ENTRETENIMENTO
18/05/2020 03:00 -03

Os hits ‘esterilizados’ da Netflix foram feitos para o mundo em quarentena

Com visual clínico e distanciamento social, “Brincando com Fogo”, “Casamento às Cegas” e “The Circle” capturam a ansiedade em relação ao contato físico e à intimidade.

HuffPost Illustration/Netflix
Imagens de "Brincando com Fogo” (à esquerda), “The Circle” (à direita) e “Casamento às Cegas” (no fundo).

O governo Trump não estava pronto para uma pandemia, mas aparentemente a Netflix estava.

A gigante do streaming não só está crescendo graças à quarentena, mas grande parte de sua programação para o próximo ano e meio já foi filmada, de acordo com a Bloomberg. “Trabalhamos com muita antecedência em comparação com o resto do setor”, disse um executivo aos investidores durante uma teleconferência recente com analistas financeiros. Enquanto as grandes redes de TV americanas foram forçadas a interromper abruptamente a produção de seus programas no meio da temporada, a Netflix tem meses de programação já prontos.

E que programação. A Netflix foi profética (ou deu sorte) ao lançar a série de documentários Pandemic: How to Prevent an Outbreak, em janeiro. Ainda mais curiosamente, seus três principais reality shows do primeiro trimestre  ― The Circle, Casamento às Cegas e Brincando com Fogo – capturam muito bem a vida da quarentena: solidão física total, namoro remoto e distanciamento social, respectivamente. São programas com conceitos isolacionistas e estéticas clínicas e frias, séries que refletem ansiedades modernas que a pandemia apenas ampliou: o medo do contato físico e a distância.

Considere Brincando com Fogo, que estreou em meados de abril e parece uma grande provocação com os solteiros cheios de tesão agora limitados a encontros via Zoom e mensagens de texto. O conceito: mais de uma dúzia de lindos jovens de 20 e poucos anos, todos adeptos de sexo casual, se isolam em um resort e descobrem que todo contato sexual é proibido. O prêmio de 100 mil dólares vai diminuindo como punição por infrações que variam de beijos a relações sexuais. Até a autossatisfação está fora de questão.

Para o elenco, as filmagens foram um treinamento involuntário para os tempos de distanciamento social, para um mundo em que quebrar as regras e tocar outras pessoas pode custar não apenas dinheiro, mas a vida. Para o público já mergulhado no isolamento, é uma reflexo bizarro da nova realidade, na qual nós, forçados a ficar em casa, observamos certas pessoas lotando praias, fazendo festas e protestando pela abertura dos salões de cabeleireiro. Alguns competidores, como Kelz “The Accountant” Dyke, se comprometeram a preservar o prêmio a todo custo – mas tiveram de assistir impotentes quando colegas menos disciplinados não resistiram à tentação de se beijar ou se pegar debaixo dos cobertores, achando que iam se safar. As consequências podem demorar, mas sempre vêm: os casos de covid-19 dispararam, o prêmio encolheu. Ninguém fica impune.

A estranha simetria entre a realidade e os lançamentos da Netflix se estende além dos conceitos das séries. A estética também evoluiu em comparação com as produções caóticas do começo dos anos 2000. Séries intencionalmente baratas, como a clássica Blind Date, deram lugar a realities de visual sofisticado. A Netflix paga relativamente bem, permitindo que as produtoras trabalhem com orçamentos maiores. Em comparação com os programas mais antigos das grandes emissoras, como The Bachelor e seus spinoffs, os reality shows da plataforma de streaming parecem polidos e limpos ― e não quebram a “quarta parede”. 

Quando cliquei no primeiro episódio de Brincando com Fogo, estava pronta para me sentir desleixada em comparação com os solteiros sedutores do programa. Quatro meses depois do parto, eu já completava um terço do ano me sentindo daquele jeito. Mas, numa estranha reviravolta, o resto do mundo passou a compartilhar da minha experiência; graças à pandemia, hordas de outros americanos de classe média haviam se juntado ao clube do moletom e do cabelo ensebado.

Na tela, eu nunca tinha sido confrontada com gente mais perfeitamente elegante. Quatorze humanos sem poros, vestindo maiôs e sungas de cores sólidas, aguentando o calor mexicano com meras sugestões de suor. Todos os pelos do corpo tinham sido cuidadosamente removidos. A maioria das mulheres sofre de “cara de no Instagram”: delineadas, borradas e com beicinhos neutros. As regras são apresentadas e aplicadas por Lana, um difusor de aromas em formato de cone que é um dispositivo de inteligência artificial (ou pelo menos é o que temos de acreditar). Se tudo parece ter saído do Instagram, incluindo os filtros, a anfitriã parece ter saído de um anúncio de uma marca de produtos de bem estar que vende diretamente para os consumidores e que poderia estar num anúncio da sua timeline.

Courtesy of Netflix
Lana, a cônica anfitriã de “Brincando com Fogo”, fica bem de cor de rosa.

Era para ser uma coisa sexy, todos esses jovens lindos e cheios de tesão juntos, sob a vigília de um cone branco e austero. A tensão do programa repousava na sensualidade desse cenário. E, para os competidores, a empata-foda Lana de fato gera uma tentação insuportável. Eles começam a quebrar as regras quase que imediatamente – sem a necessidade de flertes.

“Normalmente, se um cara é gostoso, eu jogo o cabelo, olho nos olhos e pronto”, admite Francesca Farago, uma influenciadora profissional. Depois dessa manobra, quase não sobra espaço para conversa além de referências sofridas sobre a vontade de se pegar. Mas, para mim, como espectadora, a extrema perfeição física e a postura calculada dos participantes faziam parecer implausível a ideia de sexo, como se aqueles corpos fossem macios demais para gerar atritos ou fluidos. Quando o respeitador de regras Matt Smith flerta de brincadeira com Lana, a empolgação parece a mesma de qualquer outra interação entre dois humanos que participam do programa.

Os reality shows das antigas são meio asquerosos, mas de um jeito perversamente atraente, talvez porque as produções fossem mais baratas, mas também porque isso é sinal de humanidade. No programa de namoro Bachelor in Paradise, da franquia Bachelor, as participantes são sempre vítimas da umidade, que arrepia os cabelos e derrete a maquiagem; de caranguejos, que invadem seus quartos; e da areia, que entra em todo canto. Estão sempre suadas, com a cara vermelha e descansando em móveis de madeira cobertos por almofadas de fibras naturais. Em Brincando com Fogo, parece que dá para limpar todas as superfícies do resort com um lencinho umi. Todos os estofamentos são brancos ou neon.

Os mundos dessas séries são perfeitos. As superfícies brilham; o efeito é vagamente clínico. O programa até introduz Lana, uma apresentadora-robô, em vez de admitir o fato de que os participantes vivem em um panóptico cercado por humanos: operadores de câmeras e produtores grudados na tela dos monitores.

Assistindo aos primeiros episódios de Casamento às Cegas, nos primeiros dias do isolamento, fiquei impressionada com a esterilidade do set. Os participantes não só estão fisicamente separados de seus interesses românticos, flertando através de paredes de vidro opacas, como os arredores são frios e institucionais. Muitos reality shows de namoro são filmados em mansões ou resorts ― lugares projetados para morar. O set de Casamento às Cegas é um espaço projetado para exibiçã: nas áreas comuns compartilhadas por homens e mulheres, enormes pés-direitos e linhas limpas; nos casulos de namoro, tecidos metálicos suaves e painéis nas paredes. É tudo ao mesmo tempo aconchegante e desanimador. Aquilo parece um estúdio ou talvez um escritório sofisticado. Todo raio de luz é artificial, como se o programa fosse filmado no subsolo. Em uma entrevista ao Refinery29, Kenny Barnes revelou que, quando não estavam nas cápsulas, os participantes dormiam em trailers, em “camas de prisão”.

Courtesy of Netflix
Dois participantes de “Casamentos às Cegas” em suas cápsulas.

Depois de os participantes se apaixonarem e ficarem noivos, eles podem sair de suas cápsulas e continuar o namoro pessoalmente, primeiro em uma escapada romântica no México e depois em apartamentos em Atlanta. Mas as cápsulas definem o programa. Quando começaram as restrições de circulação nos Estados Unidos, logo depois da estreia da série, fãs e críticos rapidamente notaram como era adequado o tema do namoro remoto em meio à pandemia. Será que alguém consegue se apaixonar sem ter a chance de ver a outra pessoa em carne e osso ou de cheirar seus ferormônios? Os resultados não são conclusivos; ainda não se sabe quando os casais serão liberados para passar um fim de semana sensual num resort mexicano.

Enquanto isso, muitos de nós seguimos confinados em casa sempre que possível. E, no entanto, a estética institucional desses programas, talvez projetada para falar com a geração millennial, que mora em apartamentos minimalistas e trabalha em lofts descolados, parece particularmente acertada para um momento em que nossos corpos habitam apartamentos bagunçados, mas nossa as mentes estão em outro lugar ― em hospitais e casas de repouso, em armazéns e fábricas frequentemente desinfetados em nome da segurança dos funcionários, como garantem os que os e-mails corporativos. 

Brincando com Fogo e Casamento às Cegas são perfeitos para os dias de hoje por acaso, mas faz sentido. A vida em quarentena geralmente parece uma brincadeira cruel com as ansiedades em relação à modernidade e à nossa vida cada vez mais online (apesar de nos importarmos demais com a atração sexual superficial). Em vez disso, esses programas impõem um mundo no qual somos desafiados a aprofundar esse isolamento com o objetivo de construir laços mais fortes e profundos.

The Circle, um reality muito popular tanto no original britânico quanto na versão da Netflix, foi lançado em janeiro, embora agora seja entendido de maneira diferente. Os competidores ficam confinados em suas suítes individuais durante toda a competição. Cozinham para si mesmos, abraçam-se com bichos de pelúcia e se comunicam com os outros em uma plataforma digital chamada The Circle. Eles constroem perfis simplificados, e as oportunidades para postar fotos e atualizações são estritamente racionadas. As alianças são construídas pelo chat, e o objetivo é ter as melhores avaliações possíveis dos outros participantes. Alguns jogam como eles mesmos, outros usam fotos que eles acham que renderão números melhores (geralmente mulheres gostosas).

Na privacidade de seus quartos, alguns relaxam de moletom, outros usam figurinos completos, como se estivesse posando para fotos do Insta; os quartos parecem suítes intencionalmente descoladas e com a decoração barata de um anfitrião de Airbnb. Embora o visual seja mais refinado que o dos realities de antigamente,  série é mais acolhedora que Brincando com Fogo ou Casamento às Cegas, incluindo a rede social onde os participantes passam a maior parte do tempo. 

Courtesy of Netflix
Seaburn Williams, que se apresenta como “Rebecca”, com seu melhor amigo na versão internacional de “The Circle”.

O isolamento dura só cerca de duas semanas, mas os efeitos são sentidos. Seaburn, que joga usando fotos da sua namorada deslumbrante, dorme com uma foto dela. Depois de vencer uma prova, vários participantes recebem mensagens em vídeo de suas famílias; a maioria chora. Embora suas amizades, surpreendentemente, se tornem reais, algo se perde na tradução entre tela e realidade. A cada um ou dois dias os produtores organizam eventos em grupo, como um concurso de decoração de bolos ou uma festa. Observar cada morador comer uma pizza individual, tomar um drink e dançar sozinho poderia ser interpretado como a distração representada pelas redes sociais. Hoje, na era de ouro das festas via Zoom e do último adeus via FaceTime, a cena só dói.

A atualidade bizarra dessas série é, em parte, uma simples questão de timing. Muitos reality shows têm algum parentesco com a quarentena. Os participantes muitas vezes ficam isolados juntos por semanas a fio, impedidos de sair ou de se comunicar com família e amigos. Movimentos e interações si são artificialmente restritos. Não é de admirar que os fãs de The Bachelor estejam fofocando sem parar sobre quem está de  quarentena com quem ― essas estrelas dos reality shows ficaram famosas justamente pela maneira como interagiam com os colegas de confinamento.

É como se os americanos ricos e de classe média, com nossas assinaturas Amazon Prime e contas nos aplicativos de entrega de comida, já estivessem se preparando para uma vida em que não pudéssemos sair de casa. Uma vez mergulhados nessa realidade, nós, como os participantes dos programas, percebemos rapidamente: uma coisa é se livrar das obrigações do dia-a-dia. Outra coisa é manter distância dos outros.

Os visuais estéreis e elencos bem cuidados tornam esses programas mais profundamente impactantes numa época em que as pessoas se perguntam se a barba torna as máscaras menos eficazes. Supondo, é claro, que tenhamos uma máscara para usar.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.