OPINIÃO
13/01/2020 22:15 -03 | Atualizado 13/01/2020 22:15 -03

'Amor de Mãe', a novela com cara de cinema que o público ainda não sabe que quer

Trama de Manuela Dias traz frescor ao universo da teledramaturgia e tem melhor resultado de audiência neste início de ano.

Na primeira semana útil de janeiro, a novela Amor de Mãe recebeu melhor atenção do público. Passado o período de fim de ano (em que as audiências da TV tradicionalmente caem), a trama de Manuela Dias registrou um aumento considerável no Ibope — comparado às semanas anteriores —, ultrapassando a casa dos 30 pontos na Grande São Paulo.

A tarefa da autora e do diretor artístico José Luiz Villamarim não é fácil. Com direção e estética que remetem ao cinema, Amor de Mãe tateia na intenção de cativar o público de novelas sem perder a sua premissa e originalidade.

Apesar de oferecer frescor ao universo da teledramaturgia, autora e diretor fazem questão de sublinhar que a novela não passa de uma novela. Às vezes a produção deixa isso claro até demais. 

Só no capítulo de sábado (11/01) foram três cenas de reiteração, a famigerada repetição dos folhetins: o público foi lembrado de que Thelma (Adriana Esteves) furou camisinhas, por isso Camila (Jéssica Ellen) engravidou; e Vitória (Taís Araújo) recordou duas falas de Álvaro (Irandhir Santos) — do mesmo capítulo, inclusive — concluindo que ajudou o empresário, beneficiado na questão da escola invadida por policiais. Foi como se tivesse desenhado. 

Reprodução/TV Globo
Taís Araújo, Regina Casé e Adriana Esteves, as estrelas de "Amor de Mãe".

O novelo de Manuela Dias

Convencionou-se enaltecer o cruzamento entre os personagens de Amor de Mãe comparando com o trabalho de Manuela Dias na série Justiça. Na realidade, foram poucas as situações na novela em que personagens que não interagem entre si, ou que não se conhecem, estão em um mesmo ambiente, como acontecia em Justiça. O que se vê em Amor de Mãe é o básico de toda novela: o cruzamento entre personagens que limita o universo narrativo da trama. 

Até aí, nada de novo. Janete Clair e Ivani Ribeiro já amarravam e limitavam seus personagens de modo que suas histórias tivessem apenas uma delegacia com um delegado, um hospital com um médico, uma mercearia com um vendedor. Da mesma forma, o Leblon era o limite geográfico das novelas de Manoel Carlos.

O segredo da identidade do filho desaparecido de Lurdes (Regina Casé) não deve sair das fronteiras de Thelma e Vitória (Adriana Esteves e Taís Araújo), núcleos que concatenam com o da personagem de Regina Casé. Não há novidade alguma no desenho de microcosmos restritos. Parafraseando Janete Clair: o fio de trama que Manuela Dias puxa vem desse único novelo emaranhado.

Cinema na novela

O festejado frescor de Amor de Mãe diz muito mais sobre a forma do que sobre o conteúdo. A identidade realista conferida à novela não está em sua história, roteiro ou narrativa, mas na câmera dos diretores comandados por Villamarim - ao captar movimentos, enquadramentos e luminosidade - e nos cenários, figurinos e arte em geral (preste atenção em toda e qualquer cena na casa de Lurdes). 

Identidade esta que convencionou-se chamar de “cinematográfica” porque o cinema brasileiro é muito impregnado desse realismo. E isso não significa que Amor de Mãe tenha a pretensão de reinventar a roda ou “inovar” a teledramaturgia. Aliás, se há algo que as emissoras não querem nesse momento é correr riscos com fórmulas inovadoras.

Se Amor de Mãe causa algum estranhamento é neste realismo como experiência sensorial, algo que o público não está muito acostumado a ver nas novelas, haja vista as produções dos últimos tempos.

Os que reclamam da falta de humor e vilões ou não estão acompanhando a trama de Manuela Dias, ou ainda estão anestesiados com a última atração do horário (A Dona do Pedaço), saudosos do mesmo modelo viciante de humor pastelão, tramas escapistas e personagens maniqueístas.

Reprodução/TV Globo
Ísis Valverde, Juliano Cazarré, Regina Casé, Arietha Corrêa e Clara Galinari.

Novela que o público não sabe ainda que quer

Um dos alicerces da dramaturgia da Globo é a diversidade de ofertas. Isso implica simplesmente oferecer ao público algo diferente, e não necessariamente no desejo de inovação do gênero. Eu, particularmente, ainda prefiro ser instigado e desafiado com surpresas a receber o mesmo previsível jogo de cartas marcadas. 

Ainda que repleta de vícios do gênero, Amor de Mãe é uma experiência prazerosa justamente pelos diferenciais que oferece. Finalizo com uma citação atribuída a José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni: “Dê algo que esteja adiante do espectador, não ao seu lado, menos ainda atrás”.

Ou: a televisão não deve oferecer ao público apenas o que ele quer, mas deve estar um passo além do gosto do público e oferecer o que ele ainda não sabe que quer.

Nilson Xavier assina este espaço no HuffPost. Siga-o no Twitter e acompanhe seus melhores conteúdos no site dele. Também assine nossa newsletter aqui com os melhores conteúdos do HuffPost.