COMPORTAMENTO
17/11/2019 03:00 -03 | Atualizado 17/11/2019 03:00 -03

Trabalho em um zoológico e isto é o que eu visto para trabalhar todos os dias

Cuidadores de animais que trabalham com pinguins, macacos e preguiças revelam como suas roupas podem afetar sua segurança física – e a dos animais.

Mary Beth Koeth for HuffPost
Ron Magill, do Zoo de Miami, curte o abraço de uma preguiça-de-dois-dedos chamada Chelsea.

Quando seu trabalho envolve cuidar de rinoceronte ou alimentar um pinguim, a última coisa com que você se preocupa é se o seu “look do dia” está na moda. O que importa é ter um guarda-roupa funcional.

Todos os dias, os profissionais que trabalham em zoológicos vestem seus uniformes sabendo que suas roupas – assim como tudo que eles fazem – exercem efeito direto sobre os animais que estão sob seus cuidados.

E, embora seu trabalho não seja super glamuroso, é algo que eles adoram fazer.

Rick Smith, responsável por pinguins no Zoo de Saint Louis e encarregado da segurança em mergulhos

Paul Nordmann for HuffPost
Rick Smith, responsável pelos pinguins do Zoo de St. Louis.

Rick Smith descreve seu uniforme como sendo mais parecido com o de um pescador do que de um cuidador de animais em um zoológico. Faz sentido: afinal, ele lida com muitos peixes todos os dias, já que cuida de cinco espécies de pinguins e duas espécies de papagaios-do-mar. Ele é responsável pela limpeza, alimentação e observação de saúde das aves marinhas do zoológico.

“Basicamente o que fazemos é operar um serviço de hotel e restaurante de frutos do mar para os pinguins”, ele explicou. “Limpamos a área deles, levamos pilhas de peixes deliciosos para eles e então eles ou comem das nossas mãos ou de uma bandeja. Se um deles está exibindo algum comportamento incomum, chamamos o veterinário para uma consulta. E temos alguma aves mais velhas que precisam ser medicadas regularmente.”

Paul Nordmann for HuffPost
Os pinguins observam Smith fazendo a faxina de seu hábitat no Zoo de St. Louis.

Para carregar peixes nos braços, escovar as algas das pedras da área dos pinguins e trabalhar na água em temperaturas baixas, é preciso usar roupa especial. Para não ficar molhado o tempo todo, Rick Smith geralmente usa botas de borracha e macacão de pescador. Ele dá preferência a camisas de algodão ou lã, porque já constatou que esses materiais conservam melhor seu calor em situações molhadas. Como responsável pela segurança de mergulhos, ele supervisiona os 40 mergulhadores do zoo, que limpam e inspecionam todos os hábitats subaquáticos do zoológico. Os mergulhos exigem um guarda-roupa completamente diferente.

“Como mergulhamos para fazer faxina lá embaixo, usamos máscaras que cobrem o rosto completamente”, diz Smith. “Além da roupa de mergulho comum, usamos botas, capuz e luvas. No caso dos mergulhadores que trabalham com pinguins, uma roupa de mergulho de 7 milímetros de espessura não aquece o suficiente, então usamos um dive skin por baixo – um outro conjunto fino, de lycra ou outro material.”

Paul Nordmann for HuffPost
Usando a roupa e os equipamentos completos de mergulho, Smith faz a limpeza do tanque de pinguins com um pinguim amigo por perto, no Zoo de Lt. Louis.

Tirar uma roupa de mergulho ao término do dia e sair cheirando a peixe é algo que não agradaria a todo o mundo, mas Rick Smith vem fazendo isso há 30 anos. Ele gosta dos animais que estão sob seus cuidados e curte educar o público sobre seus habitats nativos.

“Todo esse processo constante de trocar de roupa, me molhar e passar frio não me incomoda, porque eu realmente me importo com esses ambientes”, ele explicou. “Prezamos o bem-estar de nossos animais e seus habitats, mesmo que isso signifique que tenho que passar 45 minutos debaixo d’água aspirando fezes com uma máquina.”

Dianne Mohr, cuidado do Centro Regenstein de Primatas Africanos no Lincoln Park Zoo

Alex Garcia for HuffPost
A cuidadora de macacos Dianne Mohr, do Centro Regenstein de Primatas Africanos do Lincoln Park Zoo, em Chicago, numa área interna do zoo. Mohr usa bermudas cáqui e uma camisa polo para trabalhar, mas também tem que usar máscaras e óculos especiais para impedir a transmissão de germes entre os primatas e ela. Mohr usa a proteção de plástico transparente sobre o rosto quando limpa as áreas dos primatas.

A cuidadora Dianne Mohr cuida de 13 gorilas e 10 chimpanzés no Lincoln Park Zoo, em Chicago. Ela trabalha com os animais diariamente em sessões de treinamento, dando remédios a eles, limpando suas áreas e realizando outras tarefas.

Temos um chimpanzé em particular que adora olhar brincos, então faço questão de trocar de brinco todos os dias, só para ele.Dianne Mohr

Mohr veste o que descreve como um uniforme típico de funcionário de zoológico: bermuda cáqui, camisa polo verde e botas de trabalho. Mas, devido às semelhanças entre humanos e esses primatas, o contato estreito significa que Mohr precisa tomar cuidados especiais para impedir o risco de transmissão de doenças aos animais.

Alex Garcia for HuffPost
Um cadeado que pertence a Mohr. O sistema de trancas do zoológico lhe permite evitar entrar em contato acidental com os chimpanzés.

“Nós humanos também somos primatas, assim como os chimpanzés e gorilas”, ela explicou. “Nós podemos transmitir germes de resfriado a eles, e eles podem nos contagiar se estiverem resfriados. Usamos máscaras de rosto diariamente para minimizar a transferência de bactérias. Usamos luvas de borracha quando vamos alimentar os primatas e limpar as áreas deles e equipamentos para proteger nosso rosto quando estamos lavando com mangueira, para que não entre nada nos nossos olhos. Até touca de banho usamos.”

Mohr e seus colegas chegam para trabalhar usando suas roupas normais – eles admitem que em alguns casos chegam ainda de pijama – e trocam por seus uniformes no zoológico. Isso ajuda a garantir a esterilidade das roupas.

“Especialmente agora, por ser a época de frio, quando muita gente contrai gripe, e porque trabalhamos no centro de Chicago e usamos transporte público, nunca se sabe que micróbios estão circulando no ar”, ela explicou. “Quando chegamos ao trabalho, trocamos nossa roupa normal pelo uniforme de trabalho. Nossos uniformes são lavados no trabalho. Tomamos um banho antes de sair do zoológico ou assim que chegamos em casa.”

Alex Garcia for HuffPost
Ao alto: Mohr cuida de chimpanzés numa área do zoológico ao ar livre. Abaixo: chimpanzés no zoológico.

Acessórios que balançam são um perigo para Mohr e para os animais, mas um pouco de autoexpressão é possível – e até a ajuda a se relacionar com os animais sob seus cuidados.

“Alguns tratadores usam meias divertidas sob as botas de borracha, para acrescentar um pouco de cor”, ela explicou. “Podemos usar brincos pequenos ou de pressão. Temos um chimpanzé em particular que adora olhar brincos, então faço questão de trocar de brinco todos os dias, só para ele. O nome dele é Zachary. Ele é o favorito de todo o mundo. Ele aponta para suas próprias orelhas e tenta olhar as nossas mais de perto.”

Ron Magill, diretor de comunicações e embaixador do Zoo de Miami

Mary Beth Koeth for HuffPost
Ron Magill, embaixador do Zoo de Miami, posa para a foto com um píton birmanês albino de 3,5 metros chamado Prince.

Você talvez reconheça Ron Magill de suas participações como cuidador de animais nos programas “Good Morning America” ou “Today” ou de sua nova série documental, “Wild Kingdom With Ron Magill”. Ele trabalha no Zoo de Miami há mais de 40 anos e ainda interage diariamente com animais diversos. Assim, já teve tempo suficiente para aperfeiçoar sua roupa de trabalho.

“Uso camisas de algodão 100%, geralmente de manga longa; elas me protegem do sol e dos insetos, e posso enrolar as mangas para cima se eu quiser ficar mais à vontade”, disse Magill ao HuffPost. “Uso calças cargo, porque assim, se eu precisar me sentar ou acocorar, não há nada que possa cair dos meus bolsos de trás. Sempre uso tons terra, como cáqui ou marrom escuro. Esses tons são mais refrescantes, e em Miami enfrentamos muito calor.”

Mary Beth Koeth for HuffPost
Magill mostra as roupas que usa diariamente para trabalhar no Zoo de Miami.

Os funcionários do zoo precisam seguir um código de vestimenta que inclui botas com ponteiras de aço, consideradas mais seguras. Magill precisou mover um recurso contra essa norma e optar por usar tênis, depois de descobrir que as ponteiras de aço das botas não cabem nos orifícios das cercas metálicas do zoológico, algo necessário quando se está fugindo de um crocodilo ou rinoceronte, coisa que já aconteceu com ele. Mais de uma vez.

Mas Magill não passa todo seu tempo em Miami. Como documentarista, ele viaja muito e suas roupas precisam se adaptar. Recentemente ele fez uma visita ao pantanal matogrossense para estudar onças, lontras e araras-azuis. Antes disso, estava filmando um documentário na Antártida, onde usou o oposto de seu uniforme de Miami: camisetas térmicas, calças de esqui, várias camadas de agasalhos felpudos, moletons, parca e luvas.

Mary Beth Koeth for HuffPost
Magill com Chelsea, uma preguiça-de-dois-dedos.

Uma fita adesiva forte às vezes é seu acessório favorito, usado para fechar as aberturas de suas calças e meias quando ele está em uma área conhecida por ter sanguessugas. Mas Magill tem outros objetos que revelam sua paixão por acessórios.

“Meu logotipo é bordado sobre meu uniforme”, ele disse. “Tenho silhuetas metálicas de animais cravadas no meu cinto. Tenho um relógio de pulso Casio que já levei para a Antártida e para as selvas da Índia, onde fui procurar tigres. Depois de 20 anos, ainda está funcionando perfeitamente.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.