ENTRETENIMENTO
20/11/2019 19:37 -03

Questões raciais colocam em dúvida até hoje um caso retratado na série 'Mindhunter'

Caso do Assassino de Crianças de Atlanta ainda está envolto em uma série de mistérios, e muito disso tem a ver com racismo.

Retratada na segunda temporada da série Mindhunter, a onda de assassinatos que aconteceu na cidade de Atlanta entre 1979 e 1981 é, até hoje, alvo de acaloradas discussões entre parentes de vítimas, especialistas no assunto e o público em geral.

Mesmo com a condenação de Wayne Williams em 1982 pela morte de Nathaniel Carter (27) e Jimmy Payne (29), ainda há muitas dúvidas sobre quem é o autor dos crimes que vitimaram cerca de 30 pessoas, na maioria crianças e adolescentes com idades entre 8 e 15 anos, na capital do estado da Georgia. 

Até John Douglas, ex-agente do FBI que serviu de inspiração para Holden Ford, um dos protagonistas da produção da Netflix, não bate o martelo sobre a autoria de todos esses assassinatos.

“O Assassino de Crianças de Atlanta foi um dos casos que colocaram o programa de perfis comportamentais do FBI no mapa da aplicação da lei. Quando eu e o agente especial Roy Hazelwood fomos a Atlanta, ela já era uma cidade sitiada. A presunção era que uma organização de ódio do tipo da Ku Klux Klan estava matando essas crianças afro-americanas. Mas, quando Roy e eu examinamos os arquivos do caso, analisamos os locais dos sequestros e despejos de corpos, ficou claro para nós, através de nossa própria pesquisa e experiência, que não se tratava de um terrorista doméstico, mas de um homem afro-americano solitário”, contou Douglas em uma entrevista exclusiva do HuffPost.

“Nem todo mundo foi receptivo a essa análise. Quando percebemos que esse assassino desconhecido estava seguindo a cobertura da mídia, fomos capazes de desenvolver técnicas proativas para tentar pegá-lo. Um dessas estratégias era tentar antecipar onde ele iria despejar corpos. E foi dessa forma como ele foi finalmente pego. Tendo dito isso, no entanto, também deixamos muito claro para a força-tarefa de Atlanta que não acreditávamos que Wayne Williams tivesse cometido todos os assassinatos”, acrescentou.

Reprodução/Divulgação/Montagem
O verdadeiro Wayne Williams e o ator Christopher Livingston, que interpreta o papel do Assassino de Crianças de Atlanta na série "Mindhunter".

Porém, após Williams ser sentenciado à prisão perpétua por apenas dois dos cerca de 30 assassinatos, a polícia de Atlanta encerrou os outros casos e, até hoje, ninguém foi condenado por eles. Gerando revolta na comunidade negra local e dando vazão a uma série de teorias que seguem atiçando a imaginação de muita gente. Principalmente depois da estreia da nova temporada de Mindhunter, em agosto deste ano, quase 40 anos depois do caso.

É verdade que em pelo menos 23 das vítimas foram identificadas evidências que as ligavam a Williams por meio de fibras correspondentes a roupas, carpetes e toalhas da casa do acusado, mas nenhuma delas foi considerada suficiente para condená-lo.

Em uma complicação final do caso, durante o julgamento, outro garoto foi achado no rio Chattahoochee, local usado para a “desova” de alguns dos corpos da vítimas e onde Williams foi pela primeira vez confrontado por policiais, que ouviram algo grande caindo na água pouco antes de cruzarem com ele em uma ponte. Na época, a defesa alegou que o verdadeiro culpado era o grupo racista Ku Klux Klan. 

A tensão racial no final da década de 1970 e início dos anos 1980 era latente em Atlanta e região, e ela ainda é um dos principais fatores que ajudaram a construir teorias contrárias a culpabilidade de Williams, hoje 61 anos. Ainda hoje, ele nega sua participação em qualquer um desses crimes enquanto cumpre sua sentença na penitenciária estadual de segurança máxima de Hancock.

A teoria da Klan

A teoria mais popular é, claro, a que envolve a Klu Klux Klan. Também conhecida como KKK ou Klan, a primeira manifestação da Klu Klux Klan aconteceu no final dos anos 1860, mas o grupo que é conhecido hoje surgiu no sul dos Estados Unidos em 1950, sob a forma de pequenas facções locais e desconexas que usa da violência e assassinatos para propagar seus ideais extremistas de supremacia branca.

Muitos membros da KKK, todos obviamente brancos, estavam espalhados pelas mais diversas atividades na sociedade, entre elas, policiais, juristas e políticos, tendo vários de seus crimes acobertados pelas autoridades.

O agente John Douglas não acreditava que os assassinatos fossem obra da organização racista por conta de sua experiência na formatação de perfis psicológicos de serial killers (termo que ele ajudou a cunhar), mas a força da KKK na região era ainda muito grande na Atlanta da década de 1970.

O caso mais concreto envolvia Charles Sanders, um membro da Klan que poderia ter matado Lubie Geter, de 14 anos. Sanders havia ficado bravo com o adolescente por ele supostamente ter riscado sua caminhonete. Uma matéria publicada na revista Spin em 1986 revelou que um informante da polícia havia avisado as autoridades que Sanders falou para ele quando viu Jeter passando em frente a sua casa: “Vê aquele p... bastardo? Eu vou pegar ele. E quando pegá-lo, vou estrangulá-lo até a morte”.

Porém, nada foi feito em relação a Sanders. A polícia dizia que não havia evidências que ligassem Sanders a qualquer um dos assassinatos.

Sanders aparece na segunda temporada de Mindhunter. Na cena, que acontece no oitavo episódio da série, ele é pego falando ao telefone com seu irmão Donnie, que “pegou” Geter e que vai atrás de outro garoto negro.   

Tio Tom e Jamie Brooks

Outra teoria é que alguns desses crimes foram cometidos por pedófilos conhecidos por atuarem na região de Atlanta, como Tom Terrell, conhecido como Tio Tom Terrell.

Ele vivia em uma área onde boa parte das vítimas tinham desaparecido e se encaixava no perfil traçado por Douglas com base no programa de perfis comportamentais do FBI. O de um homem negro, já que seria muito improvável que uma criança ou um adolescente negro em Atlanta na época seguiria um estranho branco. 

Outro suspeito é Jamie Brooks. Ele é, junto com Terrell, fortemente ligado a pelo menos um dos assassinatos, o de Clifford Jones (12 anos). O irmão de Clifford, Emmanuel Williams, acusa os dois de sequestrar, estuprar e matar seu irmão na casa de Terrell, conhecida pela polícia como Casa do Tio Tom, onde ele teria cometido uma série de estupros. De acordo com Emmanuel, a polícia não fez nada por que simplesmente não ligava para o que acontecia na vizinhança, uma região muito pobre e com população majoritariamente negra.

Jamie Brooks foi condenado por outro assassinato de uma criança, mas nunca foi relacionado a morte de Clifford Jones. 

A polícia de Atlanta defende que é fácil acusar pedófilos conhecidos, já que eles são os bodes expiatórios perfeitos, mas que nenhuma evidencia ligava Terrell e Brooks a nenhum dos casos da investigação que prendeu Wayne Williams. Mas é bom lembrar que exames de DNA não era uma realidade na época. 

Experiências com órgãos humanos

No entanto, a mais sombria (e maluca) das teorias nasceu por conta de um detalhe ainda mais escabroso. Algumas das cerca de 30 vítimas tiveram órgãos retirados de seus corpos por seu assassino ou assassinos. Rins, fígados e até órgãos sexuais.

A teoria da rede de tráfico de órgãos humanos foi popularizada por Dick Gregory, um comediante e ativista dos direitos civis dos negros que ficou obcecado com a série de assassinatos. 

De acordo com essa teoria, o Centro de Controle de Doenças (CDC, em inglês), que possui sua cede em Atlanta, estaria fazendo experiências com órgãos retirados de indivíduos que em uma sociedade racista, não passavam de cobaias.

Gregory, que morreu em 2016, chegou a afirmar que a mãe de uma das vítimas disse que viu marcas de seringa no pênis do corpo de seu filho. O motivo para tais experimentos era a utilização de uma proteína chamada interferon, que é usada no tratamento do câncer.