MULHERES
10/05/2020 03:00 -03 | Atualizado 10/05/2020 03:00 -03

Ana Thais Matos: 'O Pan de 2007 colocou a seleção feminina de vez no coração dos brasileiros'

Há 13 anos, final eletrizante dos Jogos Pan-Americanos do Rio entre Brasil e Estados Unidos marcou a história de Marta, Cristiane e Formiga. Partida será reprisada pela Rede Globo neste domingo (10), às 16h.

O futebol feminino constrói o presente e o futuro com as próprias mãos: a data é 26 de julho de 2007. Um jogo que ficou na memória de Marta, Cristiane, Formiga e das mais de 70 mil pessoas no Maracanã que assistiram, corpo a corpo, a goleada do Brasil nos Estados Unidos. Um placar de 5 a 0, sem chance para o adversário. Isso aconteceu há 13 anos, nos Jogos Pan-Americanos do Rio. Há quem diga que foi ali que o brasileiro enxergou a potência existente no futebol construído, valorizado e jogado por mulheres

“Foi o principal recado de que a modalidade interessava muito ao público, com quase 70 mil pessoas na decisão, em uma quinta-feira à tarde, no Maracanã”, lembra a jornalista e comentarista esportiva Ana Thais Matos, em entrevista ao HuffPost Brasil. Na época, ela ainda não tinha entrado na faculdade, sonhava em ser jogadora de futebol - mas não chegou nem perto de imaginar que, alguns bons anos depois, seria uma das comentaristas da mesma partida, em rede nacional.

Isso porque devido à pandemia do novo coronavírus, todos os campeonatos esportivos em curso foram adiados. No lugar, a TV aberta tem optado por exibir reprises de jogos significativos - e, este, realizado no Pan Rio-2017, será um deles. Neste domingo (10), às 16h, a partida será reexibida pela Rede Globo e contará com Ana Thais Matos e Luís Roberto na apresentação e comentários.

“Vai ser emocionante poder reapresentar essa seleção para quem se aproximou do futebol feminino graças à Copa do Mundo do ano passado”, diz Matos. No ano passado, ela ganhou o título de primeira mulher em 54 anos escalada pela Globo para integrar o time de comentaristas do Campeonato Brasileiro. 

Divulgação/Rede Globo
Em 54 anos, TV Globo nunca tinha escalado uma mulher para integrar o time de comentaristas do Brasileirão: Ana Thais Matos foi a primeira delas.

Naquele jogo, em 2007, o Brasil encarou os Estados Unidos na final do torneio feminino da competição e levou a melhor, de goleada e com um show da camisa 10, Marta. O resultado? Brasil 5 x 0 Estados Unidos. Na época, Marta tinha sido eleita a melhor jogadora do mundo pela segunda vez consecutiva. Ela foi a artilheira do Pan com 12 gols e também a melhor atleta da competição. 

“Foi uma emoção muito grande poder voltar ao Brasil depois de muito tempo fora da seleção. Poder jogar esse Pan e mostrar o futebol feminino para o povo. Nada mais justo essa medalha de ouro”, disse Marta à época, segundo o UOL. Os EUA ficaram com a prata, e o Canadá foi o país que levou o bronze.

No total, o Brasil contabilizou seis vitórias, 33 gols marcados e nenhum sofrido. A seleção brasileira era comandada pelo treinador Jorge Barcellos e fez uma campanha considerada impecável até a conquista da medalha de ouro em cima dos EUA - hoje considerado o melhor time do mundo pelo ranking da FIFA.

Harry How via Getty Images
Seleção brasileira comemora a vitória de 5 a 0 contra os Estados Unidos nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Partida foi realizada no Maracanã.

“Só as pessoas sabendo que o futebol feminino foi proibido por mais de 40 anos e que não tem os mesmos investimentos do masculino é que entendem as limitações”, diz Matos. Limitações estas que justificam o choro e a emoção em todas as vitórias tanto no Pan de 2007, quanto na Copa de em 2019. 

E de fato. Ana Thais não segurou as lágrimas ao vivo quando o Brasil foi eliminado pela França nas oitavas de final na Copa da França no ano passado. “Minha caminhada foi parelha com a caminhada delas. Eu me permiti sair do corpo da jornalista e ser apenas uma daquelas mulheres. Foi tudo muito especial. Fiquei com receio de tomar bronca pelo choro, ainda bem que não teve”, lembra.

É claro que ainda existem muitos desafios, mas de modo geral é possível dizer – ou ao menos acreditar – que após 2019 o futebol feminino não será mais o mesmo. A Copa feminina realizada na França foi transmitida em rede nacional pela primeira vez no Brasil e trouxe ótimos números para a modalidade.

“É um trabalho de formiguinha, como o feito pela Aline Pellegrino na Federação Paulista de Futebol, onde é única no que faz. Será preciso que surjam mais Alines para fazer a roda girar. Enquanto isso, vamos cobrando investimentos, melhorias e ocupando espaços na mídia. É um longo caminho.”

Em conversa com o HuffPost, Ana Thais Matos falou sobre a expectativa de rever e comentar a partida de 2007, como é ser mulher em uma área majoritariamente masculina - e o que a Copa de 2019 representou para o futebol feminino. “A próxima Copa do Mundo será ainda melhor. Espero que essa pandemia não custe aos clubes o investimento na modalidade”, diz. 

Leia a entrevista completa.

HuffPost Brasil: Neste domingo, o jogo da seleção feminina entre Brasil e Estados Unidos, realizado nos Jogos Pan-Americanos de 2007, será reprisado na TV Globo. Porque ele é tão significativo para o futebol feminino? E qual a sua expectativa para rever e comentar a partida?

Ana Thais Matos: Dois pontos colocam o Pan de 2007 como um marco na história da seleção feminina. Foi o principal recado de que a modalidade interessava muito ao público, com quase 70 mil pessoas na decisão, em uma quinta-feira à tarde, no Maracanã. E também pela questão do futebol feminino como produto de mídia, pois tínhamos Marta como a atual melhor do mundo, e a Cristiane, que em 2007 subiria no pódio como a terceira melhor ao lado de Marta e da alemã Birgit Prinz.

O Pan de 2007 colocou a seleção feminina de vez no coração dos brasileiros. Acompanhar esse jogo domingo vai ser especial. Em 2007 eu ainda não tinha entrado na faculdade de Jornalismo, tinha desistido de jogar há cinco anos e tinha conhecidas nessa seleção. Vai ser emocionante acompanhar a narração do Galvão Bueno e poder reapresentar essa seleção para quem se aproximou do futebol feminino graças à Copa do Mundo do ano passado.

O Pan de 2007 colocou a seleção feminina de vez no coração dos brasileiros.
Joel Auerbach via Getty Images
Marta Silva passa a bola para Nikki Marshall, em partida realizada há 13 anos, nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro.

Você fez história ao se tornar a primeira mulher a comentar um jogo de futebol masculino na TV Globo. E também comentou jogos da Copa feminina. Há alguma diferença entre estas experiências? Na sua opinião, o que falta para ter mais mulheres narrando e comentando na TV aberta?

Não gosto de falar em diferença nas experiências, mas o que eu aprendi com a Copa do Mundo feminina foi falar para vários públicos. Às vezes, achamos que falamos algo que todo mundo já sabe só por ser futebol, mas não. A função do comentarista é facilitar para que a pessoa, em casa, entenda porque o time dela está jogando bem ou não. Algo específico do futebol feminino, além de mostrar o caminho tático e técnico, é que gosto de falar do histórico da modalidade. Só as pessoas sabendo que o futebol feminino foi proibido por mais de 40 anos e que não tem os mesmos investimentos do masculino é que entendem as limitações. Algumas meninas não tiveram trabalho de base, treino de musculação, o que interfere na velocidade do jogo, por exemplo.

Só que eu também falo para o público que acompanha e sabe muito da modalidade. Para eles, é óbvio falar da Debinha, da Luana, da Formiga... Então eu tento colocar nos meus comentários recursos para todos os públicos, sempre com uma linguagem mais prática e menos professoral, tanto no masculino quanto no feminino. Temos uma onda enorme de narradoras surgindo e algumas já estão apenas esperando uma oportunidade. Tem a Natália Lara, que narrou em TV aberta recentemente (TV Cultura), entre outros nomes na TV fechada. Tenho certeza que não vai demorar para termos mais narradoras ocupando espaços significativos em mais emissoras. Tudo vai depender de não esperarmos alguém dentro das expectativas particulares de cada empresa, mas dar liberdade para criar e surgir algo novo, sem vícios.

Durante sua carreira você precisou “bater de frente” com o machismo - que é muito presente -  no jornalismo esportivo justamente por ser uma área majoritariamente masculina?

O jornalismo esportivo não é diferente de outros segmentos do mercado profissional no mundo. O machismo é um mal presente em toda sociedade. No esporte, ele fica bem evidente porque são muitos homens falando, atuando, jogando. Se você entrar na Câmara dos Deputados, também vai confrontar esses dados e por aí vai.

O que me faz bater de frente é não aceitar a manutenção do status quo. Não me importo se eles são maioria, eu respeito e confronto as ideias e gosto que façam o mesmo comigo. Desde que com respeito e sem desautorizar ou ridicularizar as minhas falas para construir um argumento. Isso é algo que eu combato diariamente.

Só as pessoas sabendo que o futebol feminino foi proibido por mais de 40 anos e que não tem os mesmos investimentos do masculino é que entendem as limitações.
VANDERLEI ALMEIDA via Getty Images
Rosana (esq.) comemora seu primeiro gol com Marta (à dir.) durante semifinal feminina dos Jogos Pan-Americanos Rio-2007 contra o México, no Maracanã.

Você já foi repórter de campo e agora está em outra área. Houve alguma mulher nessas duas funções que te inspirou? E o que essa mudança exigiu de você?

Temos e tivemos grandes repórteres no Brasil. Já comentaristas, as minhas referências são poucas no esporte. Em política tem muitas e eu me espelho muito no estilo da Renata Lo Prete. Uma grande companheira, minha referência de repórter, é Natalie Gedra, hoje na ESPN Brasil. Eu comecei como estagiária de jornal e ela já era repórter de rádio. Conversávamos muito, ela tem uma postura firme e é muito informada. Fora do Brasil, a Dóris Burke, que faz NBA para a ESPN americana, é a minha grande referência. Repórter e comentarista, sutil, informada, empática e respeitada pelos atletas. Ela também deu um pontapé na idade, algo muito difícil para as mulheres no vídeo.

Esse é o caminho que eu quero seguir. Mudar da reportagem do rádio para os comentários na TV foi um impacto forte. Primeiro tive que absorver críticas (construtivas ou não) e me importar menos com redes sociais. Hoje me importo zero. Depois teve uma mudança de cidade, de status, de vida social e pública. Eu ainda me considero a mesma repórter que apurava notícias o dia todo e levava para as transmissões. Sigo com o mesmo modus operandi de repórter, mas agora como comentarista. Perdi um pouco a relação com as minhas fontes, porque lidar com as críticas nos afasta um pouco das pessoas. Mesmo assim ainda entro em contato com empresário, jogador, técnico, assessor. Nunca vou deixar de ser repórter.

A Copa da França em 2019 - pensando não só no desempenho da seleção, mas também na visibilidade que ganhou - mudou o olhar que o mundo e, em especial, o Brasil tem sobre o futebol feminino?

Completamente. Parafraseando a atual melhor do mundo, Megan Rapinoe, “o mundo chegou atrasado para o futebol feminino”, mas chegou. E nunca mais se falará do futebol feminino como antes. Ou melhor, agora se falará muito mais. Quem milita pela modalidade não vai se calar mais. Nem atletas, nem jornalistas. O futebol feminino conta sozinho a sua história e escreve com as próprias mãos o presente e o futuro. Tecnicamente, a modalidade está em pleno desenvolvimento. A próxima Copa do Mundo será ainda melhor. Espero que essa pandemia não custe aos clubes o investimento na modalidade.

Eu estava cobrindo a Copa da redação e assisti ao seu discurso emocionado ao final do jogo contra a França, que eliminou a seleção brasileira. O que mais te impactou ali, naquele momento?

Foram tantas coisas. Eu me vi e me vejo naquelas atletas. Eu sonhei muito em ser uma jogadora, mas não tive incentivo, não era super talentosa. Eu era esforçada, porém tive que desistir para começar a trabalhar. O que aconteceu comigo, aconteceu também com muitas meninas, inclusive com jogadoras profissionais, mas elas foram resistentes e fizeram a modalidade - mesmo com tanta dificuldade - perseverar. O Brasil não tinha como ir além das oitavas de final, não pelas atletas, mas pela preparação ruim que foi feita, pelo pensamento retrógrado de quem comandava até então. E, mesmo assim, elas fizeram um grande jogo contra a França.

Acompanhei tudo aquilo desde outubro de 2018, quando minha chefe disse que gostaria que eu comentasse a Copa do Mundo na Globo. Eu me preparei muito junto com elas. Aprendi com elas, fui entrevistar Bárbara, Érika, Andressinha e a Cris. Fiz alguns jogos antes do Mundial, fui ouvir ex-jogadoras, colegas jornalistas, fui aprender mesmo quem eram essas mulheres. E quando acabou a Copa, esse meu primeiro grande desafio dentro do Esporte da Globo, com o Brasil jogando tão bem, acabou me emocionando demais. Minha caminhada foi parelha com a caminhada delas. Eu me permiti sair do corpo da jornalista e ser apenas uma daquelas mulheres. Foi tudo muito especial. Fiquei com receio de tomar bronca pelo choro, ainda bem que não teve.

O futebol feminino conta sozinho a sua história e escreve com as próprias mãos o presente e o futuro.
Maddie Meyer - FIFA via Getty Images
Marta durante a final da Copa feminina de 2019 - em que o Brasil foi eliminado pela França.

Nesta semana, as jogadoras norte-americana perderam o processo que exigia salários equivalentes ao do time masculino. Como você avalia o impacto dessa decisão? O que é preciso fazer para que a categoria e as atletas conquistem mais investimentos e valorização?

A decisão é muito específica, baseada em números e dados de uma realidade onde o futebol feminino é mais vencedor e tem mais sucesso que o masculino. O ponto fundamental é a ambição das jogadoras em lutar pelo respeito ao trabalho, que se dá de várias formas. No caso delas, em relação aos salários. Afinal, esportivamente elas são as melhores e muito respeitadas. A federação americana perde a grande oportunidade de mostrar que está à frente no mundo também em relação a isso, fortalecendo as atletas com salários iguais e o mesmo tratamento. A Europa caminha para derrubar a hegemonia norte-americana nos próximos anos, principalmente pelo futebol como produto de mídia. Lotar um Camp Nou, um Wanda Metropolitano, um Emirates é algo bem simbólico para propagar a modalidade, e com isso gerar mais receitas e lucros.

Qual a alternativa para a federação americana senão investir em algo que fortaleça suas atletas? Para ter mais valorização e investimento é necessário acreditar na mulher como protagonista. Parece bobagem falar isso, mas ainda colocam as mulheres em segundo plano no mercado consumidor e gerador de mídia. Você já viu a dificuldade de inserir a mulher no mercado consumidor de cerveja? Ou a mulher é retratada como musa ou não faz parte das propagandas. Gente, mulher bebe cerveja depois da pelada com as amigas, em casa, depois do trabalho. Acordem. Não adianta esperar que, sem investimento (financeiro, publicitário, midiático e confiança), o futebol feminino seja, de uma hora para outra, um produto igual ao masculino. Nem as mesmas réguas de comparação devem ser usadas, esse é o maior erro. Mas é um trabalho de formiguinha, como o feito pela Aline Pellegrino na Federação Paulista de Futebol, onde ela é única no que faz. Será preciso que surjam mais Alines para fazer a roda girar. Enquanto isso, vamos cobrando investimentos, melhorias e ocupando espaços na mídia. É um longo caminho.