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Ansiedade de supermercado é uma coisa real. Veja como superar essa aflição

O supermercado está cheio de escolhas que podem desencadear ansiedade: onde estacionar, pessoas demais, decisões a tomar...

As compras de supermercado são uma parte essencial da vida, mas fazer supermercado não é fácil para quem sofre de ansiedade.

E isso já era uma questão antes da chegada de uma pandemia global. Agora a pandemia de coronavírus está levando os consumidores a lotar os supermercados, como se o final dos tempos estivesse chegando.

Corredores lotados, carrinhos barulhentos e uma sobrecarga de decisões a tomar, coisas que já provocam estresse forte numa ida normal ao supermercado, agora estão atingindo níveis nunca antes vistos. E uma coisa que não ajuda é o desconhecimento generalizado sobre como o vírus se alastra.

Mesmo sem a pandemia, psicólogos atestam: a ansiedade de supermercado é um fenômeno absolutamente real. E muitas pessoas estão sofrendo essa ansiedade triplicada neste momento.

Segundo Kevin Chapman, psicólogo clínico especializado em transtornos ligados à ansiedade, a ansiedade de supermercado é comum. Como outras formas de ansiedade, ela nasce da incapacidade da pessoa de controlar a experiência que vive.

“A essência da ansiedade é formada por ideias de que um evento futuro é incontrolável e imprevisível”, disse Chapman ao HuffPost. Os supermercados estão cheios de incerteza – pense em vagas de estacionamento, multidões, decisões sobre o que comprar, scanners que não funcionam corretamente nos guichês de autoatendimento, filas longas nos caixas. São lugares cheios de gatilhos que podem desencadear ansiedade, disse o psicólogo.

O especialista no setor dos supermercados Phil Lempert também atribui o estresse sentido por algumas pessoas quando vão ao supermercado à enorme abundância de opções. “Um supermercado médio tem por volta de 40 mil produtos diferentes”, disse Lempert ao HuffPost. A ansiedade dos consumidores não é uma das preocupações principais dos donos de supermercados, mas eles têm consciência do problema. “Estamos vendo alguns supermercados reduzindo o número de opções. Em vez de 100 vidros diferentes de azeite, por exemplo, eles agora podem oferecer apenas 10, os mais relevantes.”

A ansiedade de supermercado tem um limite

Ter um número menor de opções pode beneficiar pessoas que têm dificuldade em tomar decisões, mas isso é apenas uma pequena parte do problema mais amplo, algo que, segundo Chapman, afeta as pessoas ao longo de todo um espectro de estresse. “A ansiedade de supermercado ocorre em um espectro”, ele explicou. “Em uma ponta do espectro temos as pessoas que não veem a hora de ir ao supermercado. Na outra ponta temos os casos extremos, como as pessoas agorafóbicas.”

A agorafobia, transtorno de ansiedade que provoca medo de situações ou lugares dos quais é difícil escapar, impede as pessoas que sofrem dessa condição de frequentar lugares com muitas pessoas, como supermercados ou shopping centers. O National Institution of Mental Health estima que 1,3% dos adultos americanos enfrentam a agorafobia em algum momento da vida. Isso significa que a mesma porcentagem de pessoas sofre quando faz supermercado ou evita totalmente fazer as compras de mercado.

<i>A National Institution of Mental Health estima que 1,3% dos adultos americanos enfrentam a agorafobia em algum momento da vida. Quer dizer que a mesma porcentagem de pessoas sofre quando faz supermercado ou evita totalmente fazer as compras de mercado.</i>
A National Institution of Mental Health estima que 1,3% dos adultos americanos enfrentam a agorafobia em algum momento da vida. Quer dizer que a mesma porcentagem de pessoas sofre quando faz supermercado ou evita totalmente fazer as compras de mercado.

“A maioria das pessoas que evita ir a lugares como o supermercado não o faz necessariamente porque precisa escolher que produtos comprar. O problema é mais o fato de ir a um lugar onde de onde seria difícil ou embaraçoso fugir se a pessoa sofresse um ataque de pânico”, disse Chapman.

Segundo a Clínica Mayo, a agorafobia frequentemente aparece depois de a pessoa ter sofrido um ataque de pânico, algo que geralmente tem origem em uma predisposição biológica somada a “experiências de aprendizado generalizadas e específicas que ensinam a pessoa a apreender os sintomas físicos do medo como sendo perigosos”, disse Chapman.

Se a pessoa sofre um ataque de pânico em um supermercado, o supermercado pode tornar-se o gatilho que desencadeia a resposta de medo no futuro, numa associação aprendida entre o medo e o supermercado.

É possível superar a ansiedade de supermercado?

Lempert explicou que supermercados em todo o país estão adotando uma estética acolhedora em um esforço para combater a ansiedade. Alguns supermercados hoje têm paredes internas revestidas de madeira, iluminação quente (luz amarela) e hera subindo pelas paredes, tudo para deixar os consumidores mais à vontade e, ao mesmo tempo, abafar ruídos que podem provocar ansiedade, como os de alto-falantes e carrinhos de compras. Outros, como o Shop-Rite, contam com nutricionistas no local para ajudar os consumidores com suas decisões alimentares.

Essas medidas são ótimas, mas, segundo Chapman, enfrentar supermercados diretamente, mesmo os mais inóspitos, constitui a única cura de longo prazo para esse tipo de ansiedade.

“Me arrisco a dizer que essa ansiedade é curável”, ele aventou. “Podemos programas a estrutura de memória do cérebro para que encare o supermercado como um emoji de dar de ombros, não como a música assustadora do filme ‘Tubarão’. Para começar, é preciso modificar suas avaliações apreensivas sobre o supermercado propriamente dito.”

Trata-se de terapia comportamental cognitiva em estado puro. Chapman orienta seus clientes a escolher pensamentos mais neutros e flexíveis sobre a ida ao supermercado. “Por exemplo, pensar que o supermercado não está tão cheio assim, ou, se estiver, que isso não é grande coisa”, ele explicou. “A geração de pensamentos diferentes me leva a uma abordagem mais confiante.”

Em seguida, ele sugere uma terapia de exposição em que a pessoa terá que enfrentar o supermercado várias vezes, sob todo tipo de circunstâncias (mesmo nas tardes de domingo ou num fim de semana do Super Bowl). “Varie o dia da semana, vá sozinho algumas vezes e acompanhado outras vezes, deixe seu celular no carro –tudo isso são variáveis que controlam o sofrimento associado ao supermercado”, ele comentou.

Falando em variáveis, Chapman acha que não devemos ir ao supermercado apenas em nossas horas livres e não acredita no valor de ir ao supermercado acompanhado de um amigo. Essas coisas, segundo ele, desencadeiam o que ele chama de “sinais de segurança”, que deixam o consumidor ansioso sentir-se melhor naquele momento, mas no longo prazo podem ter efeito inverso ao desejado. “É melhor acostumar-se a qualquer variável que possa ocorrer. É como se você dissesse a seu cérebro: ‘Se eu enfrentar 25 variáveis diferentes e mesmo assim não tiver um ataque de pânico, isso só pode significar que o supermercado não é um perigo’.”

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De acordo com o especialista Phil Lemperto, o supermercado médio tem cerca de 40 mil produtos diferentes à venda.

Chapman sugere uma abordagem diferente para seus clientes com agorafobia, mas recomenda que eles também confrontem suas limitações físicas. “Se uma pessoa se aflige porque seu coração começa a acelerar antes de ir ao supermercado, posso mandar a pessoa correr sem sair do lugar por um minuto antes de entrar no supermercado. Desse modo, ela enfrenta os sintomas e a situação”, ele explicou.

O julgamento vindo de terceiros é um fator menos conhecido que provoca estresse no supermercado

Segundo Chevese Turner, da Associação Nacional de Transtornos Alimentares, outra forma de ansiedade de supermercado é produzida pelos olhares julgadores lançados por outras pessoas no supermercado. Isso é especialmente difícil para pessoas obesas, devido aos estigmas e pressões internos e externos.

“As pessoas de corpo mais pesado tendem a sentir ansiedade quando fazem supermercado, porque sabem que serão julgadas”, disse Turner. “Há relatos horríveis, por exemplo de pessoas fazendo comentários sobre o que outra pessoa está comprando ou então julgando em silêncio.”

Para ajudar quem enfrenta essa dificuldade, Turner disse que um sorriso pode ajudar o outro consumidor, ou um comentário sobre algo não relacionado a comida. “Se você notar que alguém está tendo dificuldades no supermercado, tenha uma conversa positiva com a pessoa”, ela recomendou. “Não se intrometa na vida dela, apenas seja simpático e cordial. Isso pode acabar mudando o dia dela para melhor.”

O melhor de tudo é que esse tipo de interação positiva e afirmadora no supermercado pode combater sua própria ansiedade de supermercado.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.