ENTRETENIMENTO
13/06/2020 07:00 -03

6 lições do mestre Antônio Pitanga para as novas gerações

Veterano ator estrela "Casa de Antiguidades", único filme nacional na seleção oficial do Festival de Cannes 2020. Ao HuffPost, ele fez uma análise do racismo no Brasil e da atual crise na cultura.

Aos 81 anos, Antônio Pitanga é a estrela de Casa de Antiguidades, primeiro longa-metragem do diretor João Paulo Miranda. O filme é o único brasileiro na seleção oficial do Festival de Cannes, que neste ano não terá o glamour do tapete vermelho e nem a disputa pela Palma de Ouro por causa pandemia do coronavírus.

Na trama, o ator veterano vive Cristovam, um operário nordestino de vida simples que parte para uma pequena cidade no sul do Brasil de colonização austríaca em busca de melhores condições de trabalho. Durante a adaptação ao novo contexto, ele passa a enfrentar a crueza da solidão e do racismo dos moradores locais.

“Cristovam está linkado na minha pele desde que eu me entendo por gente. Ele é novamente um Barravento, de 1960, só que agora em 2020”, explicou Pitanga em entrevista via live ao HuffPost Brasil, citando um dos marcos do Cinema Novo dirigido por Glauber Rocha (1939-1981). “Ele apresenta as mesmas questões, o mesmo chicote que bate na gente desde os nossos antepassados”, completou.

Carlos Eduardo Carvalho
Cena do filme inédito "Casa de Antiguidades", estrelado por Antônio Pitanga.

Um dos primeiros protagonistas negros do cinema nacional, Pitanga tem trajetória que se mistura à história da cultura e do ativismo negro no País. Para se ter uma dimensão, o ator baiano já atuou em mais de 70 filmes e 40 novelas.

“Cristovam é um presente que o João Paulo Miranda me deu aos 80 anos. Ele acreditou em mim. A gente também sofre o preconceito da idade”, revelou ao HuffPost. “Esse garoto acreditou que eu ainda era aquele Pitanga da década de 1950, que tinha sede de democracia, de humanidade e de um Brasil igualitário.” O filme ainda não tem previsão de lançamento por aqui.

Ao longo de quase uma hora de live, Pitanga ou capoeirista mental, como costuma se identificar, relacionou o novo trabalho ao cenário de efervescente debate racial que se instaurou no mundo desde o assassinato do segurança negro George Floyd, nos Estados Unidos, falou sobre o ofício do ator e a importância do teatro, recordou histórias e refletiu sobre o cenário político e cultural do País.

A seguir, destacamos 6 reflexões que podem facilmente ser entendidas como ensinamentos de um sábio para as gerações mais novas.

 

1. A cultura negra é o que dá vida à identidade brasileira

“A cultura da raça negra, que veio da África, é o instrumento socializador que ergueu este País. Seja na culinária, na música, na dança, na maneira de se comportar e de falar. Essa cultura, independente de tantas chicotadas que sofremos no lombo, é o que nos mantém de pé. Essa cultura é presente quando eu olho a minha família negra.”

 

2. A quantidade de artistas negros em evidência está distante da ideal

“A conta não fecha. Quando eu comecei, éramos poucos [atores negros em evidência]. Dava para contar nos dedos. Havia Grande Otelo, Abdias do Nascimento, Léa Garcia, Milton Nascimento, Nelson Xavier… Digo que a conta não fecha porque temos, sim, mais negros e negras em pontos estratégicos das artes e cultura. Mas proporcionalmente aos 212 milhões [de brasileiros] está aquém [do ideal]. Essa conta não fecha.”

 

3. A velhice não é uma questão de idade 

“Quando eu falo que velho não faz revolução é porque nessas décadas vividas eu tinha pernas para correr. A cabeça continua girando a mil. O [poeta] Waly Salomão dizia que isto aqui [a cabeça] é uma ilha de edição, está tudo guardado. Agora, quando eu vejo essa juventude atuante em várias áreas da cultura, eu percebo que tenho um atalho. Eu posso me incorporar. Posso não estar deitado em berço esplêndido, mas vivo de pé para compor com esse pensamento jovem — que é também o meu, que não envelheceu. A idade e as pernas podem estar mais velhas, mas a cabeça está jovem porque eu dialogo com eles [pessoas mais jovens]. Eu quero discutir com eles, eu quero beber da fonte deles. Eu quero viver essa realidade que parece com o ontem, mas é diferente. É 2020. A leitura é outra. Eu quero estar conversando, aprendendo, crescendo com essa novas cabeças. Não posso ficar no passado. Aí eu envelheceria mesmo. ‘Na minha época era assim.’ Não, a minha época é agora.”

 

4. A imersão no teatro é fundamental para o ofício do ator 

“Teatro é o pilar fundamental da formação do ator. No teatro você tem a história universal. O teatro te dá bagagem e conhecimento em que você mergulha. É onde você pode lapidar qualquer tipo de personagem. O teatro é chão, base. Não pode ser ‘apenas ator’. Se o ator diz que é apenas ator, ele vai fazer só novelas. Agora quando ele é ator de teatro e faz novelas, você vê outro resultado. Você vê uma Fernanda Montenegro, uma Nathália Timberg, uma Ruth Souza, que nos deixou, Milton Gonçalves, uma Zezé Motta, Taís Araújo, Lázaro Ramos. São atores de teatro.”

 

5. O ator precisa estar sempre “desarmado”

“O ator está sempre crescendo e sempre aprendendo. No momento em que você tem humildade de ir para o encontro, para a discussão, para a conversa, para a construção de um personagem de uma história, você tem que estar desarmado. Tem que ser uma entrega total. Eu não posso ser uma história parada no ar. ‘Na minha época se fazia assim.’ Não, eu tenho que estar aberto para ser todo ouvido. Sendo todo ouvido, eu posso beber nessa fonte, entender qual é a proposta dele [o diretor]. E, entendendo a proposta, eu sou a história, eu sou o personagem que ele escreveu.”

 

6. Só um movimento conjunto pode mudar a situação do Brasil

“A cultura nunca foi um projeto de governo. Hoje menos ainda. Hoje ela está na vala comum. Você tem um governo que não gosta de negro, mulher, LGBT e índio. Hoje não temos nem o titular da pasta [de Cultura]. Estamos realmente numa situação delicadíssima. Esse filme eu já vi e estou revendo de uma maneira muito mais cruel. Neste momento eu não vejo luz no fim do túnel. Precisamos acreditar nesse movimento em que negros e brancos deram as mãos por causa da questão racial. Só um movimento nosso pode mudar [esse cenário].”

Assista à entrevista completa logo abaixo:

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