OPINIÃO
28/04/2020 12:00 -03 | Atualizado 28/04/2020 12:00 -03

Aruanas: Série sobre crise ambiental estreia em meio a recorde de desmatamento na Amazônia

Thriller tem 10 episódios e irá ao ar toda terça-feira na TV Globo, após novela 'Fina Estampa'.

Fábio Rocha/TV Globo
As Aruanas: Clara (Tainá Duarte), Verônica (Taís Araújo), Natalie (Débora Falabella) e Luiza (Leandra Leal).

Chega à TV aberta nesta terça-feira (28) a série Aruanas, uma coprodução TV Globo e Maria Farinha Filmes, definida como um thriller ambiental com propósito claro: alertar para a crise ambiental mundial e valorizar e proteger o trabalho de ativistas.

A trama mexe em uma ferida latente: a destruição de nossos recursos naturais em nome de um progresso questionável, o que impacta diretamente na vida de todos — índios, moradores de comunidades ribeirinhas ou grandes centros urbanos, pobres ou ricos.

Chama a atenção na produção a força feminina. Os ativistas são encabeçados por 4 mulheres, que se doam incondicionalmente e movem mundos e fundos para alcançar um objetivo comum. Na trama, a ONG Aruana investiga uma denúncia de envolvimento de uma grande mineradora em crimes ambientais, com garimpos ilegais, devastação de florestas e massacre de uma reserva indígena.

À primeira vista, impressiona a força das imagens, tendo como principais cenários garimpos na Amazônia e uma pequena cidade à margem do rio – a fictícia Cari. A narrativa é envolvente e instigante, embasada sobretudo na força dos protagonistas, bem delineados e bem desenvolvidos por seus intérpretes, em especial as ativistas (as “aruanas” do título) Natalie (Débora Falabella), Verônica (Taís Araújo), Luiza (Leandra Leal) e Clara (Tainá Duarte), e os vilões Miguel (Luiz Carlos Vasconcelos) e Olga (Camila Pitanga).

Com direção-geral de Estela Renner e direção artística de Carlos Manga Jr., a série foi criada por Estela Renner e Marcos Nisti, da produtora Maria Farinha Filmes, que vivem o ativismo há anos. Aruanas teve parceria técnica do Greenpeace, que treinou os atores para uma situação de risco em ação não violenta, e o apoio de cerca de 28 ONGs de atuação internacional. Marcos Nisti e Estela Renner concederam entrevista à coluna:

Como ativistas do meio ambiente e criadores de conteúdo audiovisual, qual a importância de abordar o ativismo e levantar a bandeira por meio do entretenimento?

Marcos Nisti: O entretenimento é um espaço de cocriação, com o público. Juntos, a gente pode sonhar com o mundo que queremos, imaginar coletivamente um mundo. Fazer esta projeção é uma forma de ação. Como chegar a um mundo verde, sustentável, colaborativo se todas as produções que mostram o futuro hoje o mostram distópico, cinza, sem árvores, com o melhor da tecnologia e o pior do ser humano? É uma imagética que está sendo lançada aí, que é perigosa, ao nosso ver. 

Qual a responsabilidade em levantar essas questões no entretenimento, cujo alcance é tão amplo (não somente entre as pessoas envolvidas na causa)?

Estela Renner: Enorme. Apesar de ser uma obra de ficção - e deixamos isso bem claro o tempo todo -, os assuntos tratados em Aruanas são fruto de uma grande pesquisa feita com ativistas, organizações como o Greenpeace, publicações científicas, jornais e documentos. Todos os episódios tratam de eventos que já ocuparam páginas de nossos jornais.

Fábio Rocha/TV Globo
Marcos Nisti (roteirista) e Estela Renner (roteirista e diretora).

Como vocês estão trabalhando neste momento em que todas as atenções estão voltadas à pandemia do novo coronavírus (covid-19)?

Marcos Nisti: Aruanas estreia no horário nobre da Globo e com muita gente em casa assistindo. Ao mesmo tempo em que, no meio de toda a pandemia, tivemos o recorde de desmatamento da Amazônia e é disso que se trata a série. Isso precisa ser falado. As pessoas, em suas casas, precisam saber que tem gente morrendo por tentar salvar a vida de outras pessoas e do planeta. Um dos nossos objetivos, quando criamos os nossos personagens, foi de trazer humanidade a eles. Na vida particular, eles são como eu, como você. Erram, omitem, vivem suas tragédias demasiadamente humanas. Mas, quando sonham juntos dentro da ONG, são esta potência. Eles têm este sentimento quase inocente de que quando a intenção é a correta, o universo tem um pacto secreto com você, conspira a favor. E, por isso, se colocam em posição de risco e de luta sem medo do porvir. O que muito tem a ver com a situação dos nossos ativistas hoje, que pelo bem maior acabam sendo assassinados. Nossos ativistas reais são verdadeiros heróis. 

O que mudou no trabalho de proteção e nos ataques à natureza e aos envolvidos com a natureza neste momento de pandemia? 

Estela Renner: Infelizmente, os alertas de desmatamento na Floresta Amazônica bateram o recorde histórico para o primeiro trimestre de 2020, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Durante este momento — em que a maioria das pessoas que podem estão em casa —, mataram pelo menos duas lideranças indígenas. Neste momento, nada mudou para melhor. Continuamos perdendo uma riqueza de biodiversidade a cada minuto que passa. É isso que Aruanas tenta mostrar para evitar.

César Alves/TV Globo
Os ativistas Cristian Wariu Tseremey'wa e Josi Malheiros.

A seguir, minha entrevista com o índio xavante Cristian Wariu Tseremey’wa, da equipe do Instituto Socioambiental (ISA), criadordo canal no YouTube Wariu (que produz vídeos sobre diversos assuntos e conta como é ser indígena no século 21) e repórter do podcast Copiô, Parente (direcionado aos povos tradicionais indígenas):

Como é a realidade dos ativistas ambientais no Brasil? 

A realidade dos ativistas ambientais, e mais especificamente de líderes indígenas que lutam pelas suas comunidades e territórios, é bastante delicada. Quando tive a oportunidade de visitar todas as regionais indígenas, percebi um medo claro quanto à segurança de lideranças indígenas que colocam suas vidas em risco quando denunciam e lutam diretamente contra interesses externos sobre os territórios e empreendimentos dentro das aldeias. Então, é possível concluir que ser ativista no Brasil é bastante perigoso. Mas, para os povos indígenas, é extremamente necessário para a proteção dos territórios e do meio ambiente.

Como vocês estão trabalhando neste momento em que todas as atenções estão voltadas à pandemia?

Atualmente, tenho atuado com a Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso. Buscamos em conjunto a autonomia dos povos indígenas e a representatividade como protagonistas das tomadas de decisão. A nossa atuação, que antes priorizava a chegada de investimento para as terras indígenas, acabou sendo interrompida para dar lugar à corrida na busca de apoios para que as aldeias e comunidades tivessem condições de se manter em quarentena e evitar ao máximo se colocar em risco nas cidades mais próximas aos territórios. Dessa forma, estamos atuando em campanhas de financiamento coletivo para obter recurso para atender especificamente as famílias que não possuem nenhum tipo de cobertura e que se encontram em situação de vulnerabilidade, neste momento tão delicado.

O que mudou no trabalho de proteção e nos ataques à natureza e aos envolvidos com a natureza neste momento de pandemia?

Sem dúvida, vivemos em um momento de diversos ataques que já ameaçavam os territórios antes da pandemia da covid-19. O monitoramento - que já sofria diversas perdas - agora se encontra quase inexistente e, em alguns casos, vários povos estão de fato abandonados à sorte. Nesse sentido, a nossa pressa vem de trazer esses apoios a esses territórios que não possuem nenhum tipo de cobertura e que precisam também ser auxiliados para denunciarem às autoridades os casos explícitos de ataques à natureza e aos protetores das florestas.

Muitas vezes, somos até forçados a aderir à luta para garantir a sobrevivência e sustentabilidade de todos, e isso se torna um ganho, quando a luta se transforma em valores.

Abaixo, minha entrevista com Josiane Malheiros, membro daAssociação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas, no Pará, que há 20 anos trabalha pela sustentabilidade, fortalecimento das comunidades e igualdade de gênero na Amazônia.

Na luta a favor da biodiversidade, o ganho é coletivo. Quais os ganhos pessoais quando você decide participar ativamente dessa luta?

O processo é totalmente coletivo, e os ganhos são gerados para todos de forma geral. Muitas vezes, somos até forçados a aderir à luta para garantir a sobrevivência e sustentabilidade de todos, e isso se torna um ganho, quando a luta se transforma em valores (social, econômico, ambiental, valorização do protagonismo feminino).

Parte da minha formação como ativista, assim como de outros colegas, é fruto de aconselhamentos, experiências de lideranças que lutaram/lutam pelos mesmos ideais, em especial alguns dos meus familiares, como avós e tias, que eram parteiras na comunidade.

E a maioria dessas pessoas que me influenciam não tinham nenhuma formação acadêmica, e alguns eram semianalfabetos. No entanto, possuem uma riqueza de conhecimentos que foram adquiridos com as suas vivências e práticas, ou seja, eram ativistas sem saber, pois garantiram nossa sobrevivência. Hoje temos a responsabilidade de dar continuidade a esse trabalho, garantindo aos demais. 

O que mudou no trabalho de proteção e nos ataques à natureza e aos envolvidos com a natureza neste momento de pandemia?

Concentramos nossos esforços na proteção dos recursos locais e das famílias que nesse momento precisam garantir seu próprio sustento. O trabalho segue, mas com a pandemia estou realizando todos contatos via telefone, contando cada vez mais com o apoio de parceiros e colaboradores que conseguem executar ações onde eu não posso estar. E assim a luta continua. 

Em 10 episódios, Aruanas será exibida às terças-feiras, após a novela Fina Estampa. 

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