LGBT
12/06/2020 07:32 -03 | Atualizado 12/06/2020 21:07 -03

O amor em tempos de pandemia: Como estes casais LGBTs estão vivenciando a quarentena

Neste Dia dos Namorados, o HuffPost conversou com 4 casais LGBTs e conta suas receitas para driblar os desafios impostos às relações pelo isolamento social.

Alexandre*, 32 e seu namorado, Thiago*, 28, encontraram um jeito de fazer com que o relacionamento se adequasse às demandas impostas pela quarentena, mas também ficasse “mais leve”. “Nós conversamos muito sobre tudo e a gente não colocou exatamente uma regra, mas o que tem acontecido é que ele passa alguns dias na casa dele e, depois, a gente volta a ficar junto”, conta Alexandre que, ainda em março, chegou a passar alguns dias com o namorado na praia e conviveu boa parte do tempo com ele. “Vira quase um casamento forçado, e uma hora você quer ter a sua individualidade”, diz.

Com o isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, casais como Alexandre e Thiago estão tentando driblar o impacto do isolamento social na relação. A crise, de fato, fez com que muitos casais avaliassem suas prioridades, a qualidade de seus relacionamentos e se a presença deste outro é realmente importante – mas nem sempre o resultado é negativo. Neste Dia dos Namorados, o HuffPost conversou com quatro casais LGBTs e conta como eles buscam cultivar o afeto em tempos de pandemia.

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“Na convivência intensa, a gente começou a notar que se irritava muito com o outro. Eu sou muito metódico, gosto de fazer as coisas certinhas, do meu jeito e ele [Thiago] não liga para nada disso. E se você já tem uma questão, ela só vai aumentando, né? E aí vira um problema real”, conta Alexandre. “A gente passou por dias em que a relação estava pesada. Eu estava mal humorado, ele também. Está todo mundo tendo crises nesse momento. É o seu problema, é o problema mundial, é o [presidente Jair] Bolsonaro turbinando os problemas.”

Nessas horas, em que as coisas ficaram tensas, eu cheguei a pensar: 'É o meu relacionamento? Será que eu quero mesmo isso? O que está acontecendo?'Alexandre, 32, empresário.

O casal, que pediu para ter seus nomes alterados na reportagem, mora em São Paulo – epicentro da doença no País, com mais de 150 mil casos –, se conhece há cerca de um ano e está junto há dez meses. No momento, Alexandre está trabalhando em casa em um novo projeto: em janeiro, saiu do emprego antigo e montou uma hamburgueria em casa, que teve aumento de pedidos neste momento. Thiago tinha acabado de começar em um novo emprego no início da crise sanitária e agora trabalha em homeoffice.

“Nessas horas, em que as coisas ficaram tensas, eu cheguei a pensar: ‘É o meu relacionamento? Será que eu quero mesmo isso? O que está acontecendo?’”, conta Alexandre, ao mencionar que chegou a perder a libido no início. ”Não sei se foi a situação geral, o efeito do isolamento e desse momento estranho que a gente está vivendo. Mas conversei com uma amiga e soube que isso foi algo comum e aconteceu com outras pessoas nesse momento.”

Para ele, foi aí que o diálogo entrou. “A gente chegou nesse modelo que não é nada certo, não tem uma regra. Mas que ajuda a gente a dar uma respirada. Ele passa alguns dias na casa dele, depois volta para cá. E tem dado certo.”

’É um momento em que a gente acaba se conhecendo de novo’

Arquivo Pessoal
Thelma Lavagnoli (à esq.) com o gato Pipoca, e Juliana Rojas (à dir.) com Batata no colo.

A jornalista Thelma Lavagnoli, 30, e a cineasta e roteirista Juliana Rojas, 38, se conheceram há três anos e moram juntas há um ano na região central de São Paulo com cinco gatos: Pipoca, Batata, Quito, Pandora e Gizmo.

O período de isolamento social, para elas, começou no dia 23 de março, exatamente quando o governador João Doria publicou decreto que deu início à quarentena no estado de São Paulo. “O que mudou mesmo de lá pra cá é que a gente agora está junto o tempo todo [risos]”, conta Rojas. 

Antes, ambas tinham uma rotina intensa de trabalho, outras prioridades, e não se encontravam com tanta frequência durante a semana. Agora, o desafio está em conseguir se adaptar ao trabalho remoto de cada uma, respeitar individualidades, e dividir o mesmo espaço e as demandas da casa.

É uma coisa que eu até costumo falar: a gente se ama, mas a gente escolhe estar junto. Você escolhe e trabalha questões que surgem.Thelma Lavagnoli, jornalista, 31 anos.

“A gente teve que se adaptar para as questões domésticas e também tinha o costume de pedir comida, e agora estamos cozinhando mais”, diz Rojas, que conta que elas dispensaram a diarista, mas continuam pagando a profissional da limpeza. “Mas agora é a gente que faz uma faxina semanal”. 

Para o casal, não houve um temor sobre o relacionamento com a chegada da pandemia. “A gente não pensou: ‘vamos nos separar por conta da pandemia’. A gente escolheu encarar os problemas e é isso”, conta Thelma, ao pontuar que elas não têm brigas ou discussões frequentes, mas vivem situações de irritação e desconforto comum a outros casais. “A gente se estressa uma com a outra, mas a gente tenta encontrar estratégias. Acho que este é mais um momento em que a gente acaba se conhecendo de novo. Eu acho que acabei percebendo novas coisas na Juliana que antes não percebia”, diz. 

Entre elas estão manias, trejeitos e costumes que, talvez por desatenção e pela correria do dia a dia, passavam despercebidas, mas que agora são motivo de riso e não de conflito. “A gente se ama, mas a gente escolhe estar junto. Você escolhe e trabalha questões que surgem. Eu entendo que ela não é perfeita, e ela entende que eu também não sou, e a gente se encontra nesse caminho de se ajudar e se amparar”, afirma.

A saudade da família e dos amigos, no entanto, é uma questão. “A gente recebe muita gente em casa. E acaba que, para pessoas LGBTs como nós, os amigos se tornam uma família. Meus amigos são muito próximos e eu sinto muito a falta deles. A gente sente porque não está com a família que gosta da gente.”

‘A gente teve que praticar muito mais a escuta’

Arquivo Pessoal
Danielle Spina, 30 (à esq) e Lorany Serpa (à dir.), idealizadoras da O Brunch, uma marca de produtos veganos.

Lorany Serpa, 31, e Danielle Spina, 30 não só moram juntas em São Caetano do Sul, na região do ABC Paulista, mas também comandam uma empresa juntas. Há dois anos, elas tiraram do papel um desejo antigo: ter uma marca de produtos para brunch, só que veganos, sem ingredientes de origem animal. Neste contexto, a decisão de morar junto veio não só pelo afeto e desejo de compartilhar, mas também para ter uma cozinha maior e otimizar o trabalho.

“Na quarentena, tiveram dias em que tudo se tornava um grande problema”, conta Danielle. “A gente teve que praticar muito mais a escuta, porque senão as questões pessoais se misturavam com o trabalho”, lembra.

A solução foi colocar todas as questões à mesa e, novamente, fazer o exercício de tentar compreender o outro. Neste ponto, a manutenção do tratamento psicoterápico, que já acontecia antes da quarentena, foi um aliado – o que ajudou a potencializar o diálogo. “Teve um momento muito importante que a gente chegou, sentou e falou: ‘Precisamos conversar’”, diz Lorany, que destaca a importância da continuidade da terapia e de manter este espaço individual.

Teve um momento muito importante que a gente chegou, sentou, e falou: ‘Precisamos conversar’Loany Serpa, 31, empresária.

“Cada uma já fazia terapia separadamente antes da quarentena, e ficamos muito felizes que deu para continuar neste momento, à distância. Foi algo que ajudou muito a mudar a forma como a gente estava praticando a escuta e a fala”, pontua. “A liberdade de fazer o que a gente quer, ter o nosso tempo, e entender a demanda do outro já existia, mas, agora, aumentou.”

Há três meses, a rotina de trabalho delas na empresa também exigiu mudanças que passaram pelo diálogo e pela reestruturação no relacionamento entre as sócias, com o cliente e com o mundo externo: “Um dos piores momentos hoje é ir ao mercado. A gente redobrou os cuidados e estamos, nós mesmas, fazendo as entregas”, completa Danielle.

“Eu penso muito no pós-pandemia, em como vai ser. Teve um momento que a gente colocou na mesa todos os cenários. Porque nós vendemos produtos muito específicos, para um público muito restrito. E, nesse momento, ficamos com muito medo de perder tudo.”

O casal entrou com o pedido de auxilio emergencial do governo federal como microempreendedoras, mas ainda aguarda a resposta. “O que surpreendeu a gente foi uma rede de solidariedade que vem acontecendo nas redes sociais e entre profissionais como nós, que têm que se virar”, conta, ao pontuar que soube de algumas pessoas que realizaram encomendas só para fortalecê-las.

Esta rede trouxe uma sensação de segurança para o casal que influenciou também no relacionamento. “O diálogo aumentou tanto que, no café da manhã, se uma não está bem, a gente já fala [risos]. Se não, tudo vai virar um problema. E em dias assim, a gente já sabe que não pode tocar em assuntos delicados.” 

‘O problema é quando as pessoas procuram no outro a felicidade’

Arquivo Pessoal
Tryanda Verenna, 35 (à esq) criador do canal "Homem Trans BR" e Mayara Mayara Fortes, 28 (à dir), casados há sete anos.

Tryanda Verenna, 35, criador do canal Homem Trans BR é casado há 7 anos com Mayara Fortes, 28. “Eu acho que agora a gente tem uma cumplicidade maior”, conta Tryanda, ao analisar o que os possíveis efeitos da pandemia em seu relacionamento. “Antes eu saía de casa muito cedo, chegava muito tarde e sempre estávamos cansados. Eu acho que esse momento trouxe isso de positivo: a gente estava precisando ficar junto. Estávamos desconectados.”

Mas isso não quer dizer que este momento esteja sendo fácil. Devido ao impacto da crise sanitária na economia, Tryanda foi demitido de seu emprego como agente de viagens ainda em março. Em seguida, sentiu fortes dores na barriga e precisou ser internado para retirar dois pólipos do intestino. “Minha sorte foi que o convênio ainda estava valendo”, lembra. “Mayara ficou do meu lado o tempo todo e nós tomamos todos os cuidados. O hospital que eu fiquei tinha uma ala específica para covid-19 e tudo já estava muito diferente.”

Lógico que existem os estresses do dia a dia. Nós somos duas pessoas que pensam diferente, e tudo bem.Tryanda Verenna, 35, criador do canal Homem Trans BR.

Recuperado, resolveu mudar os hábitos alimentares e começar a fazer exercícios frequentes, algo que foi acompanhado por sua esposa. “Ela trabalha como ‘dog hero’ e o movimento também baixou muito neste momento. Então, mudamos uma série de coisas. Deixamos de pedir fast food e começamos a cozinhar juntos, por exemplo, algo que eu nunca tinha feito e tem sido bom.”

Neste contexto, o tratamento hormonal de Tryanda, realizado pelo SUS (Sistema Único de Saúde), se manteve. Em fase de manutenção, a cada três meses, ele precisa ir até o posto de saúde e tomar uma injeção. “Eu já tinha conversado com a minha médica mesmo antes da pandemia sobre essa periodicidade. Em abril, precisei tomar e consegui com tranquilidade.” 

O casal mora em uma casa própria na Zona Norte de São Paulo e, com os novos hábitos, ele conta que a rotina ficou mais leve. Além disso, Mayara decidiu redecorar a casa, começando pela cor das paredes. A escolha desta vez foram as cores preto e amarelo. “Ela disse que não combinava, mas eu insisti. É ela quem está pintando. Brinco que ela é o homem da casa [risos].”

No isolamento, Tryanda mantém contato remoto com o sobrinho e com a irmã, que moram fora do País. E para o casal, a pandemia proporcionou tempo e afeto. “A possibilidade de terminar nesse momento de pandemia não passou pela minha cabeça. (...) Lógico que existem os estresses do dia a dia. Mas acho que o problema é quando as pessoas ficam procurando a felicidade no outro. Nós somos duas pessoas que pensam diferente, e tudo bem. Nos amamos.”

*Os entrevistados pediram para ter seus nomes alterados na reportagem.