OPINIÃO
06/08/2019 13:32 -03 | Atualizado 07/08/2019 15:20 -03

Como famílias em luto preservam a memória de jovens vítimas de homicídio no Rio

Do futebol ao grafite, a homenagem a rapazes assassinados.

Divulgação/Agência Narra
Amigos de Fernando de Morais prestam homenagem a ele ao jogar futebol na Baixada.

Toda vez que o apito inicial soa, os 11 garotos sentem um frio na barriga. Para a Família Bicó, entrar em campo significa mais do que buscar um bom resultado no campeonato. É com a bola nos pés que os meninos encontram uma forma de matar a saudade de um grande amigo.

O time foi criado, em outubro de 2017, dias depois do assassinato de Fernando de Morais, que sonhava em ser jogador de futebol. O adolescente de 15 anos brincava com os passarinhos quando foi alvejado no quintal da própria casa, durante ação do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) no município de Japeri, na Baixada Fluminense.

A partir dali, jogar bola transcendeu o status de brincadeira para ser um compromisso com a memória. Com o rosto do amigo estampado na camisa, os garotos driblam a dor e correm por manter a lembrança viva. ”É difícil falar do Fernando, tia”, desabafa um dos integrantes. “Sinto falta dele!”, acrescenta outro colega.

A torcedora número 1 do time é a mãe de Fernando, Ana Paula Ambrosio. À beira do gramado, dá conselhos, leva água e recolhe os uniformes para trazê-los limpos na próxima disputa. São os filhos e a Família Bicó que, segundo ela, ainda lhe dão alguma força para levantar da cama de manhã e encarar o luto.  “Confesso que não tenho mais vontade de sair de casa. Antes eu não parava, vendia roupa de cama, lingerie, mas agora minha vida é levar e buscar as crianças na escola. As operações [policiais] são constantes e tenho medo de sair e acontecer de novo. Sei que o se o meu mais velho estivesse em casa naquele dia, eles teriam matado ele também, assim como acharam que Fernando era bandido”, diz.

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Fernando de Morais foi assassinado aos 15 anos.

Crimes aumentaram na Baixada

Entre janeiro e fevereiro deste ano, a Baixada Fluminense registrou cem casos de homicídios por intervenção policial, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Na delegacia que atende Japeri, a 63ª DP, os números dispararam no mesmo período: de três casos notificados no ano passado para 11 em 2019.

Questionar as causas dessas estatísticas é uma das frentes de trabalho do Fórum Grita Baixada, que reúne organizações da sociedade civil e pessoas em defesa dos direitos humanos na segurança pública.

O coletivo surgiu após algumas chacinas na região, entre elas a que ficou conhecida como Chacina da Baixada, em 2005, quando 29 pessoas foram assassinadas por policiais militares, em menos de duas horas, nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados.

Quase 15 anos depois, nenhum dos acusados foi preso e episódios como este ainda são frequentes. Em junho desse ano, uma chacina em um bar em Belford Roxo deixou quatro mortos e 13 feridos. Fransérgio Goulart, coordenador do Fórum, explica que, embora a violência seja um problema nacional, a região apresenta características específicas de atuação dos grupos armados, frequentemente envolvidos com o comércio e a política local.

“A Baixada tem sua própria dinâmica. Para os poderes paralelos, a violência acaba sendo um dos mecanismos de controle social dos territórios. Parte das chacinas tem a ver com encomendas de disputas econômicas. E é claro que a pobreza e a desigualdade racial também fazem parte disso. Quem mais morre é a população negra, pobre e periférica”, explica Fransérgio. 

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Nívia Raposo ao lado do grafite do filho, assassinado aos 19 em Nova Iguaçu.

População jovem, pobre e negra é a mais atingida

O Atlas da Violência 2019 confirma em números a avaliação de Fransérgio. O levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta que 75,5% das pessoas assassinadas no Brasil em 2017 eram negras. Os índices também são alarmantes entre a população jovem. Homicídios foram a causa de 51,8% das mortes de homens de 15 a 19 anos.

Rodrigo Tavares tinha 19 quando foi assassinado na rua de casa, em 2015. O garoto havia se recusado a pagar uma taxa no valor de R$500, imposta pela milícia do bairro onde morava, em Nova Iguaçu.

Apesar da popularidade e das amizades que cultivava, o jovem soldado do Exército insistia para que a família se mudasse. “Mãe, agora que você está na faculdade, vamos ver se eu consigo me firmar no quartel para a gente comprar uma casa fora daqui. Esse bairro já deu, muito violento!”, recorda a historiadora Nívia Raposo.

A mãe e o irmão mais novo de Rodrigo trocaram de endereço posteriormente, mas continuam a frequentar o local. Desde o ano passado, um grafite inspirado em uma fotografia do rapaz ilustra o muro da antiga casa. Ao redor, girassóis completam o memorial. Para ela, são formas de preservar a história de um jovem alegre, que equilibrava as tradições militares à personalidade brincalhona, de dançar passinho e soltar pipa com os colegas.

“É uma memória viva, pois Rodrigo era felicidade, sorriso, brincadeira, cor, barulho. Não é porque ele era militar que tinha essa mentalidade em prol de armamento. Meu filho se preocupava com os outros, interagia com todo tipo de pessoas. Então, eu penso: se um menino de 19 anos conseguiu fazer isso, nós temos a obrigação moral de fazer também”, destaca.

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Rodrigo Tavares foi homenageado por familiares com grafite.

Mães se mobilizam por mudanças

Atualmente Nívia colabora com a Rede de Mães e Familiares de Vítimas da Violência do Estado na Baixada Fluminense. Ao mesmo tempo em que reivindica justiça e memória daqueles que se foram, o coletivo assiste os que ficaram. De acordo com as organizadoras, as mães são alvo de julgamento de vizinhos, familiares e amigos.

“As pessoas reforçam um discurso violento de culpabilizar a mãe: ‘ah, se o garoto estivesse na igreja, se ela não o deixasse ficar na rua, isso não teria acontecido’. Alguns religiosos tentam consolar dizendo que ‘Deus quis assim’ e retiram o contexto social das mortes. Tem bairro em que perdemos uma geração inteira de jovens... Homicídios na Baixada não são casos isolados, estão inseridos em uma lógica de guerra às drogas, de extermínio”, questiona a assistente social Luciene Silva.

A Rede de Mães oferece atendimento psicológico na Diocese de Nova Iguaçu, onde também funciona o Fórum Grita Baixada. As integrantes monitoram novos casos, fazem visitas domiciliares e dão palestras sobre o tema em escolas.

“Nosso esforço é para que elas participem da terapia em grupo, pois o engajamento das mães é muito difícil. Elas geralmente convivem com o assassino, sabem quem matou e se sentem impotentes. Algumas não conseguem voltar a viver, comer, cuidar dos outros filhos. Os casamentos são desfeitos, porque o marido não compreende e tem outra forma de lidar com o luto, por conta de um entendimento de que ‘homem não pode chorar’”, explica a articuladora Marilza Floriano.

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Davison Lucas foi assassinado durante operação policial na Maré, zona norte do Rio.

A tecnologia a favor da luta

Dilma é uma entre as mães que não conseguem participar ativamente dos grupos de mobilização, porém encontrou na tecnologia uma forma de contribuir. Para isso, precisa apenas de um celular conectado à internet. É pelo WhatsApp que ela compartilha sua experiência para dar suporte a outras mães que também enfrentam o luto precoce.

“Trabalho de domingo a domingo em um supermercado, então é difícil ter tempo para estar nas atividades. Mas o meu número de telefone está disponível a outras famílias. Às vezes fico até de madrugada conversando, ouvindo a pessoa chorar e desabafar. Só quem já passou por isso é capaz de entender a dor da mãe que perde um filho”, conta.

Dilma estava em casa quando soube, por telefone, que Davison Lucas havia sido alvejado durante uma operação policial na favela da Maré, zona norte do Rio. Era janeiro de 2017, e o garoto curtia as férias escolares na casa da avó materna.

“Ele amava ir ao Parque União, porque eu sempre o prendi muito, por medo dos carros na estrada. Lá na avó ele podia jogar futebol, brincar até tarde... Lucas sempre tentava me convencer a ficar mais tempo do que o combinado. Naquela vez, ele me deu um abraço apertado, como se estivesse se despedindo de mim”, lembra a mãe.

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Bruna Silva quer justiça pelo filho, Marcus Vinicius, baleado a caminho da escola na Maré.

Violência é prejuízo nacional

Além da perda imensurável para aqueles que conviviam com as vítimas, os homicídios provocam prejuízo financeiro ao País. Um estudo da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo federal revelou que o Brasil perde R$ 550 mil a cada morte de jovem entre 13 e 25 anos. Para chegar a esse número, os especialistas calcularam o possível rendimento dessa faixa etária, enquanto estivesse ativa para o trabalho.

A psicóloga Raquel Willadino acrescenta ao fator econômico o prejuízo social. Para a pesquisadora, o atual quadro tem sido influenciado pela naturalização dos homicídios, silenciamento de parte da sociedade diante da escalada dos números e a dinâmica dos órgãos de investigação e de justiça.

“Existe uma hierarquia que determina qual vida vale mais e que é determinada por desigualdades raciais, de gênero, etárias e territoriais. Isso também se expressa na falta de resolução e de responsabilização dos casos de homicídios. Apesar de termos mais de 60 mil vítimas por ano no Brasil, o índice de esclarecimento desses casos é baixíssimo, o que se agrava quando há envolvimento de agentes do Estado. Com frequência, além de reivindicar
justiça, as famílias também têm que lutar contra a criminalização e a estigmatização dos jovens que foram mortos”, defende a diretora da equipe de direito à vida e segurança pública da ONG Observatório de Favelas.

Atualmente, Willadino desenvolve uma pesquisa qualitativa sobre homicídios de adolescentes no estado do Rio.  Um dos casos abordados é o de Marcus Vinicius, baleado a caminho da escola, durante operação da Polícia Civil na Maré. Nem mesmo o uniforme e a mochila nas costas privaram o adolescente de 14 anos de ser alvo de “fake news”.

À medida que o fato tomava proporção nos veículos de comunicação, montagens do garoto com armas e drogas circulavam nas redes sociais. No muro do Ciep Operário Vicente Mariano, ao contrário, fotografias não adulteradas homenageiam o ex-aluno. Em uma delas, Marcus posa fazendo o sinal de paz.

“Meu filho era ‘terrível’. Ele conseguiu me convencer a ir sozinho para a escola, com a justificativa de ser o único daquela idade na companhia da mãe. Para me tranquilizar, criou um grupo no WhatsApp, o Vicente Mariano a todo vapor, que tinha os alunos, os responsáveis, os professores e o diretor. O grupo existe até hoje”, conta Bruna Silva.

Um ano depois, o inquérito segue sem novidades, mas a doméstica se movimenta. Inspirada no filho estudioso e fã de matemática, planeja retornar à sala de aula, que não frequenta desde que precisou interromper o terceiro ano do fundamental para trabalhar.

“Para mim é muito importante passar força e coragem para meu marido e minha filha, mesmo sofrendo e chorando às vezes. Força, porque precisamos resistir para existir. O Estado roubou esse sonho do meu filho, então eu pretendo estudar por ele e por mim”, projeta.

De corpo franzino, mas de alma forte, Bruna assumiu o papel de ativista. Com o uniforme ensanguentado de Marcus Vinícius nas mãos, denuncia em debates, atos e palestras a violência que a mudou para sempre.

“Meu filho se foi, mas a memória dele está viva. E é assim que eu vou manter viva, gritando o nome dele pelos quatro cantos do mundo, sobre os direitos que a ele foram negados. A Bruna de hoje é uma mulher ‘chapa quente’, uma guerreira atrás de justiça. Eu não quero que tenha mais Marcus Vinícius pelo caminho, entendeu? Chega! Chega!”, conclui.

Esta reportagem é de autoria de articulistas do HuffPost Brasil. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.