23/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 23/01/2019 00:00 -02

Ana Vitória, a 'dreadmaker' que trabalha para enaltecer a beleza do cabelo crespo

"Desde muito cedo aprendemos a odiar nossos cabelos."

Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Vitória é a 322ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Ana Vitória nasceu e cresceu no bairro de Pernambués, em Salvador (BA). E sua vida é marcada pela relação que criou com seus cabelos. Ela não esquece que, aos 10 anos, ganhou de “presente” um alisamento. E que esse era seu sonho. “Desde cedo, a gente aprende a odiar nossos cabelos crespos. Eu achava que não seria bonita com o meu próprio cabelo. O mundo me convencia de que, para ser bonita, eu tinha que alisar.”

Como a maioria das pretas, sempre alisei o cabelo.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
A mulher que Ana se tornou precisou buscar as próprias referências longe de padrões de beleza.

Com o passar dos anos, a mulher que Ana se tornou precisou buscar as próprias referências, que lhe tinham sido tiradas por um padrão de beleza que nunca contemplou as mulheres negras. Ela decidiu, então, deixar de alisar o cabelo e passar a usar dreadlocks. “O impacto na nossa vida social foi imenso”, lembra.

Junto com seu companheiro, que também optou pelos dreads, ela sofreu diversos tipos de preconceito. “As pessoas passam a te tratar real de forma diferente”. Na época, ela foi demitida da empresa onde trabalhava, que alegou “corte de funcionários”, mas em pouco tempo contratou outra funcionária para ocupar seu lugar. “Eu sei que foi por conta do cabelo. Eu era a única negra que usava cabelo natural lá”, afirma.

Quando você usa seu cabelo natural, o racismo se torna muito mais evidente.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
“Diferente do que acontecia comigo na infância, minhas filhas têm o direito de amar seus cachos."

Mas isso não foi capaz de tirar Ana Vitória do caminho que traça em direção à sua descolonização estética. Em vez de dizer adeus aos dreads, encontrou neles uma forma de trabalhar dignamente e usando o cabelo que quisesse -um cabelo que, aliás, carrega os traços de sua história e de sua ancestralidade.

Ela e seu companheiro criaram o Mukunã, um laboratório capilar especializado em dreadlocks que funciona no bairro da Saúde, em Salvador. Desde então, seu trabalho abraça pessoas que desejam retomar suas raízes étnicas e estéticas ou quem quer que decida adotar os dreadlocks no visual.

Além disso, ela mantém o site do laboratório, dedicado a reservas e também a trazer informações sobre como cuidar dos dreads, desfazendo mitos comuns em torno do assunto. “Tem gente que ainda pergunta, por exemplo, como lavamos os dreads. Lavamos, ora. Com água e shampoo. É uma lavagem muito mais demorada, mas uma lavagem como qualquer outra”, brinca.

Minhas filhas estão rodeadas de pessoas com cabelos de várias formas. Rodeadas de diversidade.
Juh Almeida/Especial para o HuffPost Brasil
Para Ana Vitória, seu trabalho tem a ver com resgate de ancestralidade e promoção da diversidade.

Além disso, o Mukunã desenvolve um produto que vem conquistando muitos dredados na Bahia e no Brasil: o shampoo Mukunã, sólido, vegano e específico para dreadlocks, desenvolvido artesanalmente pela equipe do laboratório capilar. 

Para Ana Vitória, seu trabalho tem a ver com resgate de ancestralidade e promoção da diversidade. Mãe de duas filhas, ela procura frequentemente lembrá-las do valor cultural dos dreadlocks e do simbolismo dos cabelos crespos não só na construção da própria identidade.

Como mulher que aprendeu a amar seu cabelo crespo, Ana se esforça para proporcionar para suas filhas um outro nível de experiência de auto-imagem ― muito diferente daquela que teve aos 10 anos. “Diferente do que acontecia comigo na infância, minhas filhas têm o direito de amar seus cachos.”

E certamente este é um presente para elas.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Nathali Macedo

Imagem: Juh Almeida

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.