LGBT
16/09/2019 19:21 -03 | Atualizado 19/09/2019 07:57 -03

Ancine corta apoio a filmes selecionados para 11 festivais internacionais

“Censurar Negrum3 é censurar esse cinema feito por preto, por bixa, que recria e reconta a história", diz a produção do filme.

Divulgação
“Há ainda alguns festivais com apoio, mas por alguma razão ( LGBTofobia?) o Queer Lisboa não entrou nessa lista”, afirma a produção de Negrum3.

Mais filmes entraram na mira da Ancine (Angência Nacional do Cinema). Desta vez, pelo menos três produções tiveram apoio financeiro cortado para participar de festivais internacionais. Entre as temáticas atingidas estão racial e LGBT, em 11 mostras diferentes.

Os filmes Greta e Negrum3 tiveram liberados e depois suspensos R$ 4,6 mil “destinado à participação do representante do filme no Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer (Portugal), no qual o mesmo foi selecionado”.

O apoio foi confirmado em 26 de agosto, com publicação no Diário Oficial da União. E, depois, no dia 12, a Ancine informou aos produtores que o incentivo havia sido suspenso.

Em nota, a agência afirma que “todos os apoios previstos no Programa de Apoio a Festivais Internacionais estão sendo reavaliados, em razão do contingenciamento orçamentário determinado pelo Governo Federal”.

Argumenta ainda que “a divulgação de projetos contemplados no Programa não representa garantia de que eles receberão os recursos”.

E pontua que “o critério foi exclusivamente temporal: foram mantidos os apoios a projetos em festivais já realizados ou em curso”.

Para produtores do filme Negrum3, no entanto, há censura. “Há ainda alguns festivais com apoio, mas por alguma razão ( LGBTofobia?) o Queer Lisboa não entrou nessa lista”, diz.

Negrum3 é um filme sobre celebrar as existências múltiplas de bixas pretas, insubmissas e revolucionárias. É um filme que aponta para o futuro, mesmo que a realidade cruel tente nos matar todos os dias. Cinema é discurso e imaginário. Imaginários alteram o plano do concreto, do real. Censurar Negrum3 é censurar esse cinema feito por preto, por bixa, que recria e reconta a história. Deixo pública minha indignação e REPULSA ao (des)governo que assola o país”, diz Diego Paulino, diretor do filme, em nota no Facebook.

Nem todas as produtoras afetadas endossam essa justificativa. Ao G1, Denis Feijão, produtor e sócio-criador da Elixir Entretenimento, produtora do Volta Seca, lamentou o corte, mas disse não acreditar que a medida da Ancine seja para atingir apenas filmes com temática LGBT. “Prefiro não acreditar nisso.”

Volta Seca foi selecionado para participar do do Encounters Film Festival, na Inglaterra, e também teve apoio suspenso. O curta é sobre uma personagem trans que mora em São Paulo, mas quer retornar à sua cidade natal, Petrolina. 

Esta não é a primeira vez este ano que a Ancine corta apoio ou está envolvida em controvérsias que envolvem produções com temática LGBT, política e racial. Na semana passada, a estreia do filme Marighella, dirigido por Wagner Moura, crítico declarado do presidente Jair Bolsonaro, foi adiada após impasse entre a produtora e a Ancine.

No fim de agosto, depois de o presidente ter citado nominalmente filmes com temática LGBT que, segundo ele, não deveriam receber financiamento da Ancine, a agência vetou um edital que contemplava produções audiovisuais para TVs públicas com as categorias “diversidade de gênero” e “sexualidade”. 

Após a suspensão do edital, Henrique Pires deixou o cargo de secretário especial de Cultura do Ministério da Cidadania — pasta responsável pela agência.