MULHERES
25/05/2020 01:00 -03

Minha filha uniu muito nossa família conciliando a campanha da Marielle com minha rede de apoio

A dona do 22º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a professora Anielle Franco, irmã da vereadora do Psol-RJ, que hoje espera Eloah, a irmã de Mariah.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Anielle Franco com a filha Mariah.

Eu tinha vontade de ser mãe, mas ao mesmo tempo tinha medo de não dar conta, de não ser uma mãe perfeita — até que você entende que não existem mães perfeitas e que você também, em alguns momentos, vai errar... Só depois de entender isso consegui relaxar um pouco mais. Eu não via a maternidade como um grande sonho; não era meu objetivo principal de vida.

Eu sempre via muita dificuldade na maternidade, tanto da minha mãe para criar eu e minha irmã, quanto depois da própria Marielle para criar a Luyara, minha sobrinha. Mas acredito que depois que a Mariah, minha primeira filha, nasceu, eu costumo dizer aquela frase que tanto ouvimos: quando nasce uma filha nasce uma mãe. E nasceu ali aquele amor pela maternidade. 

Hoje, esperando pela segunda filha, estou revivendo muito dos meus medos que eu tive e ainda tenho, mas sinto um amor e um superpoder quando olho para a criança já aqui, que faz com que isso passe.

A minha primeira gestação, em 2016, foi bem complicada e bem conturbada. Eu descubro uma traição e passo dos 7 aos 9 meses vivendo um mundo que não era o cor-de-rosa que eu sonhava. Vinha de 7 meses planejando quarto, casa com a minha mãe e a minha irmã e tive que parar e cuidar de mim, para não surtar e não ter problema de saúde para conseguir parir bem. Eu não tive enjoo e problema nenhum, foi mais tranquila nesse ponto, mas no quesito de união, família, foi complicado por conta dessas traições que eu descobri. 

Após a traição que sofri, eu me apeguei muito à minha filha. Acho que só não entrei em uma depressão pós-parto, só não pirei por conta dela. Eu tenho a Mariah naquele momento como a minha força, a minha rocha.

E, por causa dessa situação toda, eu me apeguei muito à minha filha. Acho que só não entrei em uma depressão pós-parto, só não pirei por conta dela. Eu tenho a Mariah naquele momento como a minha força, a minha rocha.

Ela uniu muito a nossa família porque 2016 foi o ano em que Mari se candidatou para entrar para vereança, e todo mundo se desdobrava em mil para dar conta de fazer campanha e me ajudar a ficar com a Mariah ao mesmo tempo.

Acho que ela foi uma peça-chave porque todo mundo teve um problema grave de relacionamento e passava por tristezas, e ela sempre animava todo mundo. Ela chega para mim naquele momento em que me sinto muito sozinha, e ela marcou muito uma união e laços de afeto e amor. 

A Mariah foi planejada, demorou um pouco para acontecer, uns 8 meses, e eu tinha muita expectativa e cobrança comigo mesma de ter um parto normal. Estudava, me preparava e tinha essa neura de conseguir ter o parto normal. Mas agora está sendo muito diferente. Eu tive um descolamento logo no começo da gestação, então minha vida teve que mudar, minha rotina também.

Eu hoje tenho um parceiro totalmente diferente, então todo o planejamento e expectativa gira em torno de dois, não estou sozinha fazendo tudo. Sinto muito a falta da Mari para me ajudar porque ela fez tudo comigo para a Mariah e dessa vez estou muito descolada em relação ao tipo do parto que vou ter. Não estou com a neura e a cobrança que eu estava no primeiro. Vou deixar rolar, esperando sim um parto normal, mas estou tranquila em relação a isso.

Acho que nosso maior desafio em ser mãe é você nunca saber se está fazendo a coisa certa ou errada e dar conta de tudo ao mesmo tempo: vida profissional, ser esposa, mãe, tudo. Acho que estes 2 pontos eu destacaria nessa jornada. Você faz sempre para acertar, mas nem sempre você acerta, e o ter que dar conta de tudo ao mesmo tempo e daquela criaturinha, que depende de você praticamente 100% do tempo, não é fácil.

Eu estou ansiosa para ver o rosto desta, e a chegada de um bebê é sempre algo muito marcante. A gente se sente uma mulher maravilha, a mais forte, empoderada, poderosa do mundo. Eu acho que a chegada da Eloah não vai ser diferente. Muda muito nossa vida a chegada de um filho. Você toma algumas atitudes que você não tomaria e tem algumas que você deixa de tomar porque sabe que vai ser prejudicial.

Quando a Mariah estava na minha barriga, passei pela questão do zika. Tinha muito medo e agora estamos passando por uma pandemia mais sinistra com a covid-19. Meu maior desafio hoje é me manter sã e tranquila em relação a isso. Eu realmente fico muito impressionada e muito ansiosa, quero que tudo acabe, se transforme e minha maior dificuldade é esta: dar conta da minha ansiedade e me manter longe desse vírus. Não tem nada que me preocupa mais do que a gente não saber o dia de amanhã para os nossos — nossos familiares e nossos amores.

Anielle Franco é dona do 22º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Carolina do Norte nos EUA, graduada em letras pela UERJ. Hoje atua como professora, escritora e palestrante. Irmã de Marielle, é a atual diretora do Instituto Marielle Franco.