OPINIÃO
12/02/2020 21:15 -03 | Atualizado 13/02/2020 14:36 -03

Pequenas viradas conferem um dinamismo discreto e saboroso a Amor de Mãe

As revelações e viradas - que considero “quase discretas” - tornam Amor de Mãe uma novela imperdível.

Reprodução/TV Globo
 Irandhir Santos como Álvaro, em 'Amor de Mãe'.

Passados 70 capítulos de Amor de Mãe, percebe-se que a autora Manuela Dias vem cozinhando sua trama de forma muito eficiente. Manuela não desperdiça munição com grandes viradas catárticas. É adepta de “sustos”, pequenos plot twists que vão dando um dinamismo saboroso e quase discreto à trama.

Geralmente isso é reconhecido quando algum personagem coadjuvante revela uma ligação com outro, de outro núcleo até então sem relação alguma com ele. Descobrimos recentemente que a diretora Eunice (Dida Camero), ligada à professora Camila (Jessica Ellen), é irmã de Katia (Vera Holtz), a traficante de crianças que sumiu com Domênico.

Às vezes, essas ligações surgem de maneira quase imperceptível. Reparou que a empregada que Januário (Luiz Carlos Vasconcelos) e Oliveira (Nanego Lira) arranjaram para a casa de Lurdes (Regina Casé) já havia aparecido? É a mãe de Loyane (Dora Freynd), aluna de Camila que tem um bebê, e de Farula (MC Cabelinho), membro da gangue de Marconi (Douglas Silva).

Essa série de relações interligadas tornam o fictício bairro do Passeio o microcosmo de Amor de Mãe. Tudo acontece ali dentro. Coincidências demais? Já vimos antes, no Leblon das histórias de Manoel Carlos.

As revelações e viradas - que chamei acima de “quase discretas” - tornam Amor de Mãe uma novela imperdível. Cada capítulo faz surgir algo novo, uma nova informação. Só acho que, para quem acompanha a trama diariamente, há um excesso de flashbacks explicativos - mas nada que desabone a obra em sua totalidade.

Alívio cômico

O que desabona Amor de Mãe são alguns alívios cômicos, ou núcleos de humor, não muito interessantes. Jane (Isabel Teixeira) surgiu com potencial, amiga perfeita de Thelma (Adriana Esteves) - duas loucas - e com sede de sexo por Matias (Milhem Cortaz). Poderia render bem, mas agora a personagem está subjugada a cuidar da gravidez solidária de Thelma, o que fez surgir uma nova personagem, Tracy (Letícia Isnard), para o alívio cômico com Matias - sem muito resultado.

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Letícia Isnard (Tracy) e Enrique Diaz (Durval).

A relação do casal Matias e Miranda (Débora Lamm) - que inclui a trama do “vale-night” - soa forçada e avulsa. Lembra os núcleos de humor das novelas de João Emanuel Carneiro, sem a menor relação com o resto da obra. A questão é que Amor de Mãe não se presta ao riso solto e mecânico. Para rir, bastaria as nuances de Lurdes e as falas de Durval - Regina Casé e Enrique Diaz divertem mais com menos.

Evolução dos personagens

Eu já ri de Penha, em sua fase de empregada com o vaso sanitário quebrado em casa. Contudo, é notável como a personagem cresceu, revelando facetas bem mais complexas. Penha tem um pé na tragédia, flerta com o perigo e ainda apresenta uma graça intrínseca, sutil. Promete crescer bastante. Clarissa Pinheiro é a atriz, ótima, de trabalhos como Justiça e Onde Nascem os Fortes.

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Clarissa Pinheiro (Penha) e Arietha Corrêa (Leila).

Álvaro (Irandhir Santos) evoluiu e quase destrona as mães protagonistas, não fosse ele um perfeito antagonista - das três mães em situações diferentes, inclusive, o que é muito engenhoso. Irandhir interpreta nos detalhes, na voz, no olhar, nos gestos, sempre comedidos, e nas roupas, de caimento perfeito e cores claras.

Qualquer semelhança com o figurino de Carminha de Avenida Brasil não terá sido mera coincidência. Tal qual nesta novela, os antagônicos Álvaro e Raul (Murilo Benício) vestem o claro e o escuro, como Carminha e Nina, na dualidade inversa entre cor e caráter.

Fico matutando se Vitória (Taís Araújo), ao desligar-se de Álvaro, evoluiu ou não. Presa ao compromisso financeiro com o trabalho, ela apresentava uma dubiedade muito interessante. Por outro lado, ao desvencilhar-se do materialismo que seu emprego proporcionava (e do “lado negro da força”), Vitória demonstrou um crescimento interior importante e válido. Apenas um senão: exageradas as cenas em que ela limpa banheiro, feitas para sublinhar sua nova condição.

A identidade de Domênico

O grande mistério de Amor de Mãe tem mexido com a imaginação e criatividade do público. É interessante como Manuela Dias movimenta suas peças neste entrecho, distribuindo aqui e ali easter eggs ou pistas, algumas falsas.

Recentemente, em um diálogo com Thelma, a amiga Jane a questionou sobre a adoção de Danilo (Chay Suede), revelando um fato novo na trama. O rapaz, por sua vez, é o suspeito número um na maioria das apostas nas redes sociais. Também vale chutar para todo lado: e se fosse Álvaro? Ou Amanda (Camila Márdila), após mudança de sexo... eu sempre gostei dessa teoria.

Reprodução/TV Globo
Chay Suede (Danilo) e Adriana Esteves (Thelma).

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