MULHERES
28/01/2020 01:00 -03 | Atualizado 28/01/2020 06:01 -03

Anitta: Campanha do governo para abstinência sexual é 'grande hipocrisia'

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, cantora e empresária classifica política de "loucura" e defende educação sexual para prevenir DSTs e evitar gravidez.

Raul Sifuentes via Getty Images
Anitta classifica de "loucura" decisão do governo de promover abstinência sexual em meio ao Carnaval.

Uma das maiores influenciadoras dos jovens brasileiros na atualidade, Anitta vê com ceticismo a decisão do governo federal de promover abstinência sexual. Ao HuffPost, ela classificou de “loucura” e “grande hipocrisia” a campanha que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos deve lançar no próximo dia 3 de fevereiro — a pouco mais de 20 dias do Carnaval.

“Se você quer prevenir a doença, se você quer fazer um controle de natalidade, não adianta você falar: ‘façam abstinência sexual’. Imagina se os jovens no meio do Carnaval vão escutar isso, se vão pensar nisso”, disse a cantora no início da noite desta segunda-feira (27), acrescentando que não estudou a fundo a proposta.

A entrevista foi dada ao HuffPost após ação promocional de Anitta com Cheetos em Madureira, zona norte do Rio de Janeiro e bairro natal da funkeira.

“O caminho certo é [o governo] educar sexualmente as pessoas; o que tem que fazer é colocar educação sexual nas escolas, no sentido de como se prevenir, como se proteger”, defendeu Anitta.

Para ela, os conteúdos trabalhados em sala de aula deveriam respeitar a idade e a série dos adolescentes. À medida que eles crescessem, teriam aulas de uso de preservativo e acesso a projetos e campanhas para prevenção de DSTs (doenças sexualmente transmissíveis). 

A pasta comandada pela ministra Damares Alves argumenta que a chamada “preservação sexual” é o único método “100% eficaz” para reduzir a gravidez na adolescência no Brasil. O público-alvo da campanha está na faixa etária de 10 a 18 anos.

O Brasil tem índice de 62 adolescentes grávidas para cada grupo de mil jovens meninas de 15 a 19 anos, de acordo com o relatório mais recente da ONU. No mundo, a taxa é de 44 para cada mil. 

A proposta do governo Bolsonaro também preocupa especialistas que identificam uma resistência em divulgar informações sobre sexualidade, além do cunho religioso nessa política.

Imagina se os jovens no meio do Carnaval vão escutar isso, se vão pensar nisso [abstinência sexual].
Mauricio Santana via Getty Images
Funkeira, Anitta diz que ritmo faz parte da cultura brasileira e não pode ser associado a "coisa de vagabundo".

Estigmatização do funk

Além da campanha de abstinência sexual, Anitta criticou outra política em gestação pelo governo Bolsonaro. Também na pauta de costumes, a mais forte candidata à secretária da Cultura, Regina Duarte, disse ao presidente que aposta na criação de eventos para família para competir com bailes funk, revelou a coluna de Lauro Jardim, do Globo de domingo (26).

Para a cantora, o problema não é organizar festas de família, mas sim tentar uma “competição” com baile funk. 

“O governo tem pessoas que não entendem sobre a comunidade, a vida de quem nasce na favela, num lugar menos favorecido, como eu”, afirmou ao HuffPost. “Eles têm a ideia de que a culpa é do ritmo, [que frequentadores do baile] ‘são um bando de vagabundo’, mas não é assim.”

Anitta entende que a escolha por frequentar o baile funk é uma questão cultural de periferias e comunidades. É a opção de diversão para quem vive nessas áreas.

“O problema não é a festa funk ou o ritmo funk; o baile é feito porque justamente essas pessoas não tinham dinheiro pra pagar uma diversão particular em outros lugares”, ressaltou.

Por isso, Anitta reforça que mais uma vez a educação faria a diferença — nesse caso, para reduzir a criminalidade em bairros pobres. “Se a preocupação é marginalidade, drogas, armas, então, eles [o governo] têm que se preocupar com outra parte: educação, escola, incentivo a projetos sociais”, propõe.

Regina Duarte ainda não foi nomeada secretária da Cultura. Mas, de acordo com o presidente Jair Bolsonaro, a nomeação dela deve ocorrer até quinta-feira (30).

Pelo Twitter, Anitta já havia criticado o teor autoritário da medida estudada pela atriz global caso assuma a Cultura:

Questionada se o fato de a mulher mais poderosa do Brasil ser funkeira ajuda a diminuir o estigma, Anitta concluiu: “Espero que sim, por isso tento deixar as pessoas nunca esquecerem de onde eu vim... A gente pode ser bem-sucedida, mas as portas não se abrem [com facilidade]. Antes de criticar ou querer cortar as pessoas, a gente tem que mexer na raiz do problema”.