LGBT
14/09/2020 17:52 -03 | Atualizado 16/09/2020 08:34 -03

A homofobia da pastora Ana Paula Valadão e a reação de entidades do movimento LGBT

Em vídeo de 2016 que caiu na rede, cantora e pastora evangélica diz que homossexualidade é pecado e que aids é ‘castigo de Deus'.

Entidade Aliança Nacional LGBTI+ irá processar a pastora evangélica Ana Paula Valadão por LGBTfobia. Neste fim de semana, um vídeo em que Valadão afirma que homossexualidade é pecado e que a aids é um ‘castigo de Deus’ viralizou nas redes sociais e gerou reação de defensores da causa.

Em nota de repúdio, a organização afirma que a religiosa fez declarações discriminatórias que atingem toda a comunidade LGBT, em especial, as pessoas que vivem com HIV/AIDS e que não admite que “a religiosidade seja utilizada como salvo-conduto para propagação do ódio e da desinformação”. 

“O discurso de Ana Paula beira ao absurdo, extrapolando a liberdade religiosa e de expressão, tornando-se um discurso odioso, fanático e amplamente desproposital, com consequências potencialmente desastrosas”, diz o texto. 

A ONG pede uma retratação de Valadão, e afirma que irá processá-la com base na decisão de 2019, do STF (Supremo Tribunal Federal).  Desde junho de 2019, o Supremo decidiu que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre o tema.

A pena é de até 3 anos e o crime é inafiançável e imprescritível, como o racismo. Até então, crimes motivados por orientação sexual ou identidade de gênero não tinham nenhuma tipificação penal específica no Brasil.  

Porém, a fim de preservar a liberdade de crença, ministros entenderam que religiosos não poderão ser punidos por racismo ao manifestarem suas convicções doutrinárias sobre orientação sexual, desde que as manifestações não configurem discurso de ódio.

A entidade LGBT afirma que o caso de Valadão, ainda que seja de 2016, se encaixa na segunda opção. O vídeo que se tornou viral - e está disponível no YouTube - é de uma edição do evento chamado Congresso Diante do Trono que é realizado anualmente e transmitido pela Rede Super de Televisão.

A rede que se intitula “a maior emissora cristã do Brasil” tem sede em Belo Horizonte (MG) e pertence à Igreja Batista da Lagoinha, da qual Valadão é integrante. No vídeo abaixo, a declaração acontece a partir do minuto 56:35:

A nota da Aliança Nacional LGBTI+ também afirma que a fala em questão “se assemelha aos mesmos padrões adotados por Adolf Hitler para desumanizar setores da sociedade”, como Judeus, LGBTs, ciganos e outras identidades perseguidas à época.

A pastora não se manifestou sobre a questão até o momento. O HuffPost enviou um pedido de resposta à Igreja da Lagoinha, mas não obteve resposta.

A Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil, em comunicado, disse que “se solidariza com as pessoas ofendidas, apoia a nota da Aliança Nacional LGBTI e se junta nas colocações”.

“Estaremos juntos nesta e em outras demandas que ferem a democracia, as leis e a laicidade do Estado Democrático de Direito”, disse.

“Deus criou o homem e a mulher, e é assim que nós cremos”

Getty Images/Reprodução/Redes Sociais/Montagem HuffPost
Parada LGBT do Rio de Janeiro, que recebeu 500 mil pessoas em 2019; a pastora Ana Paula Valadão em vídeo de 2016, quando disse que 'aids é castigo' para LGBTs.

Na gravação, a pastora afirmou em conversa com um missionário em seu programa que “hoje em dia é preciso explicar o que o termo companheiro” significa, se referindo que nem sempre o termo faz menção a casais gays.

“Hoje a gente tem que explicar o que é companheiro. Não gente, é sério. É engraçado, mas é sério”, disse a pastora. “Tem muitas pessoas, inclusive, novas convertidas que chegam para a igreja ou ligaram na Rede Super [emissora religiosa] agora e estão achando que isso é normal. Gente, isso não é normal. Deus criou o homem e a mulher e é assim que nós cremos. Qualquer outra opção sexual é uma escolha do livre arbítrio do ser humano. E qualquer escolha leva a consequências”, continuou. 

Valadão continuou afirmando que a Bíblia chama qualquer escolha contrária à que Deus determinou como a ideal de pecado, e diz que isso tem uma consequência, que é a morte.

“Inclusive tudo o que é distorcido traz consequência naturalmente. Nem é Deus trazendo uma praga, um juízo. Taí a aids para mostrar que a união sexual entre dois homens traz uma enfermidade que leva à morte e contamina as mulheres.”

Para a pastora, o “sexo seguro que não transmite doença nenhuma” chama-se “aliança do casamento”. “Não é assim? Deus é perfeito em tudo o que ele faz.”

A declaração gerou reação de ativistas e entidades de direitos humanos nas redes sociais e, neste fim de semana, “Ana Paula Valadão” chegou a fica entre os tópicos mais comentados. 

A apresentadora Xuxa Meneguel foi uma das celebridades que se pronunciou sobre o assunto. Em seu Instagram, ela saiu em defesa da comunidade LGBT.

“Isso não pode ser uma briga ou uma decepção só pra quem é LGBT, não podemos e não devemos tolerar mais preconceito, discriminação e desamor em nome de Deus, quem concorda com essa senhora saiba que é CRIME, e guarde sua falta de amor ao próximo pra vc (sic)”, escreveu a apresentadora.

A postura de Valadão sobre a população LGBT é recorrente na congregação a qual pertence. A comissão da OAB-MG está investigando uma declaração de André Valadão, irmão de Ana Paula, feita no último dia 8 de setembro.

Ao responder uma dúvida nas redes sociais sobre a possível expulsão de um casal homossexual da igreja, o pastor afirmou que “na igreja, não dá” após dizer que “esta prática não condiz com a vida da igreja”

“Tem muitos lugares que gays podem viver sem qualquer forma de constrangimento. Mas na igreja é um lugar para quem quer viver princípios bíblicos. Não é sobre expulsar. É sobre entender o lugar de cada um”, disse.

Dados sobre HIV e doação de sangue por homens gays no País

ED JONES via Getty Images
Recentemente, após decisão do STF, Ministério da Saúde também retirou a restrição a doação de sangue por homens gays no país.   

Ainda em nota, a entidade LGBT cita dados epidemiológicos do Ministério da Saúde e da OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre contaminação por HIV e destaca que “a pandemia do HIV há décadas deixou de ser apenas uma preocupação da comunidade LGBTI+, sendo uma preocupação para qualquer cidadão que mantenha vida afetiva-sexual ativa.”

“É importante lembrar que na atualidade, as pessoas que vivem com HIV e que seguem o tratamento antirretroviral, garantido como direito pelo Estado brasileiro, tornam-se sorologicamente indetectáveis e, portanto, além de gozarem de uma boa qualidade de vida, não mais transmitem o HIV”, diz.

Segundo boletim do Ministério da Saúde, divulgado em dezembro de 2019, os casos de aids, a síndrome causada pelo vírus HIV, estão caindo, assim como as mortes pela doença. Dados da pasta mostram que a maior concentração dos casos no País foi observada nos indivíduos com idade entre 25 e 39 anos, em ambos os sexos. Os casos nessa faixa etária correspondem a 52,4% dos casos do sexo masculino e, entre as mulheres, a 48,4% do total de casos.

Porém, houve aumento da taxa entre jovens de 15 a 19 anos e de 20 a 24 anos, que foram, respectivamente de 62,2% e 94,6% entre 2008 e 2018. Em 2018, a maior taxa de detecção foi de 50,9 casos/100.000 habitantes, que ocorreu entre os indivíduos na faixa etária de 25 a 29 anos, diz o boletim.

O levantamento aponta razões pelas quais o aumento da incidência do HIV se deu, principalmente, entre jovens. Um deles é o esvaziamento de campanhas de prevenção destinadas ao público gay e, também, a perda de financiamento de organizações não governamentais especializadas no tema.

Recentemente, após decisão do STF, a pasta também retirou a restrição a doação de sangue por homens gays no país. 

Portaria do Ministério da Saúde, publicada em 2014, e resolução da Anvisa, de 2016, afirmavam que “indivíduos do sexo masculino que tiveram relações sexuais com outros indivíduos do mesmo sexo e/ou as parceiras sexuais destes” são considerados inaptos à doação pelo período de 12 meses. 

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