06/02/2019 08:51 -02 | Atualizado 06/02/2019 10:15 -02

Ana Luiza Matos, a ultramaratonista da Cidade de Deus que ganhou o mundo

Iniciada na atividade física com objetivo de sair da obesidade, hoje ela corre mais de 360 km em provas internacionais.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Luiza Matos é a 336ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Técnica de enfermagem por formação, Ana Luiza Matos, de 41 anos, também é ultramaratonista, uma categoria de atletas que competem em provas que podem ter vários dias de duração. Sim, ela faz parte deste seleto grupo, e recentemente bateu um recorde ao correr 366km em 48 horas. Como os treinos são diários, é comum que ela atravesse o Rio de Janeiro correndo, para ir ou voltar ao trabalho, e não raros são os dias em que antes das 9h ela complete 30 km de corrida. Depois de 10 anos correndo ultramaratonas, agora a atleta tem um objetivo maior: correr a Badwater 135, na Califórnia, em uma região que pode atingir até 60ºC de sensação térmica.

Mas a trajetória de Ana Luiza começou muito longe dos holofotes, das pistas e das competições. Aos 24 anos ela pesava cerca de 100 kg, e quis prestar um concurso público para a área militar. Como de praxe, um dos requisitos para a classificação era a aprovação na resistência física, e o candidato não poderia estar mais que 20% acima do seu peso ideal. Perseguindo seu sonho, a técnica de enfermagem começou a fazer acompanhamento com nutricionista no posto de saúde da Cidade de Deus, onde mora, e treinos físicos orientados por um amigo educador físico em uma academia da região: “Eu tive muita sorte porque só passaram pela minha vida professores bacanas”. Quatro meses depois, no dia da prova de resistência física, Ana Luiza havia emagrecido 25 kg e estava dentro da faixa permitida para tentar a aprovação.

Meu objetivo é estar bem e conseguir cumprir minhas metas.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ser uma mulher atleta, Ana Luiza confessa, tem com certeza seus pontos negativos.

Um ano depois do início das atividades físicas, Ana Luiza já havia emagrecido 40 kg. Mesmo sem conseguir a classificação no concurso, ela continuou a se exercitar sempre com objetivo de ficar magra, mas nunca pensou em ser atleta profissional. Três anos depois, começou a correr e não parou mais. Mesmo com a perda de peso acarretando certo excesso de pele, ela nunca se preocupou em fazer cirurgias estéticas reparadoras. “Eu não vivo do meu corpo, eu sou uma atleta. Meu objetivo é estar bem e conseguir cumprir minhas metas”, explica.

Ser uma mulher atleta, Ana Luiza confessa, tem com certeza seus pontos negativos. À reportagem do HuffPost Brasil ela conta, como poucas vezes antes, o episódio de assédio sexual que sofreu enquanto treinava na Região dos Lagos. Sozinha em um trecho ermo, ela foi atacada por um homem munido de um facão, e se viu obrigada a entrar em luta corporal com ele para não ser vítima de estupro. O corpo traz, até hoje, as marcas das facadas que ela, infelizmente, sofreu. E as lágrimas nos olhos denunciam que apesar de todo o sucesso, é um episódio difícil de esquecer.

“Foi o episódio mais triste da vida, pessoal. O mais traumático. Isso aconteceu em 2006, e ele foi condenado em 2009. E era um caso que não era só meu, era em prol da sociedade também. Pensei nisso quando comecei a sentir vergonha, principalmente diante de perguntarem se eu vestia short ou o motivo de eu estar sozinha. Foi difícil, e eu só me senti segura quando ele foi preso”, confessa.

Senti vergonha [após ser atacada], principalmente diante de perguntarem se eu vestia short ou o motivo de eu estar sozinha.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ela prova o quanto é possível uma atividade física transformar a vida de qualquer pessoa: basta começar.

Depois desse episódio, ela parou de correr na rua e voltou a fazer exercícios na academia. Mas o ar-condicionado não era tão atraente quanto as pistas, e ela logo tomou a decisão de voltar a correr nas ruas. “Eu pensei que não podia ficar o resto da minha vida com medo, presa num lugar. Quando você passa por um trauma, você precisa de algo que goste muito para te levantar”, analisa. Saiu da academia, se inscreveu na meia-maratona e, quando completou a prova, percebeu que precisava de mais.

“Eu me senti tão inteira que me arrependi de não ter me inscrito para a maratona completa. Eu adorei aquilo, foi uma sensação inédita. Achei incrível atravessar quase a orla toda do Rio de Janeiro correndo, vi o que o ser humano é capaz de fazer”, relembra.

Quando você passa por um trauma, você precisa de algo que goste muito para te levantar.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ana Luiza mudou-se para a Cidade de Deus aos 16 anos e nunca mais morou em outro lugar.

Foi assim que ela entrou no mundo das ultramaratonas, correndo cada vez mais e sem parar. Mas desde que entrou no mundo das ultramaratonas, há dez anos, Ana Luiza não tem nenhum patrocinador fixo. Com o passar dos anos e o acúmulo de vitórias, chamou a atenção de parceiros que, hoje, auxiliam no seu processo de preparação. Treinador, fisioterapeuta e até clínica que trabalho com eletroestimulação dos músculos são parceiros da atleta.

“Aproveito todas as chances que tenho. Eu nunca forcei uma barra, eu sempre me coloquei como uma atleta que, aos poucos, provou o seu valor. Independentemente de onde eu venho. Não nego os apoios para dizer que sou ‘corredora raíz’. Se eu fosse pagar tudo que preciso para a minha performance, não seria possível nem se eu destinasse todo o dinheiro do meu trabalho para isso. E ninguém me apoia porque é bonzinho, mas ele também quer o nome dele associado a uma atleta de performance”, afirma.

Nascida na comunidade do Fallet/Fogueteiro, na região central do Rio de Janeiro, Ana Luiza mudou-se para a Cidade de Deus, uma das maiores comunidades da zona oeste carioca, aos 16 anos. Nunca mais morou em outro lugar, e até hoje trabalha como técnica de enfermagem para pagar suas contas, por isso valoriza tanto quem acredita no seu trabalho.

“A atividade física tem o poder transformador, principalmente com crianças. Se todas as comunidades tivessem um projeto social, metade dos problemas seria resolvido. O cara que pratica um esporte desenvolve disciplina, compromisso, atenção, trabalho em grupo.”

A atividade física tem o poder transformador, principalmente com crianças.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Ela entrou no mundo das ultramaratonas, correndo cada vez mais e sem parar.

Quando começou, confessa que não imaginava chegar tão longe, mas agora não para mais: para correr na Califórnia, precisa de um patrocínio de R$ 80 mil. E tem certeza de que irá conseguir. “Eu não tenho nem passagem para ir para os Estados Unidos, mas eu sei que vou. Eu tenho sonhos, e persigo eles. A corrida mudou a minha vida, e eu tenho consciência de que eu posso chegar ainda mais longe. A corrida me levou para Portugal, Holanda, Argentina, e me permitiu voltar para a Cidade de Deus. Eu nunca imaginei que iria chegar tão longe com as minhas pernas”, confessa.

A ultramaratonista Ana Luiza também tem o “staff de luxo” que é o marido Alexandre. Juntos, eles se apoiam na atividade física e lidam com as adversidades e necessidades. Ao contar a história de sua vida, os olhos de Ana Luiza não deixam ela mentir sobre o amor que sente pelas corridas e pela vida que leva. Seja nas pistas ou nas montanhas, pertinho do céu e das estrelas que tanto ama, ela prova o quanto é possível uma atividade física transformar a vida de qualquer pessoa: basta começar.  

“Sei que tenho uma obrigação social com as crianças que me veem e sabem que é possível sonhar e chegar onde quiserem. Sei que há uma referência, e acho importante não esquecer disso.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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