13/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 13/02/2019 00:00 -02

Andrea Valle, uma mulher de peito aberto para encarar o câncer de mama

“Cada vez mais a gente tem que se mobilizar para que aconteça a prevenção."

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Andrea Valle é a 343ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Dois dias antes de completar 50 anos, a jornalista e pedagoga Andrea Valle, recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Dois meses depois, seria o aniversário de 15 anos de sua filha, e logo perguntou ao médico qual era sua expectativa de vida. Depois, se ficaria careca. Ela lembra que “por quê?” foi uma pergunta que não saiu de sua cabeça. Mas foi a resposta de “para quê?” que chegou menos de dois anos depois. Com a intenção de ajudar outras mulheres, Andrea fundou o grupo Peito Aberto, que tem como foco fazer com que elas enxerguem a si mesmas não só como pacientes, mas como mulheres. 

Ainda existe o tabu de falar sobre o câncer, de não querer ver.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Menos de dois anos depois do diagnóstico, Andrea criou a "Peito Aberto". 

À reportagem do HuffPost Brasil, Andrea abre o jogo e conta que o momento do diagnóstico é de luto para todas as mulheres que descobrem a doença. Com o Peito Aberto, ela entende que a missão é conseguir fazê-las enxergar que há possibilidades até o final, mas reconhece que as dificuldades que cercam uma paciente às vezes impedem elas de serem “resgatadas do luto”.

O primeiro objetivo dela era produzir um ensaio fotográfico. E, sem nenhum apoio financeiro, em outubro de 2017 o primeiro projeto saiu do papel. A partir daí, Andrea viu sua ideia tomar proporções inimagináveis e sentiu que não conseguiria restringir a atuação do peito aberto somente aos ensaios.

“A maioria das mulheres é abandonada pelos parceiros, então o dia da foto é um dia de glamour”, conta. “Quando propusemos o ensaio, uma pessoa nos disse que era muito agressivo ver mulheres ‘mutiladas’, que isso era para ser visto somente entre quatro paredes. Mas não. Essas mulheres são donas de seus corpos, também.”

Essas mulheres são donas de seus corpos.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
A cada “aniversário” de diagnóstico, Andrea faz uma tatuagem: “ser o equilíbrio”, “gratidão” e “fé” já marcam a sua pele.

E ela sabe bem como é isso. No mesmo dia em que foi diagnosticada, pediu o divórcio para seu marido. Depois de ver seu pai ter câncer em quatro ocasiões, ela tinha na cabeça a ideia de que seria um fardo muito grande para seu companheiro acompanhá-la durante a doença. “Mas o apoio que ele me deu e me dá, desde então, é fundamental”, conta ela, que completa 11 anos de casada neste ano.

“As pessoas não gostam de falar sobre câncer, então o que acontece é que elas não querem multiplicar o assunto. Ainda existe o tabu de falar, de não querer ver. Eu, por exemplo, perdi muitas pessoas que eu conhecia quando fui diagnosticada, porque não sabem o que falar e preferem se afastar”, relembra.

O negócio não é só foto, temos que brigar por políticas públicas e fazemos isso.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Para Andrea, o momento do diagnóstico é de luto para todas as mulheres que descobrem a doença.

Depois de retirar a mama direita e esvaziar a axila, Andrea iniciou o tratamento com medicamentos. Há três anos ela começou a tomar um remédio que tem prescrição por uma década, mas já sente os efeitos: “Todas as minhas vértebras estão comprometidas, minha lombar está quase. Eu sinto muitas dores, e tem dias que tomo um remédio derivado da morfina de oito em oito horas para aguentar a dor”, explica.

Com tantos planos de mobilização, a fundadora do grupo revela que, por orientação de sua psiquiatra, não estaria nessa linha de frente. Quando uma parceira de grupo, ou paciente conhecida de câncer de mama, morre, ela fica muito mal, mas nem isso é impedimento: “Não dá mais para parar, é o que me mantém viva”.

Eu não sou alegre e feliz o tempo inteiro, porque não é legal passar por isso.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
“Não dá mais para parar, é o que me mantém viva."

A trajetória difícil não é escondida da pauta dos encontros mensais do projeto, que também contam com a ajuda de psicólogas. “Eu sei que é importante mostrar para as outras mulheres que é tudo com dificuldade, nada é fácil. Eu não sou alegre e feliz o tempo inteiro, porque não é legal passar por isso.”

Com essa mentalidade, ela quer usar a voz do Peito Aberto para fiscalizar as políticas públicas: “Cada vez mais a gente tem que se mobilizar para que aconteça a prevenção, para lutar pelas políticas que são necessárias e pelos direitos.”

A cada “aniversário” de diagnóstico, Andrea faz uma tatuagem: “ser o equilíbrio”, “gratidão” e “fé” já marcam a sua pele, tal como a cicatriz que ela não tem vergonha de expor. A cicatriz que carrega parte fundamental de sua história, que ela se orgulha em contar: “Quero mostrar que juntos podemos conseguir mais, que o câncer não pode ser um final, não acaba em mim. O câncer tem um desdobramento, e no meu caso foi o Peito Aberto.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC