OPINIÃO
05/03/2020 22:00 -03 | Atualizado 06/03/2020 12:16 -03

Mesmo derrapando em alguns pontos, 'Amor de Mãe' está muito acima da média

Tenho lido nas redes sociais: "Perdi um capítulo e estou perdido." Sim!

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Malu Galli (Lídia) e Regina Casé (Lurdes) em cena de "Amor de Mãe". 

Amor de Mãe  vem se solidificando, capítulo a capítulo, como um produto de dramaturgia acima da média. A novela segue a “cartilha do tombo”: cada capítulo é recheado de eventos que vão dando novas guinadas às tramas, movimentando histórias e personagens de forma a prender o público, mantê-lo cativo. É a mais antiga das fórmulas, usada por Sherazade na Antiguidade e perpetuada nos folhetins do século 19 - pais das atuais telenovelas.

Com conflitos criados e resolvidos (ou ao menos encaminhados) em poucos dias, o efeito é a ausência de “barriga” (a enrolação pela qual passa a maioria das novelas). A carpintaria da autora Manuela Dias é das mais eficientes, a que muitos autores almejam, mas poucos conseguem alcançar. Talvez João Emanuel Carneiro (com Avenida Brasil e A Favorita) tenha sido o último a levar à risca a teoria “cada capítulo é um tombo”: perdeu um, perdeu o fio da meada.

Por outro lado, é muito difícil a escrita de uma telenovela alcançar a perfeição, mantendo-se nesse ritmo do início ao fim. João Emanuel Carneiro não conseguiu. Na história de nossa televisão, talvez a única que alcançou tal status tenha sido Vale Tudo (de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères), lá em 1988 - que mesmo assim lançou mão de um “quem matou” (Odete Roitman) para garantir algumas semanas a mais de suspense para o público.

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Andrea Dantas (Fátima), Chay Suede (Danilo) e Adriana Esteves (Thelma) contracenam em "Amor de Mãe".

Amor de Mãe só não é “redondinha” porque, em nome da alta rotatividade da trama, a autora resvala em alguns recursos para lá de questionáveis. O principal diz respeito ao empobrecimento de Vitória (Taís Araújo) e o seu encontro (bastante forçado) com a agiota Penha (Clarissa Pinheiro). A própria explicação de Sandro (Humberto Carrão) ser filho de Vitória entrou na novela de forma bastante canhestra.

Também há os “momentos Cadinho” (referência ao personagem de Alexandre Borges em Avenida Brasil), em que se larga a novela para ir ao banheiro: as tramas desestimulantes do casal Matias e Miranda (Milhem Cortaz e Débora Lamm) e do cantor Ryan (Thiago Martins), com muita encheção de linguiça - o que caracterizaria uma “barriga”, não fosse o restante muito bom da novela.

Às vezes, os fins justificam os meios e a autora compensa de certa forma. A procura de Vitória pela agiota rendeu a ótima cena em que ela se nega a trabalhar para Penha: “Eu não parei de defender bandido de colarinho branco para defender bandido de rua”.

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Thaís Araújo (Vitória) e Clarissa Pinheiro (Penha) em cena de "Amor de Mãe".

Outro exemplo: Davi (Vladimir Brichta) procura Álvaro (Irandhir Santos) para avisá-lo que sabe a verdade sobre o atentado na PWA, o que deu chance ao vilão de impedir que a polícia chegasse ao matador. Um recurso pobre que remete ao antigo seriado do Batman, em que os vilões capturavam Batman e Robin e explicavam como eles iriam morrer, dando oportunidade aos heróis pensarem como fazer para se safar. Pelo menos rendeu para Penha a cena de seu primeiro assassinato.

Essas questões são pontuais e não desabonam Amor de Mãe em sua totalidade. A novela tampouco subestima o público. Pelo contrário, segue imperdível, com todos os recursos que fazem a festa dos noveleiros mais exigentes: drama, suspense, romance, ação, comicidade, emoção, personagens carismáticos, atores incríveis, direção moderna e madura e tramas envolventes. Ufa!

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