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10/12/2019 05:00 -03

Interesses econômicos devem frear desavenças de Bolsonaro com a Argentina

Decisão de enviar o vice-presidente Hamilton Mourão em cima da hora para representar o Brasil na posse de Fernández sinaliza disposição em valorizar acordos comerciais.

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Ala mais ideológica do governo Bolsonaro rechaça uma aproximação com Fernández devido à sua defesa em relação ao ex-presidente Lula.

A ponderação do novo governo argentino e o peso das relações comerciais do Brasil com o país vizinho devem falar mais alto do que desavenças do presidente Jair Bolsonaro com o novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, na avaliação de especialistas dos dois países. Com a ex-presidente Cristina Kirchner de vice, Fernández toma posse nesta terça-feira (10).

Inicialmente, nenhum integrante de peso do governo brasileiro iria comparecer ao evento, no entanto, na tarde de segunda-feira (9), o vice-presidente Hamilton Mourão foi escalado para representar o País. Seria a primeira vez, pelo menos desde 1989, que o Brasil não enviaria um representante para uma posse presidencial na Argentina. Bolsonaro já havia anunciado que não iria após a vitória de Fernández.

No fim de semana, o presidente recuou da ideia de enviar o ministro da Cidadania, Osmar Terra. A atitude deixaria escancarado o conflito entre Bolsonaro e Fernández, afinal o presidente brasileiro fez campanha para o adversário do novo presidente da Argentina. No entanto, de acordo com o porta-voz, Otávio Rêgo de Barros, enviar o vice-presidente foi uma forma de valorizar a relação entre os dois países — principalmente a comercial. 

“Com relação à decisão do presidente, ele vem, ao longo do dia, e mesmo ontem, fazendo análises continuadas, discutindo com vários ministros, e a partir dessas discussões, entendendo que se faria necessária a presença de uma autoridade lá [...] para valorizar o relacionamento com a Argentina, em especial, nos aspectos comerciais”, disse o porta-voz.

Até o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, havia sido descartado. Em entrevista ao jornal Clarín, o chanceler comparou o argentino a uma matrioska, brinquedo russo que reúne diversas bonecas de tamanhos variados colocadas uma dentro das outras. “Há Alberto Fernández. Você o abre e encontra Cristina Kirchner, a abre e encontra Lula, e depois Chávez”, disse, em agosto.

A ala mais ideológica do governo brasileiro rechaça uma aproximação com Fernández devido à sua posição em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O argentino chegou a visitar o petista na prisão. 

Em novembro, a Comissão de Relações Exteriores (CRE) da Câmara dos Deputados, comandada por Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, aprovou uma moção de repúdio a Fernández. O argumento era de que a defesa da soltura de Lula feita pelo argentino questionava a lisura do sistema judicial brasileiro. 

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Próximo a ex-presidente Dilma Rousseff, o novo presidente da Argentina, Alberto Fernández, chegou a visitar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na prisão.

Vale destacar que, na América Latina, a Argentina é o principal aliado comercial do Brasil. As exportações para lá somaram um total de US$ 14,9 bilhões em 2018.

A Argentina é a maior compradora de industrializados brasileiros. Os números caíram com a crise, mas continuam a representar uma fatia importante do setor. Mais de 60% dos carros comprados na Argentina são brasileiros, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e do Ministério da Indústria e Comércio Exterior brasileiro.

Devido à relevância nas trocas comerciais, a situação econômica argentina tem impacto relevante no cenário doméstico. A exportação de veículos para lá caiu 41% de janeiro a julho deste ano, segundo a Anfavea.

O argumento para enviar o vice-presidente mostra que é exatamente o cenário econômico que deve prevalecer para ditar os rumos das relações entre os dois países. Na visão do historiador e professor da USP (Universidade de São Paulo) Everaldo de Oliveira Andrade, esse fator tem levado o presidente brasileiro a tentar amenizar o discurso.

“Essas declarações [mais duras] de Bolsonaro se chocam com interesses dos negócios de fato. Com certeza ele foi chamado atenção pelo núcleo mais pragmático que apoia as políticas ultraliberais do governo Bolsonaro”, afirmou à reportagem.

Na avaliação de Andrade, a postura do país vizinho também deve ditar o ritmo, diante das fragilidade do ministro Ernesto Araújo na condução da política externa. “Todas questões que ele levanta são mais discursos ideológicos vinculados a uma visão de mundo de uma minoria do que aos interesses reais dos negócios brasileiros. É uma política externa que não corresponde à realidade do papel econômico que o Brasil desfruta no mundo. É uma política que está levando ao isolamento e prejudicando alguns setores econômicos”, afirmou.

Por outro lado, Fernández não tem adotado uma postura extremista. “O novo governo argentino não é de ruptura. Não tem o alinhamento do Macri com os Estados Unidos, mas o Fernández já disse que vai continuar negociações com FMI [Fundo Monetário Internacional], assistiu a uma missa com o [presidente Maurício] Macri, sinalizando que vai dar continuidade, com perfil um pouco diferente. Essa sinalização do Fernández talvez tenha mais importância do que a do Bolsonaro”, destacou Andrade.

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“Essas declarações [mais duras] de Bolsonaro se chocam com interesses dos negócios de fato", afirma o historiador e professor da USP (Universidade de São Paulo) Everaldo de Oliveira Andrade.

A equipe econômica argentina

Em 25 de agosto, o governo de Macri declarou moratória (adiamento do pagamento) da dívida de curto prazo da Argentina. O país também irá renegociar as dívidas de médio e longo prazos, inclusive a parcela referente a empréstimos com o FMI. A linha de crédito adquirida por Macri em junho de 2018 equivale a US$ 57 bilhões. 

De acordo com cientista político da Universidade Católica de Buenos Aires Ignacio Labaqui, o novo ministro da economia, Martín Guzmán, deve anunciar em breve detalhes da renegociação da dívida e outras medidas econômicas. ”Os anúncios devem ocorrer nesta semana. Espera-se um aumento dos impostos de exportações e também se especula uma elevação dos impostos sobre o patrimônio das pessoas, além de algum tipo de medida de alívio para aposentados, funcionários públicos e beneficiários de programas sociais”, afirmou ao HuffPost Brasil.

Os planos de Guzmán serão cruciais para definir se há confiança na retomada da economia argentina. Ao contrário das promessas de campanha, o governo Macri levou a um cenário de aumento da pobreza, da inflação e do desemprego e desvalorização da moeda argentina, que afetou diretamente a população e aumentou a impopularidade do presidente. A gestão atual também frustrou a expectativa de aumento de investimentos externos. 

Segundo dados do Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA), em 2018, a pobreza atingia 33% da população. Já a inflação chegou a 47% no ano passado. Para 2019, a previsão era de 40%, mas o índice pode aumentar.

Apesar da incerteza sobre o futuro econômico, Labaqui aponta como positiva a atuação política de Cristina Kirchner. Ela conseguiu unificar senadores da coalizão governista Frente de Todos e influenciou na escolha de seu filho, Máximo Kirchner, para liderança da coalizão na Câmara dos Deputados.

Mercosul 

Na visão do cientista político argentino, é improvável que uma eventual relação conflituosa entre Bolsonaro e Fernández afete as relações comerciais entre os dois países, mas uma ausência do governo brasileiro na posse poderia sinalizar futuras dificuldades para a América Latina. Para ele, uma relação fria poderia ser um obstáculo para o progresso do Mercosul.

Em junho de 2019, foi festejada pelo Brasil a assinatura do tratado de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Apesar de pendente do processo de ratificação nos países de ambos os blocos, o acordo foi considerado uma vitória.

Sobre possíveis divergências em relação à abertura do bloco, o professor da  Universidade Católica de Buenos Aires afirma que esse pode ser um desafio interno brasileiro. “É preciso saber quanto consenso interno há no Brasil para avançar com essa ideia. Se é uma intenção de Bolsonaro e do ministro [da Economia] Paulo Guedes ou se é uma ideia compartilhada pelas elites brasileiras. Talvez esse seja um obstáculo mais forte do que uma eventual postura do Alberto Fernández”, afirmou.

Os dois outros integrantes do bloco são os presidentes de centro-direita, Mario Abdo Benítez, do Paraguai, e Luis Lacalle Pou, que venceu as eleições no Uruguai em novembro.

O cientista político também apontou a importância dos ministros brasileiros ao comentar a ida do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), à Argentina. “Foi muito positiva a visita de Maia, mas a condução da política externa em qualquer país é feita pelo Executivo. É bom que haja um diálogo entre o governo da Argentina e Rodrigo Maia, que tem acesso a Bolsonaro, mas no fim das contas, quem conduz a política externa é o Executivo. É Bolsonaro, é o ministro Ernesto Araújo, o ministro Paulo Guedes”, afirmou.

O novo presidente argentino recebeu, na última quinta-feira (5), uma delegação de deputados liderada por Maia. O objetivo da viagem do democrata era encontrar o peronista Sergio Massa, eleito deputado e que deverá comandar a Câmara argentina. Depois da reunião com Massa, o presidente da Câmara foi convidado a conhecer Fernández.

No encontro, o argentino apresentou Daniel Scioli como futuro embaixador no Brasil. Considerado moderado e conciliador, o diplomata  foi vice-presidente de Néstor Kirchner de 2003 a 2007. Em entrevista ao jornal Clarín, Scioli afirmou que o objetivo será “priorizar a relação estratégica” com o governo Bolsonaro e deixar as diferenças de lado.