MULHERES
04/02/2019 07:45 -02

Por que é tão difícil lidar com a culpa sobre parar de amamentar

Quando é OK parar de amamentar? Quando você sentir a necessidade.

kieferpix via Getty Images
A Academia Americana de Pediatria recomenda que a amamentação seja a alimentação exclusiva dos bebês durante os 6 primeiros meses de vida do bebê, mas a maioria das americanas não chega nem perto dessa meta.

Os problemas de Stephanie Walton com a amamentação começaram logo depois do nascimento do seu primeiro filho. Ela teve de fazer uma cesariana de emergência e teve de esperar horas até dar de mamar pela primeira vez.

Quando finalmente conseguiu, o bebê pegou o peito com tanta força que os mamilos começaram a sangrar. Amamentar foi um desafio nos primeiros dias. O bebê perdeu 13% do peso nos primeiros cinco dias de vida. Walton teve uma infecção e mastite (inflamação do seio que causa dor intensa).

Mas os médicos, enfermeiros e seu marido insistiram para que ela continuasse tentando, e foi o que ela fez.

Toda vez que o bebê chorava de fome, ela usava uma fórmula para complementar o leite materno. Ela também tomou metoclopramida, remédio usado para aumentar a produção de leite. Ela bombeava antes e depois de cada amamentação e dava de mamar a cada duas horas, mesmo que isso significasse acordar o bebê e sacrificar suas preciosas horas de sono.

A luta da amamentação era exaustiva. Durante meses, Walton raramente dormiu mais que uma hora seguida. Aí veio a depressão.

“A amamentação me fez sentir como seu eu odiasse meu filho”, diz Walton, mãe de três. “Às vezes eu estava em casa sozinha e ele começava a chorar. Eu pensava: ‘Ai, não, por favor, não. Não quero ter de amamentar’. E isso me deixava extremamente culpada.”

(A depressão é um dos possíveis efeitos colaterais da metoclopramida.)

 As mães não se cansam de ouvir que a amamentação é essencial. O objetivo é claro. A Academia Americana de Pediatria recomenda que a amamentação seja a alimentação exclusiva dos bebês durante os 6 primeiros meses de vida e continuem amamentando por um ano ou mais, complementando com comidas sólidas. A AAP aponta benefícios como menor risco de contração de infecções.

Muitas mulheres acham que são as únicas que não cumprem essa recomendação, mas isso está longe de ser verdade.

Mais de 80% das mães dos Estados Unidos começam a amamentar, um avanço em relação a décadas passadas, mas apenas 58% continuam depois de 6 meses, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. E, a esta altura, somente 25% alimentam os bebês exclusivamente com leite materno.

Existem muitas razões para que as mulheres não deem de mamar ou não mantenham a amamentação como alimentação exclusiva de seus filhos – questões como bebês que não pegam o peito, dor, baixa produção de leite, problemas médicos, a necessidade de voltar ao trabalho ou simplesmente uma decisão deliberada. A maioria das mulheres sente os impactos físicos, logísticos e emocionais de manter outro ser humano vivo com o leite produzido em seu corpo.

Tudo isso significa que existe um abismo entre as recomendações médicas e o que as mulheres efetivamente fazem. E isso abre espaço para sensações de culpa e vergonha, num momento da vida das mães em que elas estão vulneráveis.

Essas sensações podem dominar os primeiros meses da maternidade, o que aumenta o risco de problemas de saúde mental pós-parto – mesmo que ganhem destaque as ideias de que a alimentação é o que importa, não necessariamente a amamentação, e de que temos de levar em conta também os desejos e a saúde mental da mulher.

“Quando fiquei grávida de novo, tive de fazer terapia, porque parecia que estava sofrendo de estresse pós-traumático depois do primeiro filho”, diz Walton. “Pensava: ‘não posso passar por isso de novo’.” 

Por que a culpa da amamentação é perigosa

Para muitas mulheres, ser mãe hoje em dia é uma sucessão de tropeços pelos quais elas são julgadas de forma implacável. Segundo uma pesquisa recente da revista Time, mais de 70% das mães entrevistadas afirmam sentir pressão para criar seus filhos de uma certa maneira. Metade afirmou sentir culpa ou vergonha em relação a questões de como cuidar dos filhos.

Culpa e vergonha têm aspectos únicos quando se trata de amamentação. E, para as novas mães, é o primeiro contato com a humilhação que acompanha a maternidade nos Estados Unidos.

“Não podemos generalizar, mas acho que há um certo nível de culpa, vergonha ou meio que um trauma psíquico que acompanha o não amamentar, e ele aparece mais rápido – e é mais profundo – que outras questões ligadas à maternidade”, diz Kate Kripke, assistente social e fundadora do Pospartum Wellness Center, na cidade de Boulder, Colorado.

Um dos motivos? Hormônios.

Durante e depois da gravidez, hormônios como progesterona e estrogênio ajudam o corpo a produzir leite. Mas essas mudanças hormonais também podem alterar a química do cérebro, em alguns casos aumentando as chances de a mulher sofrer de depressão e ansiedade.

Mesmo que não tenham problemas de saúde mental, as flutuações hormonais influenciam a intensidade dos sentimentos e das reações nos primeiros meses após o parto. O fato de o bebê não pegar o peito vira um problema maior que realmente é. E a saúde mental pode afetar a produção de leite. Para muitas mães, ansiedade, depressão e amamentação viram um grande nó.

Kripke diz acreditar que a culpa ligada à amamentação é diferente dos outros tipos de culpa simplesmente por ser incrivelmente comum – e muitas mulheres passam por isso, de uma maneira ou de outra.

“É muito, muito, muito raro que a amamentação seja tranquila desde o começo”, diz ela. “O que significa que a maioria das mães vai sentir algum tipo de culpa. Estamos falando de uma questão universal.”

Universal, mas raramente discutida. Muitas mães não falam dos problemas que têm para amamentar, o que aumenta a sensação de isolamento. Essas mulheres podem sentir vergonha de admitir que têm dificuldade em cuidar dessa necessidade fundamental de seus bebês.

Quem dá ‘permissão’ para que as mães parem de amamentar?

“Sou consultora de amamentação e vejo mães sentindo culpa quando têm dificuldades ou quando pararam de amamentar antes do planejado”, diz Carrie Bruno, consultora canadense e fundadora do The Mama Coach, um grupo de apoio a novas mães.

“Minhas clientes costumam estar no terceiro ou quarto mês (da amamentação). Entro nas casas delas ... e elas estão exaustas de tentar dar de mamar. Isso afeta os laços que elas têm com os bebês”, diz Bruno. “Em algum momento, a definição de ‘boa mãe’ foi associada à amamentação. Não acho isso justo. Mas acho que as mães sentem essa pressão.”

Para Jenna Robinson, 26, os problemas começaram no hospital. Seu filho não pegava o peito, por mais que ela tentasse posições diferentes ou recebesse conselhos de consultores.

Ela estava física e emocionalmente exausta e chorava toda vez que não conseguia dar de mamar. Sua vontade era passar a dar fórmula, mas, ao receber alta, ouviu do médico: “É muito importante que você continue tentando amamentar”.

Foi o que ela fez – complementando com fórmula. Finalmente, ela contou para o pediatra. Em vez de sugerir alternativas, ele disse que não havia problema nenhum – o importante era alimentar o bebê. Para Robinson, a conversa mostrou que é possível ser mãe sem sentir culpa. Ela parou de fazer segredo sobre o uso da fórmula, apesar de ainda sentir vergonha de comprar.

A produção de leite de Shawna Beckner despencou quando sua primeira filha fez oito meses. Mas Beckner, 36, diz que achava importante dar de mamar durante o primeiro ano de vida da bebê. Ela bombeava leite várias vezes por dia, tirando apenas cerca de 30 ml por vez. Ou seja, ela usava a bomba mais de uma hora por dia para ter leite suficiente para uma mamadeira cheia a cada três dias.

“Por que continuei?”, pergunta Beckner. “Por culpa. É ridículo.”

Muitas vezes, as mães não precisam de ajuda para dar de mamar; elas precisam de ajuda para parar.

Em 2017, Carrie Bruno escreveu um post de blog sobre uma experiência que teve dizendo para uma cliente que não havia problema em parar de amamentar e passar a dar fórmula. “Percebi naquele momento de que aquela mulher precisava de mim: ela precisava de permissão”, escreveu ela. “Disse que o mais importante era que o bebê se sentisse amado e que ela fosse capaz de cuidar do filho.”

Os dogmas da amamentação são tão poderosos que uma frase aparentemente tão benigna pode ser polêmica. Bruno diz ao HuffPost que, dois anos depois do post, ainda recebe mensagens indignadas. 

É por isso que os especialistas dizem que o mais importante para superar a culpa da amamentação é uma abordagem por vários ângulos: continuar a conversa para não despertar sentimentos de culpa e vergonha nas mães; dar às mulheres o apoio necessário para que elas consigam atingir suas metas, quaisquer que sejam; e lembrar que a saúde mental é parte fundamental do tema.

“É importante que as mulheres considerem ‘o que é importante para mim’ e ‘o que é importante para meu bebê’”, diz Kripke. “É um equilíbrio complicado, e a resposta varia de pessoa para pessoa.”

Ela acrescenta: “Incentivo as mulheres a pensar na amamentação como uma esperança, não como uma expectativa. Isso abre mais espaço para autocompaixão e empatia”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.