NOTÍCIAS
23/08/2019 07:50 -03 | Atualizado 25/08/2019 18:43 -03

Incêndio na Amazônia aponta perigo da desregulamentação em meio à mudança climática

Enquanto as queimadas ardem no País, Bolsonaro não apresenta política para proteção do meio ambiente e das populações indígenas.

Ueslei Marcelino / Reuters
Os incêndios desta semana produziram cenas apocalípticas.

Jair Bolsonaro assumiu a Presidência prometendo abrir a Floresta Amazônica para os negócios, reduzir as proteções ao meio ambiente e às populações indígenas e encher o governo de ideólogos que consideram a mudança climática um boato marxista.

Mas os incêndios florestais recordes que atingem a Amazônia são um lembrete doloroso do que está em jogo. As políticas de Bolsonaro permitem que fazendeiros, madeireiros e mineiros destruam a maior floresta e o maior repositório de dióxido de carbono do planeta em ritmo acelerado.

Os incêndios desta semana produziram cenas apocalípticas. A fumaça viajou mais de 2.000 quilômetros e chegou ao Sudeste do país, escurecendo o céu sobre São Paulo, maior cidade do hemisfério ocidental.

É apenas um forte indicador do que as pesquisas apontam como um ano de crescimento exponencial em queimadas na Amazônia. Imagens de satélite do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram um aumento de 84% em relação ao mesmo período do ano passado.

O desastre tem paralelos sinistros com as tempestades e incêndios históricos que abalaram os Estados Unidos em 2017, quando o então recém-eleito Donald Trump começou seu ataque às regulamentações ambientais e anunciou o plano de retirar o país dos acordos de Paris.

Incêndios são comuns na época de seca na Amazônia, mas este não tem sido um ano especialmente seco nem com muitos ventos, afirmam os especialistas – ou seja, o fogo provavelmente foi iniciado por fazendeiros em muitos casos. E muitos defensores do meio ambiente apontam para a rápida destruição da floresta como um dos motivos pelos quais os incêndios têm se espalhado tanto.

“Não é vingança da natureza; é algo muito, muito humano”, diz Nurit Bensusan, do Instituto Socioambiental, ONG de Brasília que defende a conservação do ambiente e os direitos dos indígenas. “É um sinal de que vem coisa pior por aí.”

Corpo de Bombeiros de Mato Grosso via ASSOCIATED PRESS
Foto de drone divulgada pelo Corpo de Bombeiros de Mato Grosso, na terça, mostra caminhão combatendo as chamas.

O Inpe registrou um aumento de 88% no desmatamento em junho, em comparação com o mesmo mês do ano passado. É uma mudança notável. No fim da década passada, o Brasil reduziu o desmatamento de forma dramática, enquanto a economia crescia a cerca de 8% ao ano. Mas, com a desaceleração econômica, a área desmatada passou a aumentar, particularmente a partir de 2015, quando Dilma Rousseff era presidente. Em 2017, sob Michel Temer, houve uma queda de 12% no índice de desmate, mas no ano seguinte a taxa voltou a subir.

Bolsonaro acelerou a tendência. O presidente, que contou com o apoio da indústria agrícola para vencer a eleição do ano passado, relaxou ou tentou eliminar as proteções ambientais da Amazônia, e agora o Brasil derruba árvores num ritmo equivalente a um campo de futebol por minuto. Em julho, a Amazônia perdeu 1.350 quilômetros quadrados de floresta – uma área mais ou menos do tamanho da cidade de Los Angeles. No começo deste mês, o presidente demitiu o chefe do Inpe, no que foi visto como retaliação pela divulgação de dados que conflitavam com a agenda do governo.

A demissão foi um dos atos mais descarados de Bolsonaro. Antes da posse, ele indicou Ernesto Araújo, um diplomata que denunciou a “ideologia” esquerdista do “climatismo” para o Itamaraty. Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente, questionou a responsabilidade das emissões de gases do efeito estufa no aquecimento global e fez piada com ambientalistas assassinados. Quase imediatamente após tomar posse, o presidente passou a gestão da Funai para o Ministério da Agricultura, nas mãos de um aliado do agronegócio. Seu governo tirou a força das agências de defesa do meio ambiente e acelerou a aprovação de novos pesticidas.

O ritmo acelerado do desmatamento, alertam os especialistas, está levando a Amazônia a um ponto limite, depois do qual ela pode nunca mais se recuperar – justamente o que preocupava os cientistas numa gestão Bolsonaro.

“Quando Bolsonaro desencoraja as autoridades de impedir o desmatamento, ele está mandando uma mensagem para aqueles que estão interessados em destruir a Amazônia”, diz o deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ), em mensagem via WhatsApp. “Bolsonaro ignora dados e fatos científicos e foca em suas crenças pessoais. Isso é absolutamente irresponsável! As consequências dos atos do presidente serão sentidas por todo o planeta.”

Um dos motores do desmatamento é o apetite do mundo por carne vermelha. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de carne bovina, depois dos Estados Unidos. Desde antes de Bolsonaro, as grandes empresas do setor já vinham criando gado em áreas protegidas com relativa impunidade, segundo uma investigação conjunta feita pelo The Guardian, Repórter Brasil e Bureau of Investigative Journalism. 

Mais de um quarto do desmatamento ocorrido globalmente entre 2001 e 2015 se deveu à conversão de terras para a produção de commodities como carne bovina, soja e madeira, segundo um estudo do ano passado publicado por pesquisadores americanos.

Bolsonaro ignora dados e fatos científicos e foca em suas crenças pessoais. Isso é absolutamente irresponsável! As consequências dos atos do presidente serão sentidas por todo o planeta.Alessandro Molon, deputado federal (PSB-RJ)

A crise no Brasil é exatamente o tipo de exploração do meio ambiente que deve acabar se o mundo quiser evitar as consequências catastróficas do aumento da temperatura global, afirma um relatório da ONU publicado este mês. Até 76% das terras não cobertas por gelo foram alteradas pelos humanos. E agricultura, exploração madeireira e outros usos da terra são responsáveis por cerca de 23% das emissões de gases causadores do efeito estufa, de acordo com o estudo.

Florestas como a Amazônia são essenciais para limitar o aquecimento no futuro, como deixou claro outro relatório do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática, também da ONU.

“A Amazônia não só contém enormes estoques de carbono, mas regula regimes climáticos locais e regionais”, disse James Watson, diretor de ciências e iniciativas de pesquisa da Wildlife Conservation Society, em um email recente ao HuffPost. “Há evidências claras de que, quando ela se degrada, há mais secas, mais incêndios e mais liberação de carbono, um ciclo vicioso que não tem volta.”

Apesar de outros países, incluindo os Estados Unidos, não tomarem as medidas necessárias para lidar com a questão da mudança climática, a rápida destruição da Amazônia transformou Bolsonaro no maior vilão global do movimento ambientalista. Noruega e Alemanha suspenderam doações de milhões de dólares destinados à proteção da floresta.

Bolsonaro também foi alvo de protestos de ativistas do meio ambiente e dos direitos humanos em abril. Ele iria a Nova York receber em um evento realizado no Museu de História Natural, que acabou sendo cancelado depois das críticas recebidas pela instituição.

Eraldo Peres/ASSOCIATED PRESS
Bolsonaro em discurso esta semana, em Brasília.

Mas Bolsonaro tenta usar a pressão como arma a seu favor. Ele usa a velha preocupação dos brasileiros da suposta perda de soberania nacional quando fala dos esforços globais de preservação da Amazônia. E os defensores do meio ambiente seriam meros agentes de forças globalistas ou de esquerda.

“Isso parece ser um ponto central das crenças do presidente. Não se trata apenas da mudança climática – também tem a ver com globalismo, soberania e desenvolvimento econômico”, diz Oliver Stuenkel, professor de relações internacional da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. “Para o presidente, se você acredita [na mudança climática], é uma conspiração para impedir que o Brasil se desenvolva. ... E ele sabe que isso causa agonia e ultraje na oposição internacional.”

Depois das decisões de Noruega e Alemanha, o presidente respondeu insultando os líderes dos dois países. O presidente criticou a cobertura da imprensa nacional e internacional sobre o assunto e atacou ex-ministros do Meio Ambiente – oito dos quais assinaram uma carta este ano afirmando que suas políticas estão aumentando a devastação da floresta ―, afirmando se tratar de fake news, versão que seus apoiadores mais ferrenhos se apressam em disseminar. 

“A Amazônia é nossa”, disse Bolsonaro numa entrevista com jornalistas estrangeiros no mês passado. “Nenhum país do mundo tem o direito moral de falar da Amazônia. Vocês destruíram seus próprios ecossistemas.”

Na quarta-feira, o presidente voltou ao seu hábito de falar em teorias da conspiração, sugerindo que movimentos de defesa do meio ambiente possam estar começando os incêndios com o objetivo de desacreditá-lo.

“A Amazônia está em chamas. O presidente diz que ONGs podem estar por trás disso. A falta de compromisso com a verdade é uma patologia crônica”, escreveu Silva. “Essa postura irresponsável só agrava a emergência ambiental no Brasil.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.