MULHERES
13/10/2020 03:00 -03 | Atualizado 13/10/2020 03:00 -03

Mulheres contam o que suas amigas fizeram para mantê-las sãs durante a quarentena

Muitas mulheres se adiantaram para ajudar outras mulheres quando o mundo começou a enlouquecer.

Dishka via Getty Images

Em março deste ano, enquanto a Índia se preparava para entrar em lockdown em sua guerra contra o coronavírus, Sony encarou um desafio diferente. Ela ia e vinha de clínicas veterinárias todos os dias com seu cachorrinho Akki nos braços, tentando de tudo para salvar sua vida. Mas em 22 de março, o dia em que foi decretado o “Toque de Recolher Popular”, seu cachorro morreu, deixando Sony de luto e com 15 anos de recordações de seu cãozinho.

Forçada a ficar em casa nos meses seguintes, ela enfrentou a dor com pouca coisa para se distrair e poucos amigos com quem compartilhar seus sentimentos. Mas no início de maio, Sony recebeu uma ligação de uma amiga querida, Mira, que lhe pediu para ir à porta de sua casa em Andheri, na Índia, por alguns instantes. “O lockdown estava sendo duro para todas nós. Com nossa vida social reduzida a zero,  achei que ela queria me encontrar nem que fosse apenas por alguns instantes”, comentou Sony. Mas o que a aguardava era uma surpresa que ela não poderia haver previsto. Mira lhe trouxera Angel, uma filhotinha simpática resgatada da rua após um acidente.

As amizades com outras mulheres são intensamente terapêuticas para as mulheres. As amigas as acompanham em várias etapas da vida – quando estão superando relacionamentos tóxicos e partindo para outra, quando estão mudando de casa, passando por doenças, se casando, tendo filhos. Nos momentos de dor física ou emocional, as mulheres muitas vezes encontram em suas amigas alguém que as ouve, que as critica com empatia e lhes proporciona um sistema de apoio. Com a pandemia, o lockdown, o medo do desconhecido e às vezes a sobrecarga esmagadora do trabalho, falta de espaço e tarefas domésticas, elas oferecem um apoio enorme às suas amigas e cumprem o papel primordial para ajudar a manter a saúde mental e emocional.

Corações partidos e superações

“Sabendo de minha ligação muito forte com Akki, Mira entendera o quanto eu estava sentindo a falta dele. Ela achou que ter Angel por perto me ajudaria a lidar com a dor”, conta Sony, 34 anos.

Sony acabou tendo que recusar o presente de Mira, porque precisava de tempo para superar a morte de Akki. Mas o gesto de sua amiga a comoveu imensamente. Angel acabou sendo adotada por Mira, que havia antevisto essa possibilidade. “Um pet não pode tomar o lugar de outro, mas é fato que os cães têm o poder de nos ajudar a superar sofrimentos. Foi nisso que pensei quando peguei Angel para dar a Sony. O lockdown havia deixado a vida dela mais difícil, e eu esperava que Angel pudesse ajudá-la a passar por isso. E ao mesmo tempo aquela cachorrinha ganharia um lar acolhedor”, diz Mira.

Seguindo a psicóloga Sujata Sharma, cada um de nós vem tendo que enfrentar sentimentos de perda durante estes meses deprimentes. “Para algumas pessoas, como Sony, a perda é pessoal. E há as pessoas que perderam seus entes queridos para o coronavírus. Muitas perderam seus empregos ou estão tendo que aprender a viver com salários reduzidos. E além de tudo isso, há a perda de normalidade e do senso de comunidade que é tão importante para nós, como humanos”, ela disse.

O que agrava a situação, diz Sharma, é que estamos tendo que lidar com tudo isso sozinhos, tentando levar a vida adiante encerrados em nossas casas. “Nesses momentos, mesmo o menor gesto inesperado é capaz de nos dar ânimo renovado. A intimidade sentida nesses gestos nos confere um senso de normalidade.”

Alimento para o coração

Na manhã de seu aniversário, este mês, as amigas de Janaki, uma jornalista de Mumbai, mandaram entregar em sua casa um café da manhã com croissants amanteigados e bolo. Janaki diz que foi o melhor presente que recebeu nesse dia. “São muito meses de quarentena, e cada dia parece idêntico ao dia anterior ou ao dia seguinte”, ela comentou. “Não há nada pelo que ansiar.” Então, depois de tantos dias de trabalhos domésticos e de preparar seu próprio café da manhã, quando algo tão simples e simpático quanto um café da manhã pronto foi entregue à sua porta logo cedo pela manhã, Janaki adorou.

No caso de Megha, uma amiga lhe deu a recordação que ela sabe que vai guardar para sempre no coração. Megha estava feliz com o sucesso de seu filme de estreia como diretora, What Are the Odds?, lançado na Netflix em maio, mas ninguém havia vindo festejar com ela, já que ela está vivendo sozinha. Até que sua amiga Sugandha chegou com uma garrafa de champanhe para celebrar a ocasião. “Ela vive perto de mim, mas o fato de ter vindo de carro para festejar comigo foi muito doce. Foi uma noite muito bacana, com distanciamento social, que passamos no carro dela, festejando um marco importante em minha vida”, contou Megha. Na realidade, o carinho de suas amigas, com suas chamadas de vídeo regulares, manteve Megha animada durante todo o lockdown.

Janaki acha que muitas vezes são as amigas que nos entendem melhor que ninguém. “As suas melhores amigas já te viram sem filtros, como você realmente é. Ou seja, já viram você em seus piores momentos e sabem o que pode te ajudar a se recuperar”, ela comenta.

Megha estava feliz com o sucesso de seu filme de estreia como diretora, ‘What Are the Odds?’, lançado na Netflix em maio, mas ninguém viera festejar com ela, já que ela está vivendo sozinha.

Não havia planos nem possibilidades de promover um casamento cheio de pompa e cerimônia, e Ridhima não estava incomodada com isso. Mas a ideia de que a maioria de seus amigos e familiares não faria parte desse momento tão importante de sua vida era decepcionante, sim. Mesmo assim, Ridhima se conformou. Durante a cerimônia, porém, as organizadoras mostraram um vídeo com as pessoas de quem ela mais gosta – amigos, parentes, primos, colegas de trabalho ―, e Ridhima ficou emocionadíssima. “Eu sabia que estavam todos acompanhando o casamento pelo Zoom, mas aquela parte foi uma surpresa total para mim. Todos estavam dando os parabéns a Sundeep e eu e compartilhando suas recordações de nós. E algumas de minhas melhores amigas tinham tramado com minha cunhada para montar o vídeo. Elas editaram as imagens tão lindamente que minha sensação foi que estavam todas ali comigo, ao meu lado”, diz Ridhi.

Uma demissão e um novo começo

Namrata, 26 anos, viveu algo semelhante ao que aconteceu com Janaki. Ela conta que passou momentos difíceis quando perdeu o emprego no setor de tecnologia de Bengaluru e foi obrigada a voltar à cidade de seus pais, em Jamshedpur. “Eu sabia que muitas pessoas em todo o país estavam sendo demitidas devido à recessão econômica provocada pela pandemia”, disse Namrata. “Mas é difícil não encarar isso como algo pessoal quando acontece com você.” Durante semanas ela se sentiu como uma “loser”, uma fracassada, e repetia a si mesma que perdera o emprego por incompetência sua, sendo que na realidade as demissões tinham sido baseadas nos salários dos profissionais e as implicações para a empresa.

Alguns dias depois de voltar para sua casa Namrata começou a se isolar mais e mais. Ela achava insuportável comunicar-se com amigos ou familiares. Começava a chorar a qualquer hora do dia.

Um dia ela recebeu um e-mail da London Film Academy. “O e-mail continha um vale para aulas online de redação de roteiros a ser dadas por Michael Holden, que minha amiga havia reservado para mim. Foi inacreditável, porque eu estava querendo estudar redação de roteiros, mas não tinha nem a coragem nem o dinheiro para fazer os cursos”, disse Namrata.

Mas sua amiga Shruti sabia que era o momento certo para Namrata correr atrás de seu sonho. Ela só precisava de um empurrãozinho. “Ela fez o esforço e gastou seu dinheiro próprio, ganho a duras penas, para que eu pudesse me sentir melhor”, disse Namrata. Desde então, ela vem gastando o tempo que tem estudando algo que ela sempre quis fazer.

Namrata acha que um gesto tão generoso só poderia ter vindo de Shruti. “Para começar, ela é uma das poucas pessoas que sabia desse sonho que eu alimentava em segredo. Em segundo lugar, é preciso muito amor, compreensão e conhecimento do que me faz ficar feliz ou triste. E ela é uma das poucas pessoas que têm tudo isso.”

Mira, 39 anos, acha que quando é um gesto feito para uma amiga querida que você odeia ver sofrer, vale a pena. “Eu estava em contato com várias pessoas para adotar um cachorrinho para mim mesma. Mas quando deparei com fotos de Angel, que estava se recuperando do acidente, achei que havia algo de especial nela. Me pareceu que Sony e Angel poderiam se tornar companheiras perfeitas, que uma ajudaria a arrancar a outra de seu respectivo sofrimento”, relata Mira. Feliz por ficar com Angel, ela própria, Mira diz que, quando chegar a hora certa, vai gostar de encontrar outro pet para Sony que sua amiga possa amar.

Em muitos casos, não é grandiosidade de um gesto, mas o carinho e atenção por trás dele que são o bastante para alegrar as pessoas que amamos. O psicoterapeuta Gagandeep Singh acha que frequentemente as mulheres estão mais equipadas para demonstrar esse carinho e atenção, especialmente nos laços que formam com outras mulheres. “As mulheres manifestam mais empatia que os homens e são capazes de se relacionar com outras mulheres em torno de experiências compartilhadas. Com menos inibições entre elas, conseguem doar-se mais livremente”, ele comenta.

Novos aprendizados

Quando S*, professora escolar em Kolkata, ficou sabendo pelo telefone do ataque de pânico que sua filha sofrera durante o lockdown, ficou perplexa. Com 62 anos, sabia que sua filha de 35 se estressava facilmente, mas não conhecimentos científicos sobre saúde mental. Na internet, só o que S sabia fazer era olhar o que aparecia nas contas de Facebook, Instagram e WhatsApp que seus filhos haviam criado para ela.

Sua filha explicou por alto o que acontecera e lhe contou que precisava tomar medicamentos – mas S não entendeu nem um pouco do que estava acontecimento. Sua filha, jornalista que vive em Délhi, estava exausta demais para explicar. Pela primeira vez, S ficou sem saber que doença atacara sua filha. Foi uma sensação desconhecida, assustadora e que lhe tirou o sono.

Seu marido tampouco entendeu e concluiu que a filha deles “se preocupava demais”. Então S telefonou à sua melhor amiga, R*, bancária que vive numa cidade pequena na periferia de Calcutá. Tampouco R conseguiu entender o que estava acontecendo com a filha de S. Esta disse a R: “Eu acordava todo dia me sentindo quase culpada por ter pego no sono. E se tivesse acontecido alguma coisa com minha filha e eu não ficasse sabendo?”

S e R haviam feito faculdade juntas, e R naquela época, R frequentemente se irritava com S sem motivo, passava dias se sentindo triste e ansiosa sem saber por quê. “S não entendia por que eu fazia aquilo, mas ela nunca perdeu a paciência comigo. Simplesmente supunha que eu estava aflita e ficava do meu lado, com calma”, contou R. Assim, dessa vez, quando S ficou sem saber o que fazer, R, um pouco mais hábil em usar a internet, fez uma busca por sintomas de “ataque de pânico”, leu sobre o assunto em inglês e bengali e então, depois de dois dias, em um telefonema longo com S, explicou a ela o que teria acontecido com sua filha.

Quando S ficou sem saber o que fazer, R, um pouco mais hábil em usar a internet, fez uma busca por sintomas de ‘ataque de pânico’, leu sobre o assunto em inglês e bengali e então, depois de dois dias, em um telefonema longo com S, explicou a ela o que teria acontecido com sua filha.

“Quando telefonei à minha filha e perguntei se era isso o que ela estava sentindo, algumas das coisas coincidiram exatamente. E ela começou a se abrir um pouco comigo. Antes disso ela apenas havia dito que estavam sem energia para explicar. Mas agora ela achou que eu conseguiria entender”, disse S. Ela e R conversavam diariamente, liam links e checavam com seus outros filhos para ver se aqueles links eram genuínos.

Como disse Singh, S não conseguiu buscar apoio em seu marido. Foi uma amiga quem deu seu tempo e se deu ao trabalho de compreender algo que para S era incompreensível.

Surabhi, 23 anos, várias décadas mais jovem que S, teve uma experiência semelhante. Desde que o lockdown começou, ela está vivendo com uma colega de trabalho. Pelo menos três vezes por semana essa bancária de Gurgaon tem que ir ao trabalho. Ali, com um quadro de funcionários reduzidos, ela teve que assumir mais responsabilidades e não tem tempo sequer para fazer um intervalo ao longo do dia. Sem contar com empregada, nos finais de semana ela apela para alguma comida pronta e fácil e procura descansar a cabeça. “Nos meus dois dias de folga, só o que consigo fazer é assistir a alguma coisa na Netflix, fazer videocalls com amigos e familiares, cozinhar alguma coisa simples e fazer um pouco de faxina. É exaustivo, porque não posso sair para lazer nem posso estar em casa sem estar constantemente pensando no trabalho”, ela explica. E cada vez que conversa com amigas que voltaram para a casa de seus pais para passar a quarentena com eles, Surabhi não consegue deixar de sentir inveja delas. “Estou com saudades da casa dos meus pais.”

Um mês atrás, quando os serviços de delivery voltaram a funcionar, sua amiga Nethra, 24 anos, mandou entregar uma marmita de comida caseira na casa de Surabhi no domingo. Agora isso virou hábito semanal. “Me senti muito melhor simplesmente por poder comer uma refeição saudável sem precisar ir para a cozinha”, ela conta. “A primeira vez que a marmita chegou, de surpresa, eu literalmente chorei. A pandemia tem muitos aspectos negativos, mas me levou a dar mais valor a muitas coisas, e no topo dessa lista estão minhas amigas.”

*Os nomes foram omitidos a pedido das pessoas em questão.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost India e traduzido do inglês.

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