Amor de pandemia: 'Foi maravilhoso, estava há dois meses sem tocar em ninguém'

O confinamento fez disparar o uso de aplicativos de namoro: “Nunca me lembrarei de nenhum ficante como lembrarei desse cara, porque foi durante a pandemia”.

“Em vez de um amor de verão, foi um amor de pandemia”, repete Alba (nome fictício) quando perguntada sobre como foi sua experiência tendo encontros em aplicativos de namoro durante estes meses de confinamento.

Essa madrilenha de 35 anos encontrou seu ‘amor de pandemia’ no app OkCupid quando ficou trancada em casa devido ao confinamento da Espanha e depois de ter feito uma quarentena rigorosa por suspeita de coronavírus.

O casal estava “apenas conversando” por pelo menos três semanas, mas em seguida as medidas de isolamento social começaram a diminuir no país “e quando pudemos sair dissemos: ‘Vamos furar essa quarentena?’. E resolvemos nos ver”.

“A ideia de encontrar alguém para passear com uma máscara não me atraiu, então propus encontrar na minha casa, que era a coisa mais próxima de tomar algo em um bar. Demos esse passo”, conta. O problema é que, imediatamente, o relógio bateu 23h, o prazo limite para poder ficar na rua – a Espanha havia liberado para as pessoas maiores de 14 anos saírem de casa entre 6h e 10h e entre 20h e 23h.

“Naquele momento, tive que decidir: o que eu faço? Deixo ele aqui ou não? Eu não tinha uma ideia muito clara, mas já era tarde e pensei que poderiam multá-lo e, bem, no final ele ficou”, explica. “Se isso estivesse acontecido em um bar, não teria sido tão rápido.”

Naquela noite correu tudo bem e, desde então, eles passaram a ficar todos os sábados.

“Esse primeiro encontro foi maravilhoso: estava há dois meses sem tocar em ninguém. Os dois dormiram super abraçados e dizendo: 'Que gostoso'. Você normalmente não acha isso, as pessoas não dormem tão grudadas, mas acho que estávamos numa fase de falta de contato”

Na sua opinião, “a pandemia acelerou tudo”. “De repente, tudo estava indo muito rápido: conversávamos muito, nos vimos muito, por videochamadas. Ele me apresentou aos seus amigos, fui à casa dele, passei um dia inteiro com ele e, de repente, ele foi ficando. E é isso ”, diz a jovem. O amor deles durou enquanto durou o confinamento: “A coisa terminou quando chegamos a essa nova normalidade”.

E embora eles tenham parado de se ver desde então, eles ficaram mais uma vez para se despedirem. “Eu disse a ele: ‘Não vá sumir pois eu gosto muito de você, por tudo que vivi com você no confinamento. Isso é histórico’”, lembra Alba.

“Nunca me lembrarei de nenhum ficante como lembrarei desse cara, porque foi durante a pandemia. Como você esquece isso?”, ela confessa. “Então já ficamos e nos despedimos, com muito carinho por tudo o que passamos juntos”.

Durante a quarentena na Espanha, o uso do Tinder aumentou 94% entre os menores de 35 anos, o mesmo aconteceu com outros aplicativos como Badoo (52%), Wapo (34%) e Grindr (24%), de acordo com um estudo realizado pela Smartme Analytics com mais de 8.000 participantes. Essa pesquisa também descobriu que o tempo das conversas estava aumentando em 26% e que o número de conversas havia crescido em 30%.

“Durante o confinamento, todos nós nos agarramos a alguém e muitas pessoas adotaram alguém como seu ‘namorado de pandemia’”, diz Alba. No caso dela, “foi algo muito, muito intenso, que de repente murchou”, descreve.

“A ideia era ter algo da vida social, falar com alguém”

Carmela (nome fictício) experimentou algo semelhante, embora seu relacionamento tenha sobrevivido ao novo normal. A jovem de 29 anos “não usava o Tinder há dois anos e estava há praticamente um ano sem ficar com ninguém”. “O confinamento, que estava um pouco chato e me deixou isolada, me fez abrir outro aplicativo que não fosse o Tinder”, conta. “A ideia era ter algo da vida social, falar com alguém”, diz ela. Depois de três ou quatro semanas de pouca atividade nos aplicativos, aconteceu um “match interessante”. “Começamos a conversar muito”, destaca Carmela.

“Acho que nós dois estávamos tão entediados que sempre tínhamos nosso celular à mão. Eu nunca conversei tanto com uma pessoa por aplicativo ”, afirma.

Naquela época, ainda estava em vigor o confinamento rigoroso na Espanha, ambos moram com os pais e tinham o máximo de cuidado para não levar o coronavírus para casa. Mas veio o afrouxamento do distanciamento social no país e eles decidiram se encontrar pessoalmente. “Estávamos conversando há dois meses e, quando ficamos, eu fiquei muito nervosa, mas não tanto por causa do coronavírus, mais por conhecê-lo”, admite Carmela.

“Como nós dois éramos muito cuidadosos, estávamos confiantes de que nada iria acontecer, embora soubéssemos que havia um pequeno risco”, diz Carmela. No começo, quando estavam na rua, ambos usavam a máscara. “Mas depois de entrar na casa, não. Nem consideramos a abstinência, nem o sexo usando a máscara, nem fazer o teste.”

No entanto, se o garoto não gostasse tanto dela, ela iria ficar bem triste, diz a jovem: “Se eu assumi o risco, era porque eu estava gostando muito dele”. Alba concorda com ela: “Acho que as pessoas agora estão correndo menos riscos e, se vêem alguém que não se encaixa, preferem ir embora imediatamente”.

“Antes da pandemia, se tinha a sensação se que os aplicativos de relacionamentos eram apenas para ter relações sexuais, , e isso era quase obrigatório desde a primeira conversa”, explica Francisca Molero, presidente da Federação Espanhola de Sociedades de Sexologia (FESS). “Agora, em vez disso, vai ser muito difícil duas pessoas irem para a cama no primeiro encontro porque, além de não conhecer a pessoa, agora há o medo do contágio”, diz Molero.

O Tinder, por enquanto, lançou duas novidades para tornar as reuniões “mais seguras”. Um é o sistema de verificação de fotos para garantir que as imagens em um perfil correspondam ao seu dono e o outro é um bate-papo por vídeo que só é acessível se ambas as pessoas concordarem.

“Acho que com a pandemia haverá uma recuperação no uso desses aplicativos, porque haverá uma onda de pessoas solteiras que se separaram durante o confinamento”, opina Alba. “Isso é algo que uniu ou destruiu casais”, diz ele. “Com minhas amigas, eu sempre dizia: ’Todos os homens que gosto eu já peguei, espero que venha aí uma nova onda de separados”. Agora a esperança é a nova onda de pessoas que separaram por causa da pandemia”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Espanha e traduzido do espanhol.