MULHERES
09/11/2019 03:00 -03 | Atualizado 12/11/2019 16:45 -03

O que é o assoalho pélvico e por que ele é importante para a vida sexual das mulheres

Uma fisioterapeuta pélvica é especializada em tratar questões como dores durante o sexo e incontinência urinária — além de auxiliar no momento do parto.

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O assoalho pélvico é uma rede muscular composta por 13 músculos que vão do púbis até a região do cóccxis.

Uma rede muscular. Como tantas outras no corpo. Com a diferença de que nem sempre existe a consciência de que é possível – e é importante – exercitar e cuidar dela. E é justamente essa a função do fisioterapeuta pélvico: reabilitar e fortalecer o chamado assoalho pélvico

Engana-se quem pensa que isso é apenas para mulheres. A grande maioria das pacientes é sim composta por elas, mas todo mundo está apto a passar por uma consulta com um profissional do tipo. E o resultado pode ser percebido na qualidade de vida funcional e também sexual.

“Hoje em dia os exercícios de assoalho pélvico estão relacionados com melhora de qualidade de vida”, define Ana Gehring, fisioterapeuta pélvica, idealizadora do site Vagina sem Neura.

O HuffPost Brasil conversou com profissionais para entender, afinal, o que é o assoalho pélvico, como trabalha o profissional especializado em fortalecer a região e qual a importância de cuidar dessa musculatura do corpo.

O que é uma fisioterapeuta pélvica e como ela trabalha?

“O fisioterapeuta pélvico é o profissional que vai reabilitar a musculatura do assoalho pélvico. As consultas são sempre presenciais e são semelhantes a um exame ginecológico e lá o fisioterapeuta vai conseguir analisar a musculatura do assoalho pélvico”, define Ana Gehring, fisioterapeuta pélvica, idealizadora do portal Vagina sem Neura.

De acordo com ela, após a avaliação será definido se é necessária uma reabilitação ou um trabalho de prevenção. A profissional estima que cerca de 50% das mulheres vão apresentar perdas urinárias ao longo da vida, por exemplo, e isso pode ser prevenido com a atuação do fisioterapeuta pélvico. Ana é especializada em tratar disfunções sexuais, mas o trabalho abarca outras questões. 

Lívia Simon, fisioterapeuta pélvica, explica como funciona uma consulta.

“A gente faz toda uma ficha de avaliação com o paciente e foca na queixa principal, desde quando ela tem os relatos e o que isso atrapalha na vida diária dela. Em seguida, a gente faz uma avaliação prática do assoalho pélvico, de todo o canal vaginal e vemos se tem musculatura tensa e em cima disso se precisa alongar ou fortalecer, ou se o músculo não está contraindo ou não está relaxando. Durante toda a consulta a explicamos o que vamos fazer”.

O que é o assoalho pélvico?

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Na imagem acima, a parte avermelhada representa a região em que o assoalho pélvico está localizado.

“O assoalho pélvico é uma rede muscular composta por 13 músculos que vão do púbis ao nosso cóccxis, então essa musculatura é que faz o suporte da bexiga, do útero [no caso das mulheres] e do intestino e é responsável pela continência dos esfíncteres da uretra e do ânus”, explica Ana.

Por isso trabalhar a musculatura é importante para tratar queixas relacionadas a incontinências e também por isso influencia na qualidade da vida sexual. 

Quem “pode” ir a uma e quais as indicações?

Apesar de ser mais conhecido na atuação com mulheres, esse profissional também pode ser procurado por homens e crianças.

“Todo mundo deveria fazer exercícios íntimos para evitar disfunções futuras. Esse profissional não trabalha só com disfunções sexuais, mas também com o trabalho de preparo de gestantes para o parto, arrebentação no pós parto, trabalha com crianças com dificuldade no desfralde, com homens que retiraram a próstata e tem perdas urinárias, homens com ejaculação precoce e disfunção erétil, além de, no geral, [tratar] de perdas urinárias, urgências miccionais e também incontinências de flatos e de fezes”, define Ana.

A profissional ainda defende que o cuidado com a musculatura seja levado para o resto da vida.

“Não que a pessoa vai ficar escrava de fisioterapia e fazer toda semana, não, mas ela deve passar por uma avaliação para saber como está a condição muscular dela. Toda mulher deve começar os exercícios pélvicos e levar isso para o resto da vida. Os exercícios são rápidos e práticos e podem ser feitos de roupa em qualquer lugar e tomam poucos minutos por dia”, orienta Ana.

Quais as principais queixas ou o que buscam as pacientes que fazem fisioterapia pélvica?

A maioria das queixas de quem procura um fisioterapeuta pélvico são em relação a incontinência urinária e casos de dores durante a relação sexual. Além disso, nos últimos anos tem sido indicada por médicos ginecologistas para preparação do trabalho de parto.

“Geralmente as pessoas procuram quando já estão com queixas de perdas urinárias, mas também tem questões anais de perdas de flatos e de fezes e, no meu consultório, basicamente trato disfunções sexuais femininas que é baixa lubrificação, baixa sensibilidade no clitóris, pouca sensibilidade durante a penetração, dificuldade de atingir o orgasmo”, exemplifica Ana.

Quais os principais benefícios e a importância de uma fisioterapia pélvica?

“Os principais benefícios que ela dá estão na conscientização que a musculatura do assoalho pélvico precisa ser trabalhadas como o resto do corpo porque é tudo interligado, as fases, as fibras musculares são iguais e se a gente para de fortalecer abdômen, pernas, elas ficam flácidas, fracas, e isso acontece com a musculatura do assoalho pélvico, queda hormonal, avançar da idade, menopausa, tudo isso influencia em toda a musculatura do nosso corpo e não seria diferente na do assoalho pélvico”, defende Lívia. 

Os principais benefícios que ela dá estão na conscientização que a musculatura do assoalho pélvico precisa ser trabalhadas como o resto do corpo porque é tudo interligado.Lívia Simon

Assim, as especialistas destacam que trabalhar a região pode não só resolver queixas pontuais como evitar disfunções e desconfortos no futuro. “Hoje em dia os exercícios de assoalho pélvico estão relacionados com melhora de qualidade de vida. Eu acho que é o principal benefício porque muitas mulheres por volta dos 40, 50 anos precisam usar absorvente para sair de casa porque sabem que se forem esperar vão perder urina e isso pode causar depressão, muita tristeza e diminui os vínculos e traz isolamento social para a pessoa”, diz Ana.

A procura por fisioterapeuta pélvica tem aumentando? Por quê?

Apesar de talvez não ser ainda algo tão popularizado, as profissionais percebem um aumento na procura por esse tipo de acompanhamento. Lívia destaca as indicações para preparo de trabalho de parto para isso.

“A maior indicação está sendo no preparo para o parto. Diminuir a chance de uma laceração, de fazer uma episiotomia, então a fisioterapia pélvica está vindo em um auge grande relacionado ao trabalho de parto. Ressalto que está sendo indicada como um padrão ouro [teste padrão que ajuda na avaliação, diagnóstico e tratamento] para lapsos de bexiga, queda do reto, queda dos órgãos e tem médicos que pedem pra gente fazer o fortalecimento e às vezes acaba nem fazendo cirurgia”.

 

Acho que o maior tabu está em relação a vagina mesmo, em não se ter um cuidado. 90 % das mulheres que chegam ao meu consultório nunca pegaram um espelhinho para olhar para a sua vagina.Ana Gehring

Ana acredita também que a busca das mulheres por informações diversas para resolver questões íntimas colocou a profissional em evidência. “A procura tem aumentado bastante por causa da internet porque as pessoas procuram ’tenho dor na relação, o que posso fazer?”, analisa.

Existe algum tabu e/ou falta de conhecimento em relação a fisioterapia pélvica?

Os resultados do trabalho da musculatura pélvica na mudança de vida das pacientes são evidentes, mas, mesmo assim, as especialistas veem que ainda existem tabus e falta de informação em relação ao assunto.

“Acho que o maior tabu está em relação a vagina mesmo, em não se ter um cuidado. 90 % das mulheres que chegam ao meu consultório nunca pegaram um espelhinho para olhar para a sua vagina, então eu acho que é a questão do próprio tabu da mulher com o corpo dela mesmo e de não sentir essa necessidade de cuidar dessa parte tão importante do corpo, mas isso com certeza está melhorando muito”, analisa Ana.

Para Lívia, a questão está também na falta de informação sobre o tema já que a maioria das pacientes busca a profissional somente quando já está com alguma queixa ou disfunção, comportamento que poderia ser diferente.

“Acho que existe falta de conhecimento porque se as pessoas conhecessem e procurassem saber os benefícios reais que a fisioterapia trás para elas, também trabalhariam mais na prevenção. É sempre melhor trabalhar na prevenção do que depois tratar algo”.