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14/01/2020 06:56 -03 | Atualizado 14/01/2020 10:31 -03

'Você perde a noção do tempo', diz chefe da estação brasileira na Antártida

Em entrevista ao HuffPost, comandante diz que principal preocupação no dia a dia ”é a questão emocional” de sua equipe, que chega a ficar sem ver o sol por 21 horas.

Divulgação Marinha
Atual grupo de base da Estação Antártica Comandante Ferraz, que ficará na Ilha do Rei George até o início de dezembro de 2020.

Um dos ambientes mais inóspitos do planeta, com temperaturas negativas que ultrapassam os - 20ºC, ventos que batem os 200 km/h e temporadas em que não se vê o sol por até 21 horas. 

Agora imagine comandar, nesse local, 16 pessoas, mantendo a interação da equipe, sem finais de semana ou opções variadas de lazer, e distantes de suas famílias por até um ano. Sem contar a responsabilidade de garantir que cientistas desenvolvam com segurança, no verão, suas pesquisas no continente antártico.

Esse é o trabalho do Capitão de Fragata Luciano de Assis Luiz, 41 anos, chefe do atual grupo de base da Estação Antártica Comandante Ferraz, que será reinaugurada nesta quarta-feira (15).

A cerimônia estava prevista para o dia 14, mas o mau tempo adiou os planos. “Há sempre um plano B preparado. Aqui não podemos nos dar ao luxo de não ter outra opção”, explica. 

Em conversa com o HuffPost por chamada de WhatsApp na segunda-feira (13), ele explica que sua principal preocupação no dia a dia ”é a questão emocional” do grupo e que, por isso, ele tenta estabelecer uma rotina de trabalho para que, especialmente no verão, quando só anoitece por volta das 23h, “as pessoas não trabalhem demais”. 

Ele conta que os 16 militares do grupo base são trocados todos os anos. “Ficar longe da família um ano é uma coisa. Mas depois disso, quanto mais tempo afastado, mais chance de haver um problema”, diz.  

A renovação das equipes também estimula o surgimento de novas ideias, segundo o capitão. “Cada novo grupo que chega tem uma visão diferente, sempre surgem novas ideias. Aqui o objetivo é inovar.”

Para deixar tudo pronto para a reinauguração, nesta terça, o capitão contou na véspera que os últimos dias foram “corridos”. “Estamos recebendo o pessoal que vem para a inauguração e terminando de montar o palco. Vai ter um palco na área externa. Amanhã tem previsão de bom tempo, sem chuva, vento baixo. Mas aqui as coisas mudam muito rápido. Por isso, temos parte do refeitório e da área de estar também preparada para a cerimônia”, disse.

Veja abaixo os principais trechos da conversa: 

O peso emocional

“Nós chegamos aqui em 4 de novembro de 2019 e devemos ficar até o início de dezembro de 2020. Geralmente o grupo base anterior fica de 20 a 25 dias para passar funções para o novo grupo. Essa troca é feita anualmente, e nem é por uma questão de saúde. Aqui tem academia, enfermaria - a gente consegue manter uma vida saudável. É uma questão emocional. Ficar longe da família um ano é uma coisa. Mas quanto mais tempo afastado, maior a chance de ter um problema. E é até bom haver essa troca, porque cada grupo que chega tem uma visão diferente. Além de problema psicológico e emocional que pode acontecer, [se não houver troca] acaba não inovando, e o objetivo aqui é sempre inovar. Surgem novas ideias.”   

Pré-avaliação rígida

“Tem uma avaliação psicológica rígida com todos os voluntários no serviço de seleção da Marinha e depois mais duas etapas na Ilha da Marambaia com psicólogas da Marinha avaliando o desempenho e fazendo trabalhos em grupo. É a partir dali que saem os selecionados. Depois, em janeiro, o grupo se apresenta e fica até novembro convivendo e já trabalhando junto, se conhecendo. Tem esse período de integração, de trabalho interno.”

Noção do tempo

“Tento colocar a rotina normal. Acordar, café da manhã, iniciar os trabalhos de acordo com o tempo. E tento colocar um limite: trabalhar até 18h, 19h. Se não colocar esse limite, o pessoal chega a trabalhar em excesso. Tenho que cuidar da saúde mental do pessoal. Falo ‘olha, vamos jantar, está na hora de parar’. Se não, o pessoal acaba se cansando demais no verão, quando chega a anoitecer 23h. Você perde a noção do tempo. Temos a questão da janela meteorológica, mas não tem essa de sábado, domingo, feriado. Tenho metas para cumprir para ajudar os pesquisadores e, se hoje o tempo está bom e eu tenho que trabalhar, eu vou trabalhar, independente de ser domingo.”

Divulgação Marinha
Capitão de Fragata Luciano de Assis Luiz, 41 anos, chefe do atual grupo de base da Estação Antártica Comandante Ferraz.

Como uma família

“Não tive equipe melhor na Marinha. O pessoal aqui considero como se fosse uma família. Conseguimos nos adaptar bem um ao outro e o trabalho tem fluido muito bem. Apesar da sobrecarga de trabalho. (...) 

Em geral, jogamos muita conversa fora. Só isso já é um passatempo. Mas jogamos jogos de tabuleiro, como dominó, War. Fazemos sessão de cinema.”

Manutenção e proteção

“O grupo base tem dois objetivos basicamente: a manutenção da Estação - a geração de energia, limpeza dos motores e maquinário de forma geral -, e o apoio às pesquisas - garantir que os equipamentos estejam bons e que as pesquisas fluam. E como fazemos isso? Protegendo os cientistas e pesquisadores, tanto em terra, como em mar. Saímos com os botes, levamos as equipes em terra, garantimos essa segurança. (...)

Quando há ventos acima de 30 nós [equivalente a mais de 55 km/h] não é aconselhado sair da base, fazer saídas por mar ou terra, ou quando está nevando muito forte. É necessário observar basicamente neve e vento e, nesse caso, não tem condições de sair.”

A nova estação

“Com a nova estação, eu tenho uma capacidade gigantesca de garantir suprimentos. São 4 frigoríficos pesados e leves. Tenho paiol grande de gêneros secos. O que se priva muito no inverno é de frutas e verduras. Para isso inverno tem voos de apoio, quando o Hércules lança palets com gêneros frescos e ovos. É a caixa com paraquedas. Temos uma área de lançamento. Isso porque os navios Almirante Maximiano e o Apoio Oceanográfico Ary Rongel só chegam aqui no verão, quando conseguem acesso.”

Apoio à pesquisa

“Existem grupos de pesquisas, selecionados pelo MCTIC (Ministério da Ciência e Tecnologia) nas áreas de geologias, mamíferos, algas, aves, botânica. O ministério avalia o que tem condições de operar aqui e as propostas são passadas para a Marinha, e eles vêm de acordo com a programação do projeto. Nosso objetivo é apoiá-los.  

Quando eles chegam, vejo quais são as demandas, do que precisam, forneço o apoio, a segurança. Avaliamos a parte meteorológica, onde vão andar, onde podemos levá-los e vou dizer até onde conseguimos atender a demanda.”

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