25/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 25/01/2019 00:00 -02

Annie Ganzala, a grafiteira e mãe solo que deixa sua marca nos muros de Salvador

“Minha arte é uma resposta à maneira como a sociedade trata as mulheres."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Annie Ganzala é a 324ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Annie Ganzala é historiadora por formação, mas artista desde que se entende por gente. Aos trinta anos, ela é grafiteira e retrata nos muros de Salvador, principalmente questões ligadas ao gênero. “A ausência de mulheres no grafite faz com que a representação feminina nos muros seja sexualizada. O meu grafite engloba vários tipos de mulheres”, explica. Lésbica, ela conta que sofreu e ainda sofre atentados de machismo e homofobia por parte dos grafiteiros homens da cena. Ela revela que já foi ameaçada nas ruas e tem medo de grafitar.

Já fui ameaçada na rua, tenho medo de grafitar com a mesma frequência de antes.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A chegada de Lila trouxe para Annie o desejo de contribuir para a mudança no mundo.

As ameaças aconteceram há alguns anos, e Annie enxerga mudança na cena do Grafite: “Agora estou conhecendo, por exemplo, Júlio do Musas [Museu de Street Arte de Salvador], Ramsés, Lee 27... são grafiteiros que estão abertos para o diálogo de gênero e sexualidade.”

Hoje, a cena está aberta à diversidade, mas não foi fácil chegar até aqui: Annie sofria ameaças e preconceito não apenas por ser mulher, mas também por ser lésbica. Isso nunca a afastou de sua paixão. “Grafitar é minha principal válvula de escape”, conta.  

Seu primeiro ímpeto por grafitar começou quando sua filha nasceu. A chegada de Lila trouxe para Annie o desejo de contribuir para a mudança no mundo – e isso precisava começar pelo gênero. “Quando Lila nasceu, fiquei pensando em que mundo eu queria deixar pra ela. Esse é o momento em que a gente se questiona e tenta fazer alguma coisa”, lembra.

A maternidade é muito solitária.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Aos 8 anos, Lila é rapper – abram os portões para MC Lila –, grafita junto com a mãe e já é afiadíssima quando o assunto é arte.

Desde muito jovem, ela tinha a maternidade como um dos projetos de sua vida: “eu sempre sonhei em ter uma filha menina”. Quando Lila Raio de Sol nasceu, Annie se viu na condição de mãe-solo e passou a questionar (e vivenciar) a maneira como a maternidade é tratada socialmente. “Eu ainda fico chocada com a forma com que a sociedade trata as mulheres, principalmente depois da maternidade”, desabafa.

Aos 8 anos, Lila é rapper – abram os portões para MC Lila –, grafita junto com a mãe e já é afiadíssima quando o assunto é arte. “Eu gosto de fazer grafite e também de escrever rap porque a gente pode mostrar o que a gente pensa”, constata. Os principais temas das músicas de MC Lila são “ancestralidade, a força da mulher, a mulher na Bahia e mulheres negras”, nas palavras da artista mirim em pessoa.  

A vida fica mais bonita com grafite.Lila Ganzala
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
“Grafitar é minha principal válvula de escape."

A relação mãe-filha de Annie e Lila é permeada pela arte e pela força da mulher negra, cuja história elas representam em seus grafites. Um dos sonhos de Lila pode ser capaz de renovar nossa fé no futuro: “eu quero aprender com ela a fazer grafite com muitas cores e detalhes”, sonha o pequeno raio de sol com um sorriso calmo. Um viva às Lilas do futuro.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.