LGBT
10/09/2019 15:27 -03 | Atualizado 10/09/2019 16:22 -03

Valores que elegeram Crivella justificam censura a beijo gay, diz Secretária da Família

“Esses foram os valores que elegeram nosso presidente, então democraticamente o Crivella tem razão porque são os valores que elegeram a ele”, disse Angela Gandra.

Cleia Viana/Câmara dos Deputados
"Não dá para banalizar, falar 'dá um beijo no outro e está tudo certo' porque depois do beijo existe um conflito", disse Angela Gandra ao HuffPost Brasil.

Secretária da Família no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Angela Gandradefendeu a decisão do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) de proibir a livre circulação da história em quadrinho Vingadores: A Cruzada das Crianças. O livro, publicado no Brasil em 2016, contém a imagem de um beijo gay entre dois personagens.

No entendimento da advogada, o ato de Crivella é legítimo porque atende a seu eleitorado e à ascensão do conservadorismo no Brasil, que levou também à eleição do presidente Jair Bolsonaro. “Esse governo tem tomado uma posição e isso é democracia também. Esses foram os valores que elegeram nosso presidente, então democraticamente o Crivella tem razão porque são os valores que elegeram a ele”, afirmou ao HuffPost Brasil. 

A secretaria disse que recebeu reclamações de pais sobre a obra. “Acho que há razão [na decisão do prefeito]. Recebi na Secretaria muitas reclamações sobre isso [o livro]. Fui bombardeada. Muitos pais pediram para a gente tomar uma atitude. Para a gente ver que é uma preocupação que existe”, disse.

Em 5 de setembro, Marcelo Crivella determinou que a história em quadrinhos fosse recolhida da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito, que é pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, disse que “conteúdo como este precisa estar embalado e lacrado com plástico preto e, do lado de fora, avisando o conteúdo” e que a prefeitura estaria “protegendo os menores da nossa cidade.”

A Prefeitura do Rio citou o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para justificar sua decisão, contudo nenhum dos artigos do estatuto sobre publicações infantojuvenis menciona questões sobre sexualidade, manifestações de afeto entre personagens homossexuais ou apreensão de livros de qualquer temática.

A história da HQ envolve dezenas de heróis da Marvel. Wiccano e Hulkling, dois personagens da Jovens Vingadores, são namorados. Em apenas uma das páginas do quadrinho eles aparecem se beijando. Em outra, estão abraçados durante um diálogo. Publicada originalmente nos EUA entre 2010 e 2012, a HQ chegou ao Brasil só em 2016 pela Salvat e não é direcionada ao público infantil.

No fim de semana, fiscais percorreram a Bienal, mas não encontraram exemplares da HQ. Após duas decisões judiciais antagônicas, o caso chegou até o Supremo Tribunal Federal (STF) e o presidente da corte, ministro Dias Toffoli, atendeu ao pedido da procuradora Raquel Dodge de proibir a ação de apreensão de livros. O ministro entendeu que “o regime democrático pressupõe um ambiente de livre trânsito de ideias, no qual todos tenham direito a voz”.

Reprodução
Na história Vingadores: A Cruzada das Crianças os personagens Wiccano e Hulkling são namorados. Em apenas uma das páginas do quadrinho eles aparecem se beijando.

Sem debate sobre homosexualidade

Filha do jurista Ives Gandra, membro da Opus Dei, Angela Gandra defendeu que questões ligadas à orientação sexual e identidade de gênero não façam parte do debate público. “Isso traz um conflito e as pessoas que têm esse conflito sofrem muito. Não dá para banalizar, nem falar ‘faça isso mesmo’. Não dá para banalizar, falar ‘dá um beijo no outro e está tudo certo’ porque depois do beijo existe um conflito. E a gente vai mostrar que aquilo está tudo bem?”, questionou. 

Em seguida, a jurista citou as cinebiografias dos cantores Elton John e Freddie Mercury. “A pessoa que tem uma manifestação diferente sexual vive um conflito interior e eu não quero que isso seja banalizado”, disse à reportagem.

De acordo com a secretária, a presença de relações homoafetivas em livros pode levar leitores a questionarem sua sexualidade, o que provocaria sofrimento. Segundo ela, “muitas vezes a gente pode trazer para pessoas que não têm maturidade própria ainda dúvidas que podem fazer elas serem infelizes para sempre”, afirmou. “A gente pode estar socialmente fomentando um sofrimento que não precisaria”, completou.

Ideologia de gênero 

Para a secretária da Família, temas ligados à identidade de gênero e à orientação sexual não devem ser abordados no ambiente escolar. “Quando a gente trabalha esses temas na escola, a gente pode estar tirando a liberdade e a autonomia dos pais de gerir esses problemas. O que a gente quer na escola é conteúdo, formar as pessoas para que sejam os melhores profissionais. Se a gente vai distraindo para questões sexuais, é complicado para o ser humano porque é muito a identidade dele. Ele pode perder o foco de se formar e ser um grande profissional e é esse o papel da escola”, afirmou.

Gandra negou, contudo, que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos esteja participando da elaboração de uma proposta para proibir a abordagem de questões de gênero no Ensino Fundamental. “O tema da família é transversal, mas existe muito autonomia de cada ministério. Não foi um pedido feito para nós. A gente está sempre muito junto com o presidente, evidentemente, em cada desejo, para o bem da nossa nação”, disse.

Em 3 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro disse ter pedido ao Ministério da Educação (MEC) para elaborar um projeto de lei contra o que chama de “ideologia de gênero”. O termo cunhado por religiosos não é reconhecido no universo acadêmico e normalmente é usada por grupos conservadores que se opõem às discussões sobre diversidade sexual e de identidade de gênero.

Já a teoria de gênero, reconhecida por estudos acadêmicos, aponta que gênero e orientação sexual são construções sociais e, por isso, não podem ser determinadas por fatores biológicos.

Na visão do presidente, falar sobre questões de gênero ― que incluem desde violência contra a mulher até direitos da população LGBT ― nas escolas seria um fator desviante na concepção de ideia tradicional e cristã de família e também uma forma de incentivo à homossexualidade.