14/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 14/02/2019 00:00 -02

Das ruas de São Paulo para o mundo: A maratona de Ana Luiza dos Anjos Garcez

Maratonista morou em uma instituição na capital paulista por 16 anos antes de começar a usar drogas nas ruas da cidade e “descobrir” a corrida.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Luiza Garcez, a "Animal", é a 344ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

“Pode conversar comigo. Eu aceito”. Assim a corredora Ana Luiza dos Anjos Garcez, a Animal, 56 anos, respondeu ao convite para falar com a reportagem do HuffPost Brasil. Esse seria o primeiro de 37 áudios enviados por ela em pouco mais de uma semana. Fora as inúmeras tentativas de ligação de áudio. A cada chamada perdida, um pedido: “Me liga agora porque depois eu fico sem internet em casa”. Ana só manda áudios. Ansiosos. “Quando você vem? Quero te mostrar minha pista”.

Refere-se ao espaço como se fosse uma parte da sua casa. Talvez seja de fato. Há quase 20 anos, é na pista do Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, que ela treina. “Aqui é meu palácio. Falar mal desse lugar é falar mal de mim”, diz enquanto caminha pelo local e cumprimenta seguranças e funcionários. Conta que gosta de correr bem cedo, entre 4h e 5h. Negociamos outro horário para ela apresentar esse tão importante “cômodo” do palácio. Tem um jeito agitado e está com sua roupa de corrida. “É só o que eu uso mesmo. Mas tenho um corpo bonito, viu? Parece que eu tenho 56 aninhos?”, pergunta enquanto levanta a blusa e mostra o abdômen definido. Usa também um óculos escuro que para leigos mais parece uma viseira de um capacete. “Tiram sarro, mas todo mundo gosta. É muito bom. Coloca pra você ver”.

O esporte é tudo. Se não fosse ele, eu não estava aqui, estava na cadeia ou debaixo da terra.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Há quase 20 anos, é na pista do Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, que ela treina.

Assim chega a sua pista. Olha e aponta: “É aqui que eu treino. Vocês vão ver meu 400m e vão ficar de queixo caído”. Mas a prova que ela mais gosta de fazer é a meia maratona, de 21 km. E curte outras competições mais curtas. E ama ganhar. Briga, discute, xinga quem estiver em seu caminho. No dia das provas, não gosta de falar com ninguém. Bebe dois litros de água, come um pedaço de gengibre e chupa uma bala. Focada. “Sou a primeira na minha faixa de idade. Conheço Japão, Nova York, Argentina, Cuba, Uruguai, Colômbia, México, França, Chile. Ganhei medalhas belíssimas coloridas”. Realmente são muitas medalhas e troféus. Centenas penduradas em seu quarto – separadas pelas cores dos cordões – e  ocupando mesas e dispostos em cima de caixas. “Não sei quantos são”.

Batendo o olho rapidamente é possível reparar que muitos são de primeiro lugar ou vice-campeã. Diversos de fora do País. Mas muitos nem é possível ver direito. E Animal é isso. É muita coisa. Muitos prêmios, muitas histórias, muitas conversas, muita energia. É desbocada, fala palavrão, não esconde se não gosta de alguém ou alguma coisa, deixa claro seus limites e fala o que quer falar.

Não quero saber de estudar porque acho que vão falar a mesma coisa, tenho trauma.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil

E foi assim que se tornou uma corredora após quase 20 anos morando na rua em São Paulo. Conta que ela e a irmã gêmea – que viu pela última vez quando tinha 17 ou 18 anos, não tem certeza – foram abandonadas ainda bebês em uma caixa de sapato na porta de uma instituição. Foram 16 anos criada ali. Apanhava muito e ficou traumatizada após fazer “mais de dez vezes” a mesma série. Não aprendeu a ler e a escrever e diz que nem quer. “Não quero saber porque acho que vão falar a mesma coisa, tenho trauma”. Quando saiu de lá, foi trabalhar em casa de família e após seis meses sem receber foi embora com o que pode levar em algumas malas. “Roubei porque não me pagou e fui para a Praça da Sé. Dei tudo e só fiquei com um cobertor. Morei 20 anos na rua, roubava, assaltava, traficava, mandava as pessoas assaltarem. Cheirava cola para tirar a fome e aquecer do frio. Parei depois que acordei passando mal. Eu não sentia meu braço, o médico falou que eu podia ficar aleijada”.

Dos tempos da rua, conta que não deseja o que passou para ninguém. Corria muito da polícia, perdeu muitos colegas, apanhou. “Olha, eu não tenho essa parte do osso do rosto. Coloca aqui a mão”, explica conduzindo o toque na maçã de seu rosto para demonstrar a sequela do ferimento. Foi nessa época também em que surgiu seu apelido. Antes de começar a correr, Animal teve uma fase em que andava de patins. “Pegava rabeira de caminhão, era maloqueira, dava rasteira nos moleque, me achavam folgada e me batizaram de Animal. Ficou”. Mais tarde conheceu, ainda na rua, uma corrida que ia para além de fugir da polícia. Coisa de filme. Literalmente. Após assistir na TV de um antigo comércio onde costumava fazer alguns roubos o filme Carruagem de Fogo – que relata a preparação de uma equipe de atletismo para os Jogos Olímpicos de 1924 – teve um estalo. Pediu para que roubassem o que ela precisava: um tênis, um short e uma camiseta. E começou a correr. “Me inspirou o cara que ganhava na pista”. 

Não tem nada, patrocínio. Eu às vezes vendo coisas, roupas, relógio para poder ir. Tem gente que me ajuda, faz vaquinha.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Animal" acredita que o esporte fez com que sua vida mudasse.

Nessa época, no entanto, Animal não tinha pista. Era só a rua mesmo. Mas foi quando as coisas começaram a mudar. Ela apareceu em uma matéria de televisão e o então secretário de esportes, Fausto Camunha, viu e fez um convite para ela. “Ele me chamou para sair da rua e falou que ia me ensinar a correr. Não tinha nem o que perguntar. Fui. Ele e o meu padrinho. Estou em falta com ele. Faz tempo que não telefono”. Passou então a treinar no Centro Olímpico. Deu trabalho. Seu técnico, Wanderlei Oliveira, – o mesmo até hoje – dizia que ela não obedecia, era agressiva. Mas hoje, são parceiros e o local de treino passou a ser o Ginásio do Ibirapuera. E desde então Animal passou a se dedicar à corrida. Foi nesse meio que conheceu muita gente que a ajudou. Tirou passaporte, viajou, brigou bastante durante provas – ainda xinga com força quando relata alguns episódios que considerou injusto ou que achou que foi prejudicada – e acumulou aquelas centenas de premiações – algumas em dinheiro, muitas não.

Isso, aliás, é um problema até hoje. Sem estabilidade financeira, garantir sua presença nas provas não é tarefa fácil. Mas ela vai atrás. E se decide que vai, pode ter certeza de que ela vai. “Não tem nada, patrocínio. Eu às vezes vendo coisas, roupas, relógio para poder ir. Tem gente que me ajuda, faz vaquinha”. Ela cita diversos nomes de quem está a seu lado nessas ocasiões. Faz questão de reconhecer. “Tenho muitos amigos aqui”. E acredita que o esporte fez com que sua vida mudasse. “Se não fosse o esporte eu não estava hoje falando com vocês. O esporte me deu educação, disciplina, deixa você bonita, não deixa você triste, nem acabada. O esporte é tudo. Se não fosse ele, eu não estava aqui, estava na cadeia ou debaixo da terra”.

Hoje não tenho medo de nada.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Centenas penduradas em seu quarto – separadas pelas cores dos cordões – e  ocupando mesas e dispostos em cima de caixas.

Por isso gosta de aproveitar. Mesmo com todas as dificuldades que passou – e não esquece, ela frisa. Mas também não se arrepende. “Sou muito feliz, alegre, não vou ficar chorando. Está deprimido? Vai passear, ver gente. Depois de tudo, hoje não tenho medo de nada. Morei 16 anos em instituição, não fui feliz. Morei 20 anos na rua, não fui feliz e agora é que estou sendo. Tudo que não fiz faço agora depois de velha. Viajo e trago um monte de coisa, gasto. Comprei as coisas que eu tinha vontade. Comprei uma máquina de lavar roupa, era meu sonho. Agora vou lavar tudo que tenho direito. Comprei também um patinete elétrico. Estou treinando. Já já vou na rua com ele, bem maravilhosa”.

Cumprimenta mais uns colegas. Dá dicas de treino para um, acena para outro. Sente-se confortável ali. Leva uma picada no fim da conversa. Bate com força na perna, xinga o bicho. Ninguém viu o que chegou perto dela, que logo fica de pé, se sacudindo, um pouco impaciente. Deve querer ir para pista. Mostrar o que pode fazer. Seguimos logo atrás. Depois da demonstração, se despede e diz que vai almoçar e passear na Avenida Paulista, como faz inúmeras vezes. “Adoro ir na Paulista! Tomo sol lá, me pedem autógrafo”. Vai a pé mesmo, com passo apertado, mas não exatamente apressado. E só como ela anda. Do seu jeito. No seu ritmo. Porque Animal faz o que quer.  

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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