dore. Existem inúmeras barreiras para obter tratamento de saúde mental, incluindo o preço, a falta de cobertura por parte dos planos de saúde e a falta de opções. Dados recentes indicam que 1 em cada 4 americanos precisa decidir pagar por necessidades diárias e ou por assistência médica.

Astrologia e tarô como fontes de autoconhecimento

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“É importante não enxergar seu mapa astral como a razão pelas quais as coisas não vão bem na sua vida, especialmente se você está começando a estudar astrologia”, diz a astróloga Katie Sweetman. “Em vez disso, considere-o como um guia para ser a melhor versão possível de si mesmo.”

Tanto a astrologia quanto o tarô são arquetípicos e usam linguagem semelhante para descrever situações e emoções passadas, presentes e futuras, diz Dore. Mas as práticas são diferentes. 

“A astrologia é um sistema antigo que usa o movimento dos planetas através de diferentes signos do zodíaco para ajudar a revelar como nossas vidas podem se desdobrar”, diz Katie Sweetman, astróloga e fundadora da Empowering Astrology.

Na astrologia, existem 12 signos do zodíaco e 10 planetas. O componente mais simples e popular da astrologia é o horóscopo, que é uma previsão ou leitura curta com base no seu signo do zodíaco. Os mapas astrais são mais complexos e tentam revelar informações sobre sua personalidade e tendências com base no posicionamento dos planetas no momento em que você nasceu.

O tarô, por outro lado, é mais visual. “Trata-se de um baralho de 78 cartas com imagens que mostram diferentes arquétipos, símbolos e situações”, afirma Dore. Alguns exemplos incluem “morte”, “o sol” e “o mágico”.

“Essas imagens representam a vasta gama de coisas que encontramos na experiência humana”, diz ela.

A maioria das pessoas se interessa inicialmente pelo tarô e pela astrologia porque ambos podem ser divertidos. Mas ambas as práticas também podem servir como ferramenta de autoconhecimento.

“É importante trabalhar com um profissional qualificado, como um terapeuta, para assuntos mais profundos ou mais sérios, mas a astrologia pode ajudar no desenvolvimento pessoal. Ela é útil para entendermos nossos bloqueios e nossas tentativas de auto-sabotagem”, afirma Sweetman.

Ao aprender sobre seus traços de personalidade e como você tende a interagir com o mundo, você pode começa a reconhecer não apenas seus pontos fortes, mas também seus pensamentos negativos ou padrões de comportamento. Outro benefício: lembrar que experiências e sentimentos negativos são temporários, diz Chait. 

“Isso é parecido com várias abordagens terapêuticas nas quais a ênfase é na compreensão do que você está sentindo no contexto atual, com o objetivo de enxergar como as coisas podem ser diferentes no futuro, incluindo como você pode contribuir para fazer essa mudança”, afirma ela.

“Quando as pessoas estão estressadas ou passando por algo negativo, elas querem entender melhor o porquê ... mesmo não haja comprovação empírica.”Sari Chait, psicóloga

Dore usa o tarô de maneira semelhante, fazendo leituras que servem como ponto de partida para que eles fazem sobre o que estão sentindo.

“Muita gente olha para o mundo exterior esperando obter respostas”, diz Dore. “Não é necessariamente natural que as pessoas procurem as respostas dentro de si mesmas.”

As cartas de tarô, no entanto, representam uma oportunidade de se voltar para si mesmas, explorando seus pensamentos e sentimentos, afirma ela. Esse tipo de auto-reflexão costuma ser o primeiro passo para melhorar sua saúde mental.

“No nível mais básico, se todos estivessem mais em sintonia consigo mesmos ― suas necessidades, vontades, limites, pontos fortes e fracos ―, seríamos melhores parceiros, colegas de trabalho e comunicadores, além de mais eficazes no trabalho e nos relacionamentos interpessoais”, diz Dore.

Qualquer pessoa pode começar a usar uma (ou ambas) as práticas com bastante facilidade. No caso da astrologia, Sweetman recomenda o livro The Essential Guide to Practical Astrology (O Guia Essencial da Astrologia Prática, em tradução livre). Para ler seu horóscopo, você pode usar vários sites – basta saber qual é seu signo. Para fazer um mapa astral, você precisa da data, da hora e da cidade em que nasceu. Você pode usar aplicativos como o Co-Star ou procurar um astrólogo consultor para obter ajuda na interpretação.

“É importante não enxergar seu mapa astral como a razão pelas quais as coisas não vão bem na sua vida, especialmente se você está começando a estudar astrologia”, diz a astróloga Katie Sweetman. “Em vez disso, considere-o como um guia para ser a melhor versão possível de si mesmo.”

Quanto ao tarô, Dore disse que você pode ler as cartas sozinho ou pedir que alguém o faça para você. Existem inúmeros baralhos de tarô disponíveis, mas a versão Rider-Waite é uma opção bem conhecida e acessível. A maioria dos baralhos de tarô inclui um livreto que explica os cartas e oferece interpretações gerais, mas você também pode consultar livros. (Dore recomenda Seventy-Eight Degrees of Wisdom (Setenta e Oito Graus de Sabedoria, em tradução livre).

Não há um regras para o que fazer quando você tira uma carta. Dore disse que você pode examinar a imagem, conversar sobre ela, registrar um diário, deixá-la de lado ou simplesmente colocá-la de volta no baralho. “Se fizer sentido, ótimo. Se não, não precisa ficar tentando entendê-la.”

 

Os vários caminhos da saúde mental

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Práticas como a astrologia não são substitutas da terapia. Mas elas podem ser complementares.

Tarô e astrologia são úteis, mas também têm seus lados negativos. É importante lembrar que a astrologia é uma pseudociência, afirma Chait. Ao contrário da psicologia, que é baseada em evidências empíricas, “a metodologia usada para determinar se seu signo do zodíaco está relacionada a comportamentos humanos ou sua personalidade pode conter falhas ou não fazer nenhum sentido”, diz Chait.

Procurar explicações para suas experiências e circunstâncias em um mapa astral pode não ser eficaz. “Às vezes a astrologia acaba nos limitando”, diz Sweetman. “Podemos cair na armadilha de achar que, por causa de determinadas posições planetárias no mapa astral, certos traços negativos sempre serão parte de quem somos.”

Isso pode resultar num ciclo de passividade, culpando o mapa astral por todas as nossas experiências negativas – e evitando assumir a responsabilidade por nossas escolhas.

Já o tarô pode ser uma boa ferramenta de introspecção, mas Dore afirma que as cartas são servem para lidar com problemas de saúde mental que afetam sua vida diária, como trauma ou ansiedade. Se você lida com esse tipo de problema, é importante buscar ajuda especializada, diz ela.

“Se você tem traumas ou memórias dolorosas, tem de estar em segurança”, diz Dore. “Melhor não acessar coisas com as quais você não vai conseguir lidar sozinho.”

Chait concorda. Ela afirma que práticas como a astrologia não são substitutas da terapia. Mas elas podem ser complementares.

“Se você acredita em astrologia e tira conclusões a respeito de si mesmo com base nos astros, isso pode servir de pano de fundo para conversas terapêuticas”, diz ela.

Lembre-se de que cuidar da saúde mental é um processo com várias frentes. Se quiser explorar astrologia ou tarô, siga em frente. Mas não deixe de explorar outras opções. Isso inclui separar um tempo para cuidar de si mesmo, dormir bem, socializar e evitar atividades pouco saudáveis, como beber exageradamente, diz Chait.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.