LGBT
25/06/2019 07:26 -03

O designer de games que quer transformar uma drag queen no próximo Mario

Concorrendo a prêmio no BIG Festival, José Henrique Oliveira tem planos ambiciosos para seu alter-ego, a drag Amanda Sparks.

Justin Aleh/Divulgação
Amanda Sparks é drag representada por desenvolvedor José Henrique Oliveira.

Na disputa com mais outros três games em uma das categorias do BIG Festival, maior festival de jogos independentes da América Latina que acontece em São Paulo de 27 a 30 de junho, Spikes on High Heels é a nova investida do designer de jogos José Henrique Oliveira. Seu ambicioso plano é transformar seu alter-ego, a drag queen Amanda Sparks, em um personagem do tamanho do encanador bigodudo Mario, símbolo da gigante Nintendo e um dos maiores ícones do mundo dos games.

A tarefa, claro, é das mais complicadas. Mas nada que abale esse carioca de 36 anos que desenvolve games nas horas vagas, quando não está trabalhando como motion designer em uma agência de publicidade na capital paulista, fazendo cosplay de seus personagens preferidos em feiras e encontros de cultura nerd/geek, ou se apresentando como a drag Amanda Sparks. 

“Comecei a me montar em 2011 com umas amigas minhas. Na época eu já fazia jogos para me divertir, sem pensar em lançar comercialmente. Até que um dia, um amigo falou brincando: ’por que você não faz um Flappy Drag Queen?’. Acabei fazendo e tive a sorte de lançar o jogo um dia depois que o cara que lançou o Flappy Bird tirou o jogo da plataforma. Meu jogo acabou pegando a onda de popularidade do original e teve uns 100 mil downloads de cara. Aí as pessoas começaram a me conhecer de verdade.”

Desde Flappy DragQueen, uma paródia de Flap Bird, jogo que se tornou viral em março de 2013, Henrique não parou mais e passou a levar a sério sua empreitada por meio de seu próprio selo, o Amandapps

“Sempre foi um sonho fazer meus próprios jogos. Cresci jogando Mario, Alex Kid, Sonic. E como na época eu, como drag, era um pouco mais conhecido do que hoje, pensei: ‘por que não lançar jogos como eu como personagem principal?’. Eu nunca tinha visto um jogo que tivesse um personagem drag queen. É um mundo tão lúdico, tão cheio de referências que eu achei que podia sair muita coisa divertida daí. E é uma questão de diversidade também. De preencher um espaço necessário”, explica Henrique.

Passando fases pela diversidade

Divulgação
"Faço cosplay. Costuro minhas roupas, modelo minhas perucas… É difícil, mas vale a pena. É uma vida tripla! E ainda arranjo tempo para jogar."

Foi aí que surgiu Sparks and the Shade Forest, jogo lançado em dezembro de 2015, influenciado pelo reality show RuPaul’s Drag Race e pelas próprias experiências de Henrique. “RuPaul’s Drag Race é uma grande referência. Passei a me montar inspirado no programa. O Forest foi meu primeiro jogo com a temática drag queen, usando a Amanda Sparks como personagem.”

E é exatamente esse espaço que a categoria que o novo jogo de Henrique (Spikes on High Heels) está concorrendo quer ajudar a consolidar. Aliás, o BIG Diversity é bem mais que apenas um prêmio, mas um vertical com temática de diversidade dentro do festival, que discute a questão não só pelo viés de gênero, mas também racial, de inclusão de pessoa com deficiência e maiores de 60 anos, vistos como “intrusos” nesse mundo.   

O universo dos games ainda sofre muito com um ambiente agressivo e preconceituoso por parte de muitos gamers, diz Henrique. “Esse ambiente ainda é absurdamente machista. Eu sinto que os gamers que são os que reclamam de representatividade, se sentem ameaçados. Não sei por quê. Por estarem perdendo o ‘espacinho’ deles que já é tão grande? Estamos pegando uma fatia tão pequenininha, e eles esbravejam como se estivessem sendo ameaçados.”

Jogando e sonhando de salto alto

Os jogos são parte tão importante da vida de Henrique que suas criações, mesmo que tenham muitos elementos lúdicos sem ligação aparente com a realidade, têm muito de sua própria história. 

“Sou filho de militar. Por causa disso, sempre mudei muito de cidade. Vivi até os 12 anos no Rio de Janeiro. Lá eu tinha muitos amigos. Mas quando meu pai mudou, tive de mudar de escola. Foi aí que eu comecei a sofrer bullying. Não tinha amigos e acabei me fechando. Passei a jogar videogame o dia todo. Já nessa época, influenciado pelos games, comecei a fazer meus próprios jogos de tabuleiro. Mas não tinha ninguém para jogar comigo. Depois passei a ter mais acesso a computador, à programação e comecei a fazer fan games. Do Sonic, de Sailor Moon. Isso foi em 1999, 2000. Desde então, fui aprimorando minhas técnicas na prática mesmo”, explica Henrique.

Spikes on High Heels, por exemplo, pode dar a entender que nada tem de sua trajetória pessoal, mas como o próprio Henrique conta, ele não é “apenas” um jogo de vôlei.

“Sempre quis jogar vôlei, mas nunca tive tamanho para jogar na vida real. Por que não então fazer eu mesmo um jogo de vôlei em que eu pudesse realizar esse sonho? Sempre me interessei pelo desafio de fazer um jogo de vôlei pela mecânica do jogo, que é bem complexa, desafiadora. E achei que seria uma brincadeira legal colocar drag queens jogando vôlei de salto alto. Só no mundo do videogame isso é possível, e eu poderia tornar isso possível”, conta Henrique. 

Pelo prêmio BIG Diversity, Spikes on High Heels concorre com o também brasileiro Huni Kuin: Yube Baitana, o sul-africano after HOURS, e o americano  She Dreams Elsewhere. No entanto, muito mais do que o prêmio em si, Henrique vê essa oportunidade como mais um degrau de seu ambicioso sonho.

“Foi uma surpresa ser selecionado. Estou muito feliz. Estarei lá no dia da premiação com toda a certeza. De Amanda, claro. E com um tablet na mão obrigando as pessoas a jogarem meus outros jogos. Melhor, ameaçando as pessoas a jogarem meus outros jogos [risos]”, brinca Henrique.

Ele está desenvolvendo alguns jogos novos — uns menores, outros maiores. “Vamos ver se eu consigo lançar alguns deles até o final do ano. Eu quero fazer da Amanda Sparks o próximo Mario”, finaliza.