Especialistas preveem o impacto deste ‘ano perdido’ para as crianças

Muitas delas já deveriam estar de volta às escolas – mas não é o que está acontecendo. E agora?
“Em muitos casos, as crianças estarão mais de um ano atrasadas. Para outras, o atraso será de meses. Mas acho que veremos perdas em todos os casos”, diz um especialista em educação.
“Em muitos casos, as crianças estarão mais de um ano atrasadas. Para outras, o atraso será de meses. Mas acho que veremos perdas em todos os casos”, diz um especialista em educação.

Como sou o tipo de pessoa e, principalmente, o tipo de mãe que tende a se preocupar demais, várias vezes me vejo pensando encadeando várias ideias enquanto vejo meu filho mais velho se esforçando para acompanhar suas aulas à distância.

O que isso tudo vai fazer com ele? Qual será o impacto desse ano acadêmico bizarro para o meu filho? E o que dizer de seus colegas de classe, ou dos milhões de crianças em todo o país começando seus anos escolares olhando para telas de computadores e tablets – sem falar nas que não têm acesso a essas ferramentas?

Claro, ninguém sabe a resposta, afinal de contas este ano acadêmico é realmente inédito. Mas especialistas em educação e saúde mental estão começando a pensar nas possíveis consequências de longo prazo deste ano letivo que não foi. O HuffPost conversou com vários deles. Veja algumas previsões sobre o que este “ano perdido” poderia significar para as crianças dos Estados Unidos.

Haverá impacto significativo no aprendizado.

Os especialistas concordam que a maioria das crianças terá ficado para trás em relação a onde estariam caso as escolas tivessem continuado abertas. A questão é: qual o tamanho desse atraso?

Uma estimativa recente sugere que as crianças que estão estudando remotamente e que recebem uma instrução normal perderão até quatro meses de aprendizado quando voltarem às aulas presenciais em janeiro de 2021 ― se isso de fato acontecer. As crianças que estão recebendo ensino remoto de qualidade inferior podem perder até 11 meses de aprendizado. Crianças que não estão envolvidas em educação à distância podem perder até 14 meses de aprendizagem.

“Em muitos casos, as crianças ficarão mais de um ano atrasadas”, alerta Brian Perkins, professor e diretor da Summer Principals Academy do Teachers College, da Universidade de Columbia. “Para outras, o atraso será de alguns meses. Mas acho que veremos perdas em todos os casos.”

Ele ressalta que não se trata de crítica a crianças, pais ou professores, já que todos estão fazendo o melhor para lidar com a situação. “É mais uma questão de ‘vamos enfrentar a realidade’”, afirma Perkins.

A desigualdade será um problema ainda maior.

Os especialistas que trabalham com saúde e educação tendem a acreditar que a maioria dos problemas de igualdade enfrentados por crianças, famílias e educadores durante a pandemia COVID-19 sempre existiram. Mas agora eles foram ampliados.

“Diferenças que sempre existiram serão cada vez maiores”, afirma Nermeen Dashoush, professora de educação infantil da Universidade de Boston e diretora de currículo da MarcoPolo Learning.

“Veremos uma disparidade maior entre ricos e pobres.”

- Brian Perkins, do Teachers College, da Universidade de Columbia

É muito mais provável que os alunos das regiões mais pobres tenham começado este ano letivo remotamente, mas é muito mais provável que as crianças de famílias de baixa renda não tenham acesso às ferramentas necessárias, como internet de alta velocidade e confiável. Os especialistas preveem um aumento no índice de evasão escolar.

Enquanto isso, as crianças cujos pais têm recursos podem ter optado por complementar a educação com aulas particulares e atividades extracurriculares. “Veremos uma lacuna maior entre ricos e pobres”, afirma Perkins.

Teremos a necessidade urgente de avaliar onde estão as crianças agora.

Todos os especialistas que conversaram com o HuffPost enfatizaram que será crítico ter maneiras de avaliar o quanto cada criança foi afetada pela pandemia. Só assim será possível pensar em oferecer apoio.

“Crianças cujas famílias são fisicamente saudáveis, economicamente seguras, cujos pais estão presentes para oferecer apoio e que podem receber uma educação de qualidade com segurança e consistência podem passar por dificuldades emocionais de curto prazo”, diz Steven Meyers, professor de psicologia da Roosevelt University, em Illinois.

Mas muitas outras crianças correm o risco de desenvolver depressão, ansiedade e outras doenças mentais. “São crianças cujos pais perderam o emprego, que têm menos recursos econômicos e às vezes nem sequer têm um teto garantido”, afirma Meyers. “Outras podem estar enfrentando um risco diferente, porque membros da família ficaram doentes ou seus pais tiveram uma resposta psicológica mais séria à pandemia.” Crianças que já sofriam com problemas de saúde mental também correm maior risco.

O mesmo se aplica ao desempenho acadêmico: novamente, algumas crianças terão perdas mínimas de aprendizado ao voltar às aulas presenciais. Outros estarão mais atrasadas.

“Existem estratégias e técnicas que podem ajudar as crianças a recuperar o tempo perdido, mas primeiro é preciso identificá-las”, diz Perkins. “Vamos investir nos professores para que eles saibam quais alunos precisam de ajuda? Quando todos estiverem de volta à sala de aula, em vez de ter duas crianças que precisam de auxílio, eles podem ter de lidar com 20.”

Perkins disse que teme que os professores não tenham o tempo, suporte ou treinamento necessários. E pais e especialistas, de pediatras a conselheiros, também terão de se envolver.

“A complexidade e a escala do monitoramento e assistência aos jovens [exigirão] serviços que vão muito além dos recursos normalmente disponíveis”, afirma Meyers.

Os especialistas alertam que devemos planejar não apenas para a perda de aprendizado, mas também para a possibilidade de as crianças perderem o entusiasmo pelo aprendizado.
Os especialistas alertam que devemos planejar não apenas para a perda de aprendizado, mas também para a possibilidade de as crianças perderem o entusiasmo pelo aprendizado.

Nosso novo desafio: ajudar as crianças a voltar a amar o aprendizado.

Há muitos sinais que indicam que as crianças não são grandes fãs do ensino à distância. A fadiga do Zoom é um exemplo. Dois terços dos professores afirmam que seus alunos estão menos envolvidos com o aprendizado à distância.

“Isso terá impacto na relação deles com o aprendizado. Não acho que muitas crianças sairão deste ano amando [as aulas remotas]”, diz Dashoush. Mesmo as crianças que estão na sala de aula não estão tendo uma experiência típica, dadas as precauções de segurança que as impedem de socializar como antes.

Dashoush acredita que pais e educadores devem estar preparados para a possibilidade de que a pandemia não resulte apenas em perda de aprendizagem; pode também haver uma perda do amor pelo aprendizado. Isso pode acontecer até mesmo com as que parecem relativamente aplicadas nas aulas online. “A criança pode estar fazendo todos os exercícios, mas não está aprendendo nada de novo”, afirma.

E aprender esse amor ― e esse entusiasmo – pelo aprendizado é importante não só porque gostaríamos que as crianças curtissem aquilo que passam horas por dia fazendo, mas também porque prazer e realização estão claramente ligados.

“Diria que devemos nos concentrar nas coisas que sabemos que têm efeito de longo prazo. Leia um bom livro para elas”, afirma Dashoush. “Certifique-se de que elas estão aprendendo coisas pelas quais realmente têm interesse.”