LGBT
05/04/2019 08:14 -03 | Atualizado 05/04/2019 08:14 -03

Sou não-binário, mudei para o sul dos EUA e comprei uma arma

"Eu não me sentia mais seguro pelo fato de ter uma arma em casa. Me sentia menos impotente, mais no controle."

Courtesy of Katie Anania
Plaut apontando para o primeiro tiro que deu na vida, direto na mosca com uma arma calibre .22 (razão do buraco minúsculo), em agosto de 2018.

O cartaz dizia “Satanás é democrata!” e estava pregado à fachada de uma pequena casa pré-fabricada na beira da Highway 441, a rua principal de comércio que percorre a cidade de Milledgeville, na Geórgia, nos Estados Unidos. Os dizeres só tinham sido alterados recentemente – a mensagem anterior era “Os democratas são os inimigos da América!”. Outro cartaz ao lado dele, este impresso em “silk screen”, anunciava uma igreja chamada Sociedade dos Dez Mandamentos. O juiz Brett Kavanaugh estava prestes a ter sua nomeação para a Suprema Corte aprovada, de modo que esse cartaz doeu um pouco mais. Minha esposa, Katie, e eu decidimos parar e fazer fotos diante da casa para postar no Instagram. Foi nosso pequeno gesto para dizer “fodam-se vocês!”.

Era nessa cidade que estávamos vivendo agora. E placas como aquela foram parte da razão por que decidi comprar uma arma de fogo.

Preciso mencionar quem e o que sou: tenho 43 anos, me considero um homem trans e não-binário, sou casado com uma mulher, sou judeu e sou ateu; filho de professores em Nova York e neto de sobreviventes do Holocausto. Também sou democrata, isso mesmo. Em suma, sou Satanás encarnado, o inimigo, algo que muitos de meus novos vizinhos desejariam que não existisse.

Nós nos mudamos para cá em julho de 2018, vindos do Brooklyn, quando Katie foi convidada para ser professora numa faculdade de artes liberais em Milledgeville. A primeira coisa que fiz quando recebemos a notícia foi dar um Google por “Milledgeville” + “gay”. Entre os resultados havia uma reportagem de 2015 sobre uma igrejinha com um cartaz na beira da estrada dizendo “a homossexualidade é um crime digno de ser castigado com a morte” (descobri mais tarde que a igrejinha em questão era a mesma casa na rodovia 441 que considera que os democratas são o diabo).

Mais abaixo na lista de resultados havia um artigo sobre o tio gay de Honey Boo Boo, personalidade de reality show, que é de Milledgeville e teria dito “sou gay, mas redneck ao máximo” (“redneck” é um termo pejorativo para designar americanos brancos vistos como toscos e deseducados, geralmente pessoas da zona rural do sul dos Estados Unidos).

Courtesy of Katie Anania
Plaut olhando um cartaz de uma igreja local em Milledgeville, Geórgia, em setembro de 2018.

Quando chegamos, encontramos centenas de cartazes de campanha de Brian Kemp (o governador da Geórgia) brotando como mato à beira das estradas. A terra propriamente dita era belíssima. A visão de quilômetros e quilômetros de terra cultivada foi algo novo para mim, e achei emocionante ver vacas, cavalos, veados, perus e tatus (estes geralmente atropelados na estrada) sempre que eu ia de carro a qualquer lugar. Às vezes, quando o sol estava na posição perfeita, era fácil entender por que as pessoas amavam tanto essa terra.

De fato, havia bandeiras norte-americanas em todo lugar. Mas alguma coisa nelas me pareceu agressivo, performático. Elas estavam em casas, caixas de correio e picapes, e a mensagem parecia ser “sou patriota. Sou mais americano que você”.

Havia outros cartazes na área, um deles dizia “invasores: a outra carne branca”, além dos previsíveis cartazes de MAGA (Make America Great Again – Faça a América Grande Outra Vez, bordão de Donald Trump) e mais bandeiras confederadas do que eu jamais tinha visto, exceto no cinema.

Descobri que há uma empresa de roupas que se dedica exclusivamente a esse tipo de ostentação do patriotismo das pessoas. É o chamado “estilo grunt”, ou militar. O site da marca diz: “Nossa missão é entregar as roupas de alta qualidade mais patrióticas do planeta diretamente para a porta de sua casa”.

Eu sentia essas manifestações agressivas de patriotismo como uma ameaça. Elas lembravam mais um nacionalismo, como se estivessem dizendo “sou americano e tenho o direito de atirar em você”.

Minha avó não se vestia ao estilo grunt, mas amava este país profundamente. Ela chegou a Nova York em 1937, fugindo da Alemanha nazista. Antes de ela morrer, em 2010, eu lhe disse que talvez entrasse com pedido de cidadania dupla, alemã e americana. Há uma lei que autoriza os descendentes de sobreviventes do Holocausto a se renaturalizarem cidadãos na Alemanha.

Minha avó ficou horrorizada, perguntando “por que você quer fazer isso? A América é o melhor país do mundo. Ela nos acolheu e nos salvou, nos permitiu ter uma família, uma vida. Nunca vou retornar àquele país horrível.”

E ela nunca voltou.

Havia bandeiras americanas em todo lugar. Mas alguma coisa nessas bandeiras me pareceu agressivo, performático. Elas estavam em casas, caixas de correio e picapes, e a mensagem parecia ser “sou patriota. Sou mais americano que você.”

Estou tendo dificuldade em encontrar emprego aqui (sou urbanista por profissão). Então, para fazer algo que me tirasse de casa, entrei para a academia local de CrossFit, onde o estilo dominante era grunt, de fato.

A maioria dos frequentadores eram pessoas de classe média alta, brancas e cordiais daquele jeito especificamente sulino que me deixa confuso. Eu estava batendo papo outro dia com um deles, um sujeito bonito e musculoso de 30 e poucos anos. Quando manifestei alguma hesitação em ser aceito por aqui, ele me disse: “Não, não, pode ficar tranquilo. Se você pedir ajuda a um sulista, ele fará qualquer coisa por você, seja você quem for”.

Não duvido que tenha sido essa a experiência dele, mas minha esposa e eu conversamos à noite sobre o recém-eleito governador republicano Brian Kemp e sua defesa de um novo projeto de lei de “liberdade religiosa”. As leis de liberdade religiosa protegem pessoas e empresas que se negam a atender uma pessoa LGBTQ quando acham que isso entra em choque com suas crenças religiosas. Ou seja, elas legalizam a recusa de qualquer pessoa em fazer qualquer coisa grande ou pequena por mim, quer seja fazer um bolo, guinchar meu carro ou permitir que eu adote uma criança.

Senadores da Geórgia já aprovaram um projeto de lei diferente que autoriza agências de adoção financiadas pelo estado e que seguem as diretrizes de uma religião a se recusarem a trabalhar com casais homoafetivos (a lei aguarda aprovação pela Câmara no momento em que este texto está sendo escrito).

Mas já nos primeiros meses que vivemos aqui, algo que era do conhecimento de outras pessoas queer e trans na Geórgia ficou claro para mim também: que as leis de liberdade religiosa não são realmente necessárias. Micro-rejeições desse tipo ocorrem de qualquer maneira e de um jeito tão casual que mal é perceptível. No curto tempo desde que chegamos aqui já fomos rejeitados por um corretor imobiliário, que se recusou a nos ajudar a encontrar uma casa, e um médico já me disse que eu não seria “do perfil adequado neste momento” para ser aceito como novo paciente dele.

No entanto, com frequência surpreendente as pessoas me desejam “um dia abençoado”. Ouço isso principalmente de caixas e balconistas em locais não sagrados – a loja de ferragens, o supermercado, o posto de combustível – ou de desconhecidos quando peço indicações para ir a algum lugar. Será que é sequer possível eu ser abençoado, aos olhos deles? Imagino que se renunciasse totalmente à minha identidade inteira e me convertesse ao cristianismo, poderia ser. Mas sou estressado demais para ser abençoado.

***

Nós nos registramos para votar pouco depois de chegar à cidade, animados para dar nossos votos à candidata democrata ao governo, Stacey Abrams. Mas quando Katie quis fixar um cartaz de Stacey Abrams na entrada de nossa casa, eu achei melhor não – tive medo de que isso converteria nossa casa em alvo. Eu estava preocupado com a hostilidade passiva, mas perceptível da cidade. Katie tinha o entusiasmo de alguém que pode se fazer passar por hétero e não corre o risco constante de ser atacada por ser gay. Desistimos do cartaz.

Courtesy of Mel Plaut
Um dia tranquilo no estande de tiro Cedar Creek, em Eatonton, Geórgia, janeiro de 2019.

Para falar a verdade, eu andava pensando em comprar uma arma desde a eleição de 2016. Sempre me posicionei contra armas de fogo, mas tenho que admitir que não sabia nada sobre elas. Com Trump energizando antissemitas e supremacistas brancos e com os crimes de ódio em ascensão mesmo em redutos liberais como Nova York, eu sentia mais medo que nunca de ser atacado por ser genderqueer ou gay ou não conformista de alguma maneira que pudesse ofender à base de Trump. Possuir uma arma começou a me parecer uma boa maneira de proteger a mim mesmo, minha casa e minha família. A mudança para a zona rural da Geórgia fez a autoproteção parecer uma necessidade ainda mais urgente.

Um post no Facebook chamou minha atenção. Oferecia treinamento em armas “para mulheres”. O problema é que não sou mulher. Tampouco sou homem. Alguns cliques a mais me informaram que a pessoa que daria as aulas era defensora hardcore de Trump, então deixei para lá.

Fiz uma busca no Google por “gay” + “arma” e variações disso. Fui levado a um canto da internet povoado por um animado contingente liberal e LGBTQ que se identifica como sendo pró-2A (ou seja, pró a segunda emenda constitucional, que garante aos americanos o direito de possuir e portar armas de fogo). Há uma organização nacional chamada Pink Pistols (Pistolas Cor de Rosa, em tradução para o português), formada em 2000 e que ganhou força após o massacre na boate Pulse, em Orlando, na Flórida. A sucursal de Atlanta dessa entidade parecia estar dormente, mas sua página no Facebook me levou a uma organização semelhante chamada Armed Equality (Igualdade Armada). Ela é liderada por uma mulher chamada Piper Smith. (Pelo que pude depreender, a maioria dos grupos LGBTQ ligados a armas de fogo é dirigida por mulheres trans e cis; faz sentido, já que são elas os alvos mais comuns de agressões e homicídio). A Armed Equality oferece treinamento – em San Diego – em uso seguro de armas de fogo, atendimento médico emergencial e armas táticas. Era exatamente o que eu procurava, mas a organização não tinha filiais locais na Geórgia. A partir dela encontrei outra entidade, esta com o nome esperto Trigger Warning (Aviso de Gatilho). Ela tem uma filial ativa na Geórgia que se reúne mensalmente num estande de tiro de hipsters em Atlanta.

Essas entidades são apartidárias, mas todas compartilham um princípio organizador comum: os crimes de ódio estão em alta, e as pessoas queer e trans não podem depender do governo para protegê-las. Memes com a frase #shootback (atire de volta) ou uma versão arco-íris da bandeira de Gadsden (“Não pise em mim”) são abundantes.

Imaginei que a maioria dos membros desses grupos fosse de viés esquerdista, mas descobri em pouco tempo que não é o caso. A Armed Equality, a entidade mais ativa entre elas, parece estar dividida igualmente entre liberais e conservadores. Existem outros grupos ligados às armas que são mais enviesados à esquerda: Liberal Gun Owners (LG), o Liberal Gun Club e a Socialist Rifle Association (SRA), entre outros. Todos desprezam a NRA e se comprazem em trolar conservadores. O Liberal Gun Club chega a vender alvos no formato de flocos de neve. (Uma alusão à chamada “geração flocos de neve”, que é “um neologismo do idioma inglês usado para caracterizar os jovens adultos da década de 2010 como sendo mais propensos a se ofender e serem menos resistentes do que as gerações anteriores, ou como sendo emocionalmente vulneráveis para lidar com pontos de vista discordantes dos seus. O termo é considerado depreciativo.”)

Para falar a verdade, eu andava pensando em comprar uma arma desde a eleição de 2016. ... Possuir uma arma começou a me parecer uma boa maneira de proteger a mim mesmo, minha casa e minha família. A mudança para a zona rural da Geórgia fez a autoproteção parecer uma necessidade ainda mais urgente.

Há alguns pontos em comum entre a comunidade 2A e os chamados “doomsday preppers” (sobrevivencialistas ou “preparados para o Dia do Juízo Final”), que se preparam para encarar diversos tipos de cenários apocalípticos – falta de alimentos, holocausto nuclear, falência da grade elétrica. Há até posts divulgando várias marcas de caixas à prova d’água com as quais você pode conservar sua arma ao seu lado até no chuveiro.

O espectro da tirania governamental assume proporções ameaçadoras, especialmente para homens brancos, cis e héteros, cujo maior medo parece ser que o governo lhes tire suas armas de fogo. Mas eles também se preocupam profundamente com possíveis violações mais imediatas, como roubo, assalto, estupro e atiradores. A socióloga Jennifer Carlson vincula esse impulso protetor à masculinidade e ao papel cada vez menor dos homens como provedores únicos das famílias americanas. Quando tomei conhecimento disso não pude deixar de me perguntar: estaria eu adotando o papel de “protetor” porque isso me proporcionava um objetivo na vida, agora que eu deixara de ser provedor do casal? Minha vontade de possuir uma arma de fogo seria nada mais que uma manifestação de minha masculinidade? Propus essa teoria a Katie. A reação dela: “Duh”.

Mas em termos de tirania cotidiana real, suas vítimas principais são pessoas LGBTQ, mulheres e pessoas não brancas (como disse a música do Public Enemy que ficaria famosa, “911 Is a Joke”, ou o número 911, o telefone de emergências policiais ou médicas, é uma piada). Eu sofro isso na minha própria pele quando o governo se recusa a reconhecer meu gênero, quando meu convênio médico se nega a pagar por testosterona ou quando o poder público decide qual banheiro público posso usar. Sinto isso na pele cada vez que um desconhecido se arroga o direito de assegurar que eu esteja fazendo xixi no lugar “correto”.

Depois de algumas semanas de hesitação, escrevi um post no grupo do Trigger Warning em Atlanta pedindo ajuda para aprender a usar uma arma. Um cara, um homem gay que chamarei de Daniel, se ofereceu para vir de Macon para me dar uma aula no estande de tiro ao ar livre perto de minha casa.

***

O estande de tiro Cedar Creek ficava a 20 minutos de carro de minha casa, numa área de reserva natural do estado que fazia parte da Floresta Nacional de Oconee. Depois de sair da rodovia, continuei de carro por vários minutos no meio da floresta até ver um pequeno estacionamento à direita da estrada. Daniel estava à minha espera – um homem branco de meia idade, um pouco grisalho dos lados, de bermuda cargo. Ele me tratou com cordialidade imediata, nem um pouco esquisito. Foi um alívio – eu estava nervoso com a ideia de encontrar um estranho que eu conhecera na internet para praticar tiro no meio de uma floresta isolada.

Courtesy of Mel Plaut
Alguns praticantes de tiro esperam sua vez enquanto outros montam seus alvos durante um cessar-fogo em Cedar Creek, janeiro de 2019.

Tirando o guarda de segurança do estande (o RSO), não havia mais ninguém presente, e no meu íntimo fiquei aliviado. Mais do que tudo, eu tinha medo dasoutras pessoas que curtem armas que eu poderia encontrar no estande, como meus vizinhos para os quais Satanás é democrata. O RSO saiu de uma casinha de madeira ao lado do estande para falar conosco. Era um homem baixinho de 60 e tantos anos chamado Ross. Quando ele soube que seria a primeira vez que eu ia segurar uma arma de fogo nas mãos, passou bastante tempo me explicando as regras do lugar, todas sobre segurança física.

“Hoje vocês vão atirar com o quê?”

Daniel abriu a bolsa que trazia no porta-malas de sua perua. “Achei que seria bom iniciá-la com alguma coisa mais fácil e depois partir para outras armas. Todas armas de mão. Uma pistola calibre 22, uma de 9mm, uma calibre 45 e uma 1911.”

Ross concordou. “Boa ideia. Deixe que ela comece com uma calibre 22 e vamos ver como ela se sai.”

Alguma coisa nessa colaboração entre dois homens brancos, cis e mais velhos para me ajudar me tranquilizou, apesar de minha relação ambígua com o pronome “ela”. Me surpreendi também com o entusiasmo deles, a disposição deles em ajudar, compartir recursos e me dar um feedback positivo. Mas isso é algo que eu já tinha começado a reconhecer como sendo habitual na cultura das armas de fogo.

Ross se voltou para mim. “Você tem olhos e ouvidos?”

Respondi estupidamente: “Ahn, tenho?”

Daniel explicou: “Ele está falando dos óculos de segurança e dos protetores de ouvidos”.

Ele tinha me passado links para os protetores de olhos e ouvidos que são exigidos em todos os estandes de tiros. Os pacotes tinham chegado da Amazon alguns dias antes.

“Ah, tá, estão na minha bolsa.”

Coloquei meus olhos e ouvidos.

Atingi o centro do alvo na primeira tentativa. Meu lado Virgem se sentiu profundamente reforçado – era alguma coisa a ver com a precisão, os passos ordenados, a preparação cuidadosa seguida pelo disparo catártico. Eu estava fisgado.

Logo depois do estacionamento havia uma estrutura aberta de madeira com telhado estreito e partições que delimitavam as pistas de tiro. Ross nos designou uma pista e se ofereceu para dar orientações extras, já que eu era novato total. Nós dois apreciamos a ajuda dele. Daniel disse que fazia apenas dois anos que usava arma. Quando perguntei por que ele começara a usar, ele respondeu baixinho, quase cochichando: “política”. Deixamos por isso mesmo enquanto Ross nos preparava.

Levamos nosso alvo de papel até o fim da pista, o grampeamos a uma folha grande de papelão e prendemos o papelão a um estande alto. Ross nos mandou colocar o estande perto dos bancos, a uns três metros de distância, para que eu tivesse uma chance decente de acertar.

Os dois passaram uns 30 minutos me mostrando cuidadosamente como colocar uma bala no pente, como segurar a arma corretamente, como me posicionar, mirar e, o mais importante, manter o dedo em posição segura fora do gatilho, uma coisa conhecida como “disciplina de gatilho”. Finalmente eles concluíram que eu estava pronto e Daniel me entregou a pistola calibre 22. Eu estava apavorado.

Ross me disse: “Lembre-se de segurar com força. Não seja mulherzinha.”

Daniel e eu trocamos um olhar e eu disse: “Acho que isso não é mais possível.”

Repassei cada passo do processo, carregando o pente, posicionando-me com as pernas abertas na largura de meus ombros, braços formando um triângulo isósceles, empurrando a arma para frente com meu braço direito e puxando para trás com o esquerdo, com os polegares sobrepostos.

Alinhei a mira com o oval vermelho no meio do alvo. Respirei fundo, segurei a respiração, pus o dedo no gatilho e apertei, bem devagar.

Atingi o centro do alvo na primeira tentativa. Meu lado Virgem se sentiu profundamente reforçado – era alguma coisa a ver com a precisão, os passos ordenados, a preparação cuidadosa seguida pelo disparo catártico. Eu estava fisgado.

***

No início de setembro a Trigger Warning promoveu um encontro no Quickshot, um estande de tiro em Atlanta. Seriam 90 minutos de carro para chegar lá, mas eu não via a hora de praticar tiro, por isso fui. O Quickshot é completamente diferente do Cedar Creek. É um espaço fechado, com ar condicionado, que se parece mais com um Starbucks que com um estande de tiro. Há quadros nas paredes, sofás confortáveis, um bule de café e toda uma equipe de funcionários jovens e bonitos usando microfones como os agentes do Serviço Secreto.

Courtesy of Mel Plaut
Membro mascarado da Socialist Rifle Association (SRA) no encontro da Trigger Warning no estande de tiro Quickshot, em Atlanta, janeiro de 2019.

Uma garota com cabelo cortado à escovinha estava atrás do balcão quando cheguei, e isso me deixou à vontade imediatamente. Ela me indicou um grupinho de pessoas perto dos banheiros, onde Sarah, uma mulher trans, se apresentou. Ela dirige a filial de Atlanta da Trigger Warning. O encontro estava acontecendo em conjunto com a filial em Atlanta da Socialist Rifle Association (SRA), e, juntos, formávamos um grupo improvável de queers, transsexuais e sujeitos cis muito sérios de rabo de cavalo.

Sarah fez todo o mundo colocar seus olhos e ouvidos e posicionou cada pessoa em sua pista designada. Transmitiu informações completas de segurança a todo mundo antes de nos deixar atirar. Havia várias outros novatos no encontro, e os atiradores mais experientes estavam animados para compartilhar suas armas, munições e conhecimentos.

Passei de uma pista a outra, experimentando armas diferentes. Um dos caras da SRA me deixou disparar sua arma de mão antiga da era soviética, de 9 mm. Outro me entregou seu fuzil AR-15, e isso foi assustador. Mesmo com um laser para me ajudar com a mira, só consegui ficar pensando que aquela era a arma preferida dos autores de massacres. Não era para isso que eu estava ali. Recusei seu convite para experimentar um AK-47 e fui para uma pista diferente, onde uma pessoa de saia e barba farta me mostrou como atirar com um Magnum calibre 357. O treino de tiro era sério, mas o clima geral era descontraído e simpático. O grupo parecia saído da terra dos brinquedos desajustados. Me senti mais à vontade ali do que me sentia havia meses em qualquer outro lugar. Eu não era uma esquisitice no meio daquelas pessoas. Nenhum de nós era. Apesar de termos passado duas horas manejando armas letais, eu me senti em segurança.

***

Nas semanas seguintes, pesquisei várias armas de mão online e aluguei armas em estandes de tiro em Macon e Atlanta para experimentá-las.  Perguntar em grupos do Facebook sobre qual arma comprar é como pedir uma orientação a um nova-iorquino: cada pessoa tem uma opinião diferente sobre o melhor caminho a seguir.

Acabei optando por um Smith & Wesson de 9 mm e o encontrei a um preço ótimo no site Grab a Gun. Na Geórgia é possível comprar uma arma online e pedir que ela seja entregue a um revendedor local que tenha uma Licença Federal de Armas de Fogo (FFL). O revendedor verifica seus antecedentes criminais e transfere a arma legalmente a você.

Courtesy of Mel Plaut
Regras demais. Não, obrigado! (Março de 2019).

O FedEx entregou minha arma dois dias depois a uma loja chamada Bass & Antler. Katie não estava feliz com a ideia de termos uma arma em casa, por isso fui à loja sozinho. Parei o carro no estacionamento de uma casa pré-fabricada com fachada de vinil, a poucos metros da Sociedade dos Dez Mandamentos. Lá dentro encontrei uma sala poeirenta cheia de armas, munições e acessórios diversos para caça e tiro ao alvo. Sorri para dois homens brancos, velhos e grisalhos que estavam atrás do balcão e lhes disse por que eu estava ali. Eles não sorriram de volta.

Um deles me entregou um formulário a ser preenchido para a verificação de meus antecedentes. Havia perguntas tipo “você é foragido da justiça?” “Você alguma vez já renunciou à sua cidadania americana?” O formulário exigia que eu respondesse sobre minha “raça” e meu “sexo”. Há apenas duas opções nesse último quesito, por isso preenchi o espacinho estúpido ao lado de “feminino”.

Quando voltei ao balcão com o formulário, um dos caras pegou meu documento de identidade e o checou com o formulário. O outro cara ficou apenas me olhando fixamente. Depois de um minuto, o primeiro sujeito falou: “Melissa”.

Foi desagradável ouvir meu nome legal. Eu não o uso mais, mas nunca me dei ao trabalho de mudar meu nome no meu documento de identidade. Ele prosseguiu: “Tem que preencher seu nome do meio.” Geralmente omito esse nome, já que é outro nome de mulher, que eu rejeito.

Escrevi “Amy” no formulário. O sujeito então começou a se debater com um computador desktop antiquíssimo, digitando meus dados com um dedo de cada vez. Quando a verificação de antecedentes ficou pronta, voltei para o carro com minha arma nova numa caixinha de papelão. A transação toda levara apenas dez minutos.

Duas semanas depois disso, a indicação de Brett Kavanaugh para a Suprema Corte foi confirmada. Piper Smith postou na página da Armed Equality: “Kavanaugh confirmado. Consequências prováveis: positivas para 2A, negativas para 4A, 5A, 1A & LGBT. Me perdoem se eu não comemoro com fogos de artifício. Mantenham o tom educado nos comentários.” De fato, o tom dos comentários foi incrivelmente sensível e comedido.

A confirmação de Kavanaugh intensificou entre os entusiastas liberais da 2A a ideia de que os republicanos estão criando uma situação em que as armas de fogo estão se tornando mais necessárias, especialmente para os membros de setores marginalizados. Um usuário do Reddit em r/liberalgunowners resumiu esse argumento dizendo: “Os republicanos ... continuam a atacar a Primeira Emenda, a 14ª Emenda, o direito ao voto, o direito à privacidade e vários outros direitos que são tão importantes quanto a Segunda Emenda. Não vou tomar o partido deles apenas para poder ver o país se consumindo em chamas enquanto eu estou sentado em cima de minha pilha de armas.” Como esse usuário, eu preferiria contar com o pleno respeito e proteção da lei. Eu preferiria não ser discriminado, alvejado ou atacado devido ao que sou. A violência armada me deprime e enoja tanto quanto a qualquer outra pessoa. Eu queria que não precisássemos de armas de fogo.

Será que estou sendo paranoico? Afinal, o medo é um elemento fundamental do mundo das armas. Foi assim que cheguei aqui, para começo de conversa. 

Eu não me sentia mais seguro pelo fato de ter uma arma em casa. Me sentia menos impotente, mais no controle. Mas eu me sentia mais seguro? Não, pelo contrário. Todos meus medos continuavam presentes, com ou sem arma. Na realidade, eu sentia mais medo de usar a bendita arma. Mesmo nas minhas fantasias enraivecidas eu não chegava a dar um tiro em ninguém.

***

Stacey Abrams fez uma escala de campanha em Milledgeville em outubro, no primeiro aniversário do casamento meu e de Katie. Ficamos tão inspirados com o discurso dela que finalmente colocamos um cartaz dela diante da nossa casa (afinal, o presente de primeiro aniversário de casamento é tradicionalmente de papel...). Afixamos o cartaz na entrada de nossa casa naquela noite.

Quatro dias mais tarde o cartaz tinha sumido. Algum imbecil o roubou.

Era apenas um cartaz, sei disso, mas a sensação de violação me deixou um pouco maluco. Pensar que um de nossos vizinhos odiava Stacey Abrams –e a nós—a ponto de arrancar o cartaz me deixou com os nervos à flor da pele. Até aquele momento nossa casa era um refúgio para mim, um lugar de tranquilidade onde eu podia me sentir protegido do julgamento e do policiamento de gênero da Geórgia rural. Essa sensação de segurança agora estava afetada. Estavam silenciando nossa voz mesmo em casa, estavam nos apagando.

Agora, além da sensação de vulnerabilidade maior, eu estava cheio de raiva e ódio dos ladrões invisíveis, meus vizinhos, raiva daquele condado rural todo. Pensei em afixar um novo cartaz dizendo que tenho uma arma e durmo com ela debaixo do meu travesseiro, carregada com balas de ponta oca. Fantasiei que eu estava flagrando os ladrões no ato e correndo lá fora, agitando minha arma para eles, assustando-os do mesmo jeito que eles me assustaram. Eu queria me armar com ainda mais revólveres, mais munição e mais acessórios para afastar os perigos e me sentir em segurança. Talvez eu devesse ter comprado aquela caixa de armas à prova d’água para levar comigo no chuveiro. Talvez eu devesse fazer um pedido urgente da bandeira de Gadsden de arco-íris e hasteá-la diante da minha casa como um recado para os vizinhos: “Sou gay e posso atirar em você. Nem venham pisar em mim, seus m....s.”

Mas é assim que o veneno se espalha: eles roubaram meu cartaz e aquilo que me fez ficar mais como as pessoas que me odeiam. Ameaçar com força letal quando você sofre um pequeno furto é um uso errado de uma arma. Não foi por isso que eu comprei uma arma, apesar de a filosofia local ser que invasores eram “a outra carne branca”. Passados alguns dias em me acalmei e tive que reconhecer que eu não me sentia mais seguro pelo fato de ter uma arma em casa. Me sentia menos impotente, mais no controle. Mas eu me sentia mais seguro? Não, pelo contrário. Todos meus medos continuavam presentes, com ou sem arma. Na realidade, eu sentia mais medo de usar a bendita arma. Mesmo nas minhas fantasias enraivecidas eu não chegava a dar um tiro em ninguém. 

Courtesy of Mel Plaut
Katie e eu fazemos uma selfie diante do nosso segundo cartaz de Stacey Abrams, que substituiu o cartaz que foi roubado. Eatonton, Geórgia, outubro de 2018.

Compramos um cartaz novo e montamos no dia seguinte, imaginando que seria roubado outra vez. Mas em vez de ficar sentado ao lado da janela com a arma na mão, como uma pessoa maluca, montei uma câmera de vigilância que Katie comprou para mim dois Hanucás atrás para eu poder olhar nossos gatos enquanto estava trabalhando em Nova York. Acalmei minha raiva e meu medo da violência sulina com algo que equivale a uma babá eletrônica. A arma permaneceu trancada no armário, em segurança e descarregada.

Em setembro li um obituário no Washington Post de Freddie Oversteegen, uma combatente da resistência holandesa durante a ocupação nazista. Ela matou vários nazistas, algo a meu ver justificável. Mas ela disse uma coisa em uma entrevista que foi reproduzida no seu obituário e que não consegui tirar da cabeça. Ela disse: “Sim, eu já disparei uma arma e já vi pessoas tombarem. E qual é o sentimento que temos por dentro nesse momento? Queremos ajudar a pessoa a se levantar de novo.”

De qualquer maneira, tudo que aconteceu no resto do mês de outubro fez roubo do nosso cartaz perder importância completamente em comparação com o que estava acontecendo pelo país afora. No prazo de duas semanas, um antissemita matou 11 pessoas na sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburgh, um racista matou duas pessoas afro-americanas num supermercado Kroger no Kentucky e um partidário de Trump mandou bombas improvisadas para personalidades democratas destacadas em todo o país. Os homens (brancos e cis) que cometeram esses atos sem dúvida se sentiram encorajados pelo governo atual do país, e eu fiquei aliviado por minha avó não estar viva para ver o que está acontecendo com o país que ela tanto amou.

Pouco depois disso chegou a notícia do memorando da administração Trump erradicando as pessoas transgênero da definição de gênero. Essa é a cara do roubo moderno de nossos direitos praticado pelo governo, baseado em identidade e efetuado através da burocracia. Não existe arma de fogo capaz de nos proteger disso.

***

Antes da eleição de 7 de novembro, Katie trabalhou como voluntária ao telefone na campanha de Stacey Abrams e eu trabalhei como voluntário para o Partido Democrata na Geórgia como fiscal eleitoral. As tensões estavam fervendo no estado, mas nosso novo cartaz continuou onde estava. Nós nos dissemos que só precisávamos segurar as pontas até o dia da eleição.

Na última vez que fui ao estande de tiro de Cedar Creek, havia um sujeito branco velho usando boné da NRA. É claro que senti medo imediato dele, mas ele foi super simpático comigo. Novamente me espantei com a cordialidade sincera de pessoas que quero generalizar como sendo os vilões.

Foi preciso uma semana para contabilizar os votos, mas Brian Kemp acabou “ganhando”. Katie e eu discutimos a ideia de nos mudarmos para uma cidade maior, como Macon, a 45 minutos de distância de carro. Finalmente os cartazes de Kemp começaram a ser tirados. A Sociedade dos Dez Mandamentos parecia ter se animado e estava otimista – seu cartaz mudou, passando a dizer “Graças a deus por sua graça!”. Tiramos nosso cartaz de Stacey que estava diante de nossa casa. Fiquei consolado pelo fato de ninguém tê-lo arrancado uma segunda vez. Mas também notei que as pessoas tinham começado a jogar lixo no nosso gramado.

Na última vez que fui ao estande de tiro de Cedar Creek, havia um sujeito branco velho ali usando boné da NRA. Vi a picape dele no estacionamento, com placa que o declarava orgulhosamente “Membro de Dotação da NRA”, seja lá o que isso quer dizer. É claro que senti medo imediato dele, mas ele foi super simpático comigo. Novamente me espantei com a cordialidade sincera de pessoas que quero generalizar como sendo os vilões. Ele se ofereceu para me ajudar a fixar meu alvo, mas eu recusei. Agora já sei o que estou fazendo.

Depois de uma hora de disparos, o RSO declara cessar-fogo. Eu e o Boné da NRA caminhamos até o final da pista para tirar nossos alvos do lugar. Estou orgulhoso: acertei vários tiros quase juntos, deixando um buraco de oito centímetros no meio da silhueta. O Boné da NRA está feliz por mim. Ele aponta para meu alvo e fala: “Você acabou com o bandido!”

Paro um pouco e reflito sobre isso. Ainda não consigo me imaginar de fato atirando numa pessoa. Mas, se o fizesse, acho que eu me sentiria exatamente como Freddie Oversteegen – eu teria vontade de ajudar a pessoa a se reerguer.

Mel Plaut é autor e urbanista. Seu primeiro livro, HACK, é um relato autobiográfico de suas experiências como motorista de táxi em Nova York. Seus textos já foram publicados no The New York Times, USA Today, HuffPost, Lenny Letter, BUST Magazine, e no “All Things Considered”, da NPR (Rádio Pública Nacional). Plaut está morando em Eatonton, Geórgia, onde está escrevendo um romance sobre clubes de armas para queers na América rural. Siga-a no Instagram e Twitter: @newyorkhack.

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