04/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 04/02/2019 00:00 -02

Angélica Formiga, a conquista da autonomia e independência com a venda de marmitas

A professora de matemática encarou desafio de cozinhar para fora e se reinventar para sustentar os filhos.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Angélica Formiga é a 334ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

É uma rotina daquelas. Sempre correndo de um lado para o outro, fazendo várias coisas, ajudando a família, cumprindo seus horários de trabalho, dando conta de seus compromissos. E é assim há muito tempo, na verdade. Angélica Formiga, 45 anos, se desdobra em muitas. Em quantas forem necessárias, sem problema algum. Nos últimos anos, quando foi demitida da escola em que dava aula, vendeu shake para emagrecer, sanduíches naturais, marmitas saudáveis – que viraram o sustento da família por um tempo – foi professora particular, vendeu produtos de sex shop. Conforme vai falando, Angélica acaba lembrando de mais alguma coisa que já vendeu. “Ah, vendi pão de queijo aqui no condomínio também!”. Sempre foi assim, “Tudo que eu gostava para mim eu queria vender [risos]”. E foi se virando, com o seu grande lema: “Nunca me abalei por falta de dinheiro. Às vezes apertava, meus pais me davam um socorro, eu corria de novo, levantava de novo, nunca fiquei com nome sujo, pagava tudo certinho e sempre que faltava dinheiro completava fazendo outras coisas”. E foram muitas coisas.  

Hoje ela “sossegou” um pouco e se divide mais entre a produção de marmita e seu mais novo trabalho com transporte escolar – e dá umas aulas particulares de vez em quando, claro. Sempre na correria. Levanta 5h para pegar as crianças, depois precisa buscar e ainda faz, uma vez por semana, as marmitas para enviar para os clientes. Mas essa parte já está bem acostumada. Durante um bom tempo, esse foi seu principal sustento. Nascida e criada em Guarulhos, seu filho mais velho levava diversas refeições para vender em seu trabalho, em São Paulo. “Eu fazia de madrugada para montar 6h para ele levar fresquinha. Era bem corrido”. Conta que o negócio começou meio por acaso. “Meu filho é muito natureba e me pedia para fazer umas coisas diferentes e fui criando, misturando e fazendo. E ele resolveu levar no serviço e todo mundo começou a pedir. Aí ele montou um grupo da Dona Formiga e foi entrando gente e fazendo pedido e comecei a vender as marmitas e ganhar até mais do que quando eu dava aula”.

Nunca me abalei por falta de dinheiro. Eu corria de novo, levantava de novo.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Formada em matemática, Angélica foi professora por mais de 20 anos mas hoje se dedica à venda de marmitas e transporte escolar.

Formada em matemática, Angélica foi professora por mais de 20 anos. Já tinha a prática de vender algumas coisas para ganhar um dinheiro extra – isso começou quando era criança e queria comprar romances na banca de jornal e os pais não davam dinheiro para isso. Já adulta e com uma profissão, Angélica passou por uma grande mudança na vida quando se separou do marido e perdeu o emprego, tudo meio ao mesmo tempo, e se viu sozinha com os dois filhos. “O baque mesmo foi aos 40 anos quando me separei porque tive que me virar. A renda mudou muito e ainda fiquei desempregada. Encarei um mundo que eu não conhecia”.  

Encarou do jeito que sabe. De cabeça erguida – e vendendo uma coisa ou outra. Buscou e conquistou sua autonomia. Foi nessa época que se aventurou a vender produtos de sex shop e, após perder peso com a ajuda de um shake, resolveu montar um espaço em um salão de beleza para oferecer o produto ali. Sem muito sucesso de venda, começou a receber pedido de lanches naturais. Aceitou o desafio de fazer os sanduíches e algumas comidas mais leves, integrais. Aí foi sucesso de público. “Resolvi fechar o espaço e ficar só com as comidas e divulguei no condomínio e vendia para as clientes do salão e fui criando”.

Comecei a vender as marmitas e ganhar até mais do que quando eu dava aula.
Divulgação/Dona Formiga
Arroz integral, purê de batata doce e carne moída (com a saladinha ao lado): uma das especialidades da Dona Formiga.

Logo ganhou também os clientes do trabalho do filho e a coisa ficou mais séria. Passou a se dedicar integralmente as marmitas da Dona Formiga. E deu certo. Logo já tinha até os pratos mais pedidos. “Gostam muito do quibe de soja de forno, o frango ao curry também, o antepasto de berinjela também gostam bastante”, conta. Na verdade, gostam de muita coisa. Tanto que hoje, mesmo sem a entrega diária das comidas após o filho se mudar para São Paulo, os pedidos continuam. “Toda semana eles pedem ainda e eu mando algumas, mas não é mais só para o dia, eu faço, monto e eles escolhem na hora. Antes eu mandava até saladinha porque era diário. Agora faço legumes. Nessa semana eu fiz quiabo e saiu tudo! Não é mais a renda principal, mas paga [o financiamento] da faculdade do meu filho”.

Eu gostei muito de cada coisa que eu fiz naquele momento.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O resto das contas, ela arca como a Tia Formiga, com a van escolar.

O resto das contas, ela arca como a Tia Formiga, com a van escolar. Junto com o novo marido, os dois investiram nesse novo negócio e também tem dado certo. Ela encerrou o ano de 2018 com o dobro de crianças que tinha e está feliz da vida com o andamento das coisas. “Voltei a lidar com crianças. Acho que gosto disso, esse contato com as outras pessoas eu tenho facilidade e não sou de baixar o preço. Mas eu converso e a pessoa acaba ficando pelo contato, tenho amizade com vários pais de sentar e tomar café e gosto dessa parte. Me dou bem no transporte escolar também”.

Isso, aliás, é algo difícil para Angélica. Entre todas as atividades que já teve, escolher uma preferida parece tarefa impossível. “Se eu pudesse escolher hoje o que fazer dentre tudo isso, eu não saberia. Porque uma coisa completa a outra, me dá prazer. Eu gostei muito de cada coisa que eu fiz naquele momento. Dava aula, me dedicava muito. Aí tinha as vendas e me dedicava demais também. Com as marmitas também. Me dedico muito sempre a cada coisa”.

Talvez esse seja o grande segredo. Dedicação no momento, mesmo que amanhã as coisas mudem. Tudo bem, faz parte. Ela aprendeu que o importante é correr atrás. Seja como Dona Formiga, como Tia Formiga ou como Angélica vendedora. Pode ter certeza de que o tempero e a essência vão ser os mesmos. E, claro, sempre estará de olho aberto para as oportunidades. “Ah, eu vendo caldo aqui no condomínio também”, arremata.  

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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