Fluxo de venezuelanos mudou dinâmica do comércio em Pacaraima, cidade de 12 mil habitantes na fronteira. 
Adriana Duarte/Especial para o HuffPost Brasil
Fluxo de venezuelanos mudou dinâmica do comércio em Pacaraima, cidade de 12 mil habitantes na fronteira. 
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01/05/2019 08:51 -03

Outra cidade

Fluxo de venezuelanos mudou Pacaraima e readaptou seu comércio às necessidades dos vizinhos; Nem todos os moradores celebram a nova realidade.

“Se tiver 10 mil fardos de farinha de trigo, vende tudo.” O sonho de todo comerciante - vender todo o estoque, independentemente da quantidade - se tornou uma rotina para a maioria dos comerciantes de Pacaraima, pequena cidade de Roraima com 12 mil habitantes na fronteira com a Venezuela.

Gerente de uma das principais distribuidoras de alimentos de Pacaraima, Rone Neto, 51 anos, ainda demonstra admiração com o movimento na avenida central da cidade. Era um comércio praticamente inexistente 4 anos atrás.

Pacaraima, a 215 km de Boa Vista, se tornou um oásis para os venezuelanos em meio à escassez de produtos básicos causada pela crise política e econômica em seu País. Centenas atravessam todos os dias para o Brasil e voltam com sacolas por rotas alternativas, mas o número atingia a casa dos milhares antes de fevereiro, quando a fronteira oficial ainda estava aberta pelo lado venezuelano.

Neto, gerente da Comercial Brasil, fala com ânimo sobre a expansão da loja. Há quatro meses ele aceitou a proposta de se mudar com a família de Macapá, no Amapá, para Pacaraima para cuidar das lojas da rede.

Aqui tem espaço para todo mundo. A demanda é enorme. Não importa o tamanho do nosso estoque, conseguimos vender tudoRone Neto, gerente de distribuidora de alimentos em Pacaraima.

“Estamos abrindo a segunda loja. Quem olha uma ao lado da outra deve achar que dá a maior confusão, que é tudo concorrente, mas não é. Aqui tem espaço para todo mundo. A demanda é enorme. Não importa o tamanho do nosso estoque, conseguimos vender tudo”, diz, apontando para caminhões e caminhonetes que fazem o carregamento de mantimentos. ”É esse movimento o tempo todo.” 

Tanto na loja gerenciada por Neto quanto nas distribuidoras vizinhas, o item mais procurado é a farinha de trigo. “A gente pensa em arroz, feijão, mas a cultura é muito diferente. Compram muita farinha de trigo, manteiga também. Vendemos muitos itens de higiene pessoal e mantimentos de maneira geral.”

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“Se tiver 10 mil fardos de farinha de trigo, vende tudo”, diz Rone Neto, gerente de uma distribuidoras de alimentos de Pacaraima.

Embora demonstre animação, Neto se diz preocupado com o futuro. “O comércio agora é bom, mas já foi ainda melhor: quando a fronteira estava aberta, o movimento era intenso. Hoje, é instável”, pontua.

Nos dias em que militares venezuelanos e indígenas que controlam a ‘las trochas’ - rota alternativa - decidem proibir a passagem dos venezuelanos pela fronteira ilegal, o movimento é quase zero. “Não tem previsão: em alguns momentos, eles fecham as rotas ilegais e o comércio para. Tudo que você está vendo aqui deixa de existir. Estamos crescendo, mas amanhã ninguém sabe.”

Preocupação parecida é a da dona de uma loja próxima à gerenciada por Neto. “Não sei como será daqui para frente. Vendemos tudo que tínhamos em Belo Horizonte para abrir uma loja aqui por causa do movimento do comércio, mas a fronteira fechou, o comércio caiu e agora retomou. O meu medo é a instabilidade. Hoje está ótimo, mas e se fecharem até as outras rotas?”, questiona a comerciante, que pediu para não ter o nome divulgado.

Ainda assim, ela avalia que valeu a pena se mudar para Pacaraima. “Não posso dizer que a loja não deu certo. O que a gente comprar, a gente consegue revender. Ainda tenho a esperança de a fronteira reabrir”, afirma. A comerciante diz gostar ainda do clima ameno da cidade, e de observar, de sua varanda, como a cidade se transforma durante o dia. “Quando dá 22h, é um silêncio só.”

Os comerciantes comemoram o movimento, mas também se dizem solidários aos venezuelanos. Tanto Neto quanto a dona da loja vizinha não arriscam opinar muito sobre a política interna da Venezuela, mas dizem torcer para que o país retome o controle de sua economia.

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Fechamento de fronteira "alternativa" é o principal temor dos comerciantes de Pacaraima hoje. 

“Eu visitei muito a Venezuela, conheci cidades lindas, fiquei em hotéis de luxo, aproveitei demais o país. Fico triste com o que está acontecendo e tenho esperança de um futuro melhor para eles, mas do jeito que eu vejo as coisas por aqui, acho que vai demorar muito para mudar alguma coisa por lá”, diz a comerciante. 

No último dia 22, o governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), pediu ao presidente Jair Bolsonaro que renegociasse a abertura da fronteira. “Temos centenas de importadores da Venezuela que estão com as suas carretas paradas”, disse a jornalistas. O fechamento da fronteira também afeta a economia venezuelana. O Brasil é importador de energia, calcário, fertilizantes e combustíveis do País vizinho. 

 

Presença venezuelana divide opiniões em Pacaraima

Se por um lado, a maioria dos comerciantes celebram a mudança em Pacaraima com o maior fluxo de venezuelanos, há grupos de moradores que dizem se lembrar com saudade da tranquilidade que a cidade experimentava antes.

Para ser mais preciso, nas contas de Manoel Soares, dono de uma das 3 lanchonetes do terminal rodoviário da cidade, o município começou a mudar há 3 anos e 9 meses. “Lembro do primeiro venezuelano que chegou, com uma vassoura e uma enxada, procurando trabalho”, diz. 

Esse imigrante já não vive mais em Pacaraima. Soares, 53 anos, não sabe o destino dele, mas o tem como um marco. “Dia após dia foi aumentando a quantidade de gente que chegava. A cidade mudou completamente.”

Segundo ele, antes “era só tranquilidade”. A principal função de Pacaraima era receber os turistas que, geralmente, dormiam na cidade antes de fazer os tradicionais passeios da região: trilhas, cachoeiras, piscinas. A geologia, fauna e flora do local são extremamente ricas. 

“A cidade era um ponto de parada. Vivíamos do turismo. Os brasileiros que moravam na Venezuela chegavam aqui e ficavam felizes por encontrar quem falasse português. Hoje, é difícil uma pessoa que fale português com você. Tem dia que você não escuta nada.” 

Os brasileiros que moravam na Venezuela chegavam aqui e ficavam felizes por encontrar quem falasse português. Hoje, é difícil uma pessoa que fale português com vocêManoel Soares, morador de Pacaraima
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“Lembro do primeiro venezuelano que chegou, com uma vassoura e uma enxada, procurando trabalho”, diz Manoel Soares, dono de uma lanchonete.

Amigo de Soares, o topógrafo Ruy Hagge Barbosa, 62 anos, que vive há 12 anos em Pacaraima, endossa as críticas.

“Mudou para pior. É uma desordem. Você chega na rua principal, não vê brasileiro trocando dinheiro, mas vê venezuelano. Eles não respeitam a lei aqui no Brasil porque são imunes às ações da polícia e do Exército”, diz.

Barbosa, no entanto, afirma que sua indignação é recente. 

“Há 10 anos, trabalhei em um hotel na Ilha de Margarida [situada no mar do Caribe, na costa venezuelana], minha filha estudou em Mérida [no noroeste da Venezuela], mas o país ficou ruim e eu voltei para o Brasil. Eu tinha carinho enorme por eles, tinha casa desocupada e cedi para venezuelanos”, conta.

“Hoje não dou mais. Meu coração diz não. Eu me solidarizava, um dia eu parei. Tirei o pessoal da casa e aluguei.”

Adriana Duarte/Especial para o HuffPost Brasil
Nas ruas de Pacaraima, venezuelanos ganham dinheiro fazendo câmbio ao ar livre.

Dono do Hotel Pacaraima, Ubirajara Rodrigues, 73 anos, reclama do movimento e da criminalidade. “Chamo a rua principal de ‘shopping a céu aberto’. Deveria estar bem melhor. Não era para estar daquele jeito [com o comércio nas avenidas].”

Embora reclame, ele deixou Macapá para morar em Pacaraima e abrir o hotel. “Aqui é um ambiente muito bom, o clima é ótimo, mais ameno, frio. É possível dormir sem ar-condicionado. A qualidade de vida é boa.” 

 

Crise venezuelana também mudou dinâmica em Boa Vista

A 200 km da fronteira, a capital de Roraima também viu sua rotina mudar por conta do fluxo de venezuelanos. Entre os que vêm para ficar, grande parte não teve alternativa a não ser ficar na rua, contando com a solidariedade de moradores e turistas.

Parte dos moradores, no entanto, também reclama do aumento na frequência de pequenos delitos. 

Gerente do mercado Hiper DB, Marcos Antonio Miguel, 39 anos, diz que teve o turno no trabalho alterado por causa do excesso de furtos. “Tivemos que redobrar a atenção. Pneus, eletrônicos, alimentos… levavam de tudo”, diz.

O secretário de Segurança Pública de Roraima, delegado Márcio Roberto Amorim, confirma ter havido oscilações nos registros de crimes no estado, especialmente os de furto.

“Com o fluxo migratório, tivemos um pico e o índice aumentou, agora está mais perto da normalidade. Eles [os imigrantes] praticam muito crimes relacionados ao patrimônio, como furto e roubo. Mas o trabalho não é diferenciado [por eles não serem brasileiros], segue o padrão. Eles já se integraram à comunidade”, afirmou ao HuffPost.

Miguel, o gerente do mercado, faz questão de ressaltar que tem excelentes funcionários venezuelanos na loja. “Como em todo lugar, há pessoas boas e ruins. O problema é que a situação está difícil para todo mundo e aumenta a criminalidade.”

Grasielle Castro/HuffPost Brasil
“Como em todo lugar, há pessoas boas e ruins. O problema é que a situação está difícil para todo mundo e aumenta a criminalidade”, diz Marcos Antonio Miguel, gerente de mercado em Boa Vista.

O secretário de Segurança Pública defende que o estado, em parceria com o governo federal, tomou três medidas que ajudaram baixar novamente os índices: a Força Tarefa de Intervenção Penitenciária do Ministério da Segurança Pública, que retomou o controle os presídios pela União; o uso da Força Nacional no patrulhamento e a Operação Acolhida, que é responsável por promover a interiorização e o amparo dos refugiados.

De acordo com o secretário, a parte social feita pela operação ajudou a reduzir as tensões no âmbito da segurança.

“Percebemos menos deles vagando pelas ruas desde que a ação começou, há pouco mais de um ano. A maioria dos venezuelanos está sendo interiorizada e nos trouxe mais sensação de segurança. Eles furtavam principalmente para comer, mas, com a operação, eles têm comida e abrigo.”

A operação foi prorrogada até 31 de março de 2020, após previsão do governo federal de que o fluxo de entrada continuará. Projeção mais recente do IBGE, divulgada em julho passado, indica que, entre 2015 e 2022, cerca de 79 mil venezuelanos migrarão para Roraima. Até o meio do ano passado, 30,7 mil venezuelanos já tinham migrado.