ENTRETENIMENTO
01/08/2019 14:30 -03

'O Rei Leão': O que os animadores do original acharam do remake de 2019?

Conversamos com três deles para descobrir.

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Simba, Timão e Pumba em O Rei Leão de Jon Favreau.

Parece que voltamos a 1994 e O Rei Leão monopoliza a cultura pop. Por duas semanas consecutivas, o remake em pseudo live-action da animaçào clássica da Disney conquistou o público mundial, acumulando já US$ 1 bilhão em bilheteria global. E dessa vez, a Disney não pode alegar que esteja surpresa.

O público pode estar satisfeito com a visão fotorrealista de Simba e sua turma, mas e os animadores responsáveis pelo original? Afinal de contas, grande parte do novo filme tenta reproduzir a animação de 1994 frame a frame. Algo que pode ser uma bem-vinda dose de tecnologia avançada à nostalgia ou um exercício criativo de uma incrível redundância.

Isso mais ou menos traça uma linha divisória sobre o que se acha do novo Rei Leão: Há os que amam e os que odeiam.

Entrei em contato com 13 artistas que contribuíram para o primeiro Rei Leão. Dos animadores que responderam meus e-mails, três viram a adaptação atual e concordaram em falar. Três outros disseram que não planejavam vê-lo, uma postura que pode ser interpretada como um ato de protesto.

“Eu só vou me meter em problemas se eu comentar sobre a ‘outra’ versão”, disse um animador agora empregado em um estúdio rival. Outro respondeu: “Há um enorme ressentimento contra esses remakes em 3D por parte das equipes que trabalharam nos originais em 2D. Talvez se tivéssemos algum tipo de royalty, seria diferente.

David Stephan, que no início dos anos 1990 contribuiu para a sequência de abertura e o design das hienas, resumiu bem o sentimento dos que ficaram do lado do “odiei”: “Se você entrevistar a equipe do original, a maioria deles diria: ‘Por quê? Eles tinha que fazer isso?’ Isso meio que dói, sabe.”

Claro que nunca saberemos se a tal pesquisa confirmaria a hipótese de Stephan, mas Alexander Williams, que trabalhou no Scar original, e Dave Bossert, que fez efeitos visuais em todo o filme, são muito mais “hakuna matata” sobre a coisa toda. Ambos adoram a versão de Jon Favreau.

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Scar e as hienas no novo O Rei Leão.

Os méritos de um remake de O Rei Leão que parece live-action

Williams: “Eu acho que alguns dos meus colegas esquecem que quando você trabalha em um filme da Disney, você não o possui. O filme é do estúdio. Você é pago para trabalhar lá, o que é um grande privilégio. É uma empresa incrível. Você começa a trabalhar neste ótimo material, mas quando você sai, é o filme deles e eles podem fazer o que quiserem com ele. Então, não é da minha conta se eles querem refazê-lo ou não.

Stephan: ”É meio triste que os acionistas estejam decidindo quais filmes serão feitos. A máscara da Disney caiu. Ela está claramente dizendo: ‘Sim, só queremos ganhar dinheiro’. Isso é decepcionante como artista, ainda mais vindo de um estúdio que foi fundado com bases na originalidade e na arte.”

Bossert: “Eu vejo isso como o que Walt [Disney] fez quando ele estava construindo a empresa. Ele constantemente reutilizou e reciclou grandes histórias. É muito evidente se você observar quando ele construiu a Disneylândia. Ele pegou propriedades como Peter Pan, Alice no País das Maravilhas e Cinderela e criou atrações imersivas no parque temático, além de todas as mercadorias, livros e outras coisas que surgiram. Ele meio que inventou essas coisas. O fato é que eles estão pegando essas ótimas histórias e as estão criando em diferentes arenas de entretenimento.”

A estética realista

Williams: “Não se esqueça, na época de O Rei Leão, havia animações digitais inovadoras acontecendo. Os gnus, por exemplo, eram todos gerados por computador, e isso era considerado muito radical e avançado para o seu tempo. Eu não acho que você pode lamentar muito os velhos tempos, porque todo mundo está sempre ansioso para fazer melhor.

Stephan: “Eu sou um grande fã de arte, e você pode ver os impressionistas se desenvolvendo através do início do século 19, depois os quadros de Jackson Pollock nos anos 1940 e 1950... E então houve um período nos anos 1960 onde eles foram realmente hiperrealistas, quase como fotografias. Isso foi uma evolução. E agora é como ‘Olha, vamos pegar esse ótimo Monet e vamos pintar como deveria ser.’ Isso é ser ‘realista’?”

Bossert: “Visualmente é impressionante. Em alguns casos é uma versão frame a frame da animação original, e isso não me incomoda, porque acho que eles queriam ser fiéis ao material original. A fidelidade ao original certamente agrada ao público, sem dúvida. ”

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Zazu, Mufasa e Simba no remake de O Rei Leão.

As performances de voz

Williams: “São muito, muito boas. Eu acho que eles fizeram um ótimo trabalho. Esses filmes não são realmente feitos pelos atores. Eles não estão em um set. Eles gravam em cabines de gravação por algumas horas e é isso. Essa é toda a contribuição deles. Obviamente que é uma contribuição muito importante, mas seu papel real no filme é relativamente pequeno comparado aos artistas que trabalham nele por anos.”

Stephan: “Eu acho que foram fracas. Os personagens parecem de madeira, sem expressão. Eles se colocaram em uma posição complicada ao optarem pelo realismo. Você está realmente preso a física da vida real ou as pessoas não vão comprar a ideia. Mas houve algumas cenas em que eles conseguiram expressões que, de repente, deixaram tudo um pouco mais vivo.”

Bossert: “Eu amo o fato de que eles mantiveram James Earl Jones como Mufasa. Isso foi ótimo. É uma espécie de homenagem ao filme original. Achei as caracterizações de voz ótimas. Não havia nada que me parecesse estranho. Eu particularmente gostei de John Oliver como Zazu e Seth Rogen como Pumba.”

O design dos personagens

Williams: “Algumas partes da animação são de tirar o fôlego. Estes ainda são filmes artesanais. Quero dizer, esqueça a tecnologia. Você ainda tem uma sala cheia de artistas tentando fazer com que cada pixel pareça bonito. Não é fácil acertar isso. Então eu digo que a tecnologia é parte do processo. É impressionante o que pode ser feito agora. Parece que você está em um mundo de David Attenborough [apresentador de programas sobre natureza selvagem]: filmagens de documentários e, no entanto, os animais estavam falando, se expressando.”

Stephan: “Isso me tirou do filme, literalmente. Especialmente com o pequeno Simba andando por aí. É muito real. Quando ele falava, me lembrava daqueles velhos filmes sobre a natureza, onde eles dublavam as vozes e os lábios se moviam. Pensei: “Ah, isso é muito barato”. Acho que é muito cedo para isso. Acabei saindo do cinema dizendo: ‘Nossa, essa foi uma ótima história em que trabalhei em 1993. Como é que os macacos do Planeta dos Macacos original parecem muito mais vivos do que os animais de O Rei Leão?’ Alguém na Disney deve ter dito: ‘Quer saber, vamos acabar completamente com as expressões. Vamos apenas manter o mais real possível’. Eu acho que diminuiu o filme.”

Bossert: “Eu gostaria que os personagens tivessem um pouco mais de emoção nos olhos. Se você tem animais conversando, pode ter mais liberdade com expressões faciais. Com os olhos mais do que qualquer outra coisa. Quando um personagem está falando, os olhos podem abrir um pouco mais ou uma sobrancelha pode levantar um pouco. Você está andando em uma linha fina onde você não quer que seja muito caricatural, mas eu acho que eles poderiam ter ido um pouco mais longe com isso.”

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A sequência de O Círculo do Vida em O Rei Leão.

O que esta tecnologia significa para o futuro do cinema?

Williams: “Esse é um nível de habilidade técnica que muda o jogo, na minha opinião. Da mesma forma que eu acho que As aventuras de Pi fez há alguns anos atrás. Elevou o nível para todos. Então agora eles pegaram esse barra e levantaram ainda mais.”

Stephan: “É um sinal de alerta ao mundo do live-action. Alguém, provavelmente como [James] Cameron, fará um filme inteiro de live-action em que tudo será computadorizado. Eles vão começar a criar atores no mundo digital. Em O Expresso Polar, por exemplo, o personagem de Tom Hanks é todo duro. A tecnologia ainda não tinha superado o problema dos olhos mortos. Mas agora... Pense no quão longe nós chegaremos nos próximos 10, 15 anos, tecnologicamente. Olha o que a Marvel está fazendo. Eu já não tenho certeza se você pode chamar mais aqueles filmes de live-action.”

Bossert: “Daqui 10 ou 20 anos poderemos ter uma experiência imersiva e holográfica de O Rei Leão porque, qualquer que seja a nova tecnologia, daqui 10, 20 ou 30 anos eles poderão recriar essa história nesse novo meio e conta-la de um novo ponto de vista. Muitas pessoas estão falando sobre o novo O Rei Leão e todos esses remakes da Disney tipo: ‘Oh, meu Deus, o que eles estão fazendo?’ Quando eu saí da sala de cinema pensei comigo mesmo que o fotorrealismo está se tornando tão bom que é apenas uma questão de tempo até que eles criem personagens humanos realmente convincentes. Eles ainda não estão lá, mas estão se aproximando. Já estamos muito longe dos personagens sem alma de O Expresso Polar.”