ENTRETENIMENTO
16/06/2019 08:29 -03

A editora Antofágica quer que você descubra o prazer pelos livros clássicos

Versão de "A Metamorfose", de Franz Kafka, com capa dura e ilustrações de Lourenço Mutarelli, é a primeira aposta da editora que nasce em um cenário de crise no mercado editorial.

HuffPost Brasil
Edição de "A Metamorfose" reúne 93 desenhos inéditos de Lourenço Mutarelli.

Clássicos para novos tempos. Essa é a filosofia da Antofágica, editora recém-nascida em um mercado que enfrenta profunda crise no Brasil.

A primeira aposta da empresa, que tem como publisher Daniel Lameira, ex-editor da Aleph e da Intrínseca, é a reedição de A Metamorfose, principal obra de Franz Kafka, publicada originalmente em 1915. A nova edição tem capa dura, texto de apresentação do cientista social e youtuber Otávio Albuquerque e 93 ilustrações inéditas do multiartista Lourenço Mutarelli.

“Esses novos tempos vêm junto com a concepção de tirar os clássicos do pedestal e colocá-los em um contexto do dia a dia de consumo”, conta Lameira em entrevista ao HuffPost. “Eu via as pessoas com medo dos clássicos e inferiorizadas pela importância de suas páginas.”

Para romper esse barreira cultural, Limeira afirma que a nova editora foi concebida para “ser mais uma produtora de conteúdo do que uma gráfica de livros”.

O conteúdo — criado para mostrar que o “clássico é legal” — é compartilhado pela editora em seus redes sociais. No canal oficial no YouTube, por exemplo, é possível acessar vídeos explicativos com títulos do tipo: O Poder de Uma Boa História, As Influências de Kafka na Cultura Pop, Afinal, o Que é Um Livro e O Que é Um Clássico? - que complementam a experiência do leitor.

Com time enxuto, a editora é composta, além de Lameira, por um investidor, o advogado carioca Sérgio Drummond – apaixonado por livros clássicos e dono de uma coleção com 30 mil exemplares; seu filho e sócio Rafael Drummond; e Luciana Fracchetta, responsável pela produção do conteúdo digital.

O nome curioso com o qual editora foi batizada não existe nos dicionários. Trata-se de uma referência a uma série de contos escritos na década de 1970 por Drummond, o sócio pai, e nunca publicados. As histórias inspiradas no realismo fantástico se passavam todas em uma cidade chamada Antofágica. “Etimologicamente, ela significa ‘comedor de flores’. É algo bonito, que tem a ver com experimentação”, explica Lameira.

Divulgação
Imagem da capa da edição de "A Metamorfose", obra celebrada do escritor tcheco Franz Kafka.

Segundo o publisher, outro aspecto que a editora preza é o formato dos livros. “O tamanho, o acabamento, o tipo de papel usado, tudo isso passa uma mensagem sobre o que você acredita”, afirma. A Metamorfose tem capa dura e texturizada, o que deve se repetir nos próximos dois títulos que a editora deve resgatar nos próximos meses: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, e Coração das Trevas (1899), de Joseph Conrad.

A inspiração do formato vem da Círculo do Livro. “Era uma coleção da década de 60, 70 e 80 de obras que você recebia junto com uma revista. E eles tinham essa unidade: livro de capa dura e com essa sensação tátil, que se tornou algo ligado a clássicos e muito afetivo pra mim”, recorda Lameira. “Quando eu sinto aquilo na mão eu já sei que tipo de livro estou lendo.”

 

Amazon e a crise no mercado editorial

Diante do cenário adverso do mercado editorial, a Antofágica optou por um acordo de exclusividade com a Amazon na distribuição dos títulos. A decisão foi tomada pensando na satisfação do leitor. “A Amazon tem um serviço indiscutivelmente muito bom”, afirma Lameira.

“Eles também têm uma vantagem que é apostar na compra dentro de um projeto que eles acreditam. Ao invés de consignar, como é de praxe no mercado, a Amazon faz uma compra firme de livros, o que viabiliza o projeto da editora”, explica.

Os títulos da editora não estarão nas prateleiras de grandes redes de livrarias, mas Lameira assegura que poderão ser encontrados em livrarias pequenas e independentes. “Acredito que elas têm papel cultural muito importante e não poderiam ficar sem [os volumes].”

Ele admite que a Amazon já foi vista como concorrente pelo mercado editorial brasileiro, mas hoje a situação é diferente. “Ela se tornou um porto seguro em um momento em que todas empresas deixaram os editores na mão”, afirma.

“Sei que amanhã isso pode ser diferente, mas o fato é que hoje ela é um player interessante para o mercado e que eu não vejo roubando espaço de outras livrarias de rua. E, ao mesmo tempo, ela atende tanto a editora quanto o leitor com um cuidado muito diferenciado”, afirma.

Apesar de lamentar a instabilidade no mercado editorial brasileiro, provocada essencialmente pela crise na Livraria Cultura e Saraiva, as duas maiores redes do setor no País, Lameira vê “esse movimento com otimismo”. “Essa crise fez com que a criatividade tivesse que emergir. E as novas ideias, que muitas vezes eram deixadas de lado por algum motivo, passaram a ser interessantes” explica.

“Agora as editoras estão cada uma buscando o seu público. Umas estão priorizando mais eventos, outras priorizando a criação de linhas mais coerentes no seu catálogo porque não precisam mais ocupar um livro em cada mesa da livraria. Agora é possível conversar com cada leitor pela internet, eventos e outros caminhos”, finaliza.