MULHERES
03/12/2019 03:00 -03

O bebê dela morreu de fome, acidentalmente. Eis o que ela quer que você saiba.

Landon, filho de Jillian Johnson, morreu com 19 dias de vida. Eis a história deles.

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Jillian Johnson com suas duas filhas.

Em 2012, Jillian Johnson foi ao hospital para dar à luz seu primeiro filho, um menino que ela o marido decidiram batizar de Landon.

Dezenove dias depois, Landon morreu.

O bebê teve uma lesão cerebral por causa de uma parada cardíaca causada por desidratação.

Apesar de passar horas mamando – pegando o peito corretamente, segundo enfermeiras e consultoras de lactação – ele essencialmente morreu de fome.

“E se eu tivesse dado mamadeira para ele?”, lamentou Johnson num post de blog de 2017 para a organização Fed Is Best Foundation, que viralizou e levou a reportagens no The Washington Post e na revista People.

Johnson acabou se tornando porta-voz da fundação, que promove práticas seguras para a alimentação dos bebês e luta contra o que chama de “pressão para somente amamentar” (a entidade também é alvo de críticas). Ela também é crítica de uma classificação obtida por mais de 500 hospitais dos Estados Unidos que os certifica por promover a amamentação. Os hospitais certificados devem aderir a 10 passos, que incluem: não dar aos bebês nada além de leite materno, a menos que por recomendação médica. O programa foi lançado pela Organização Mundial de Saúde e pelo Unicef nos anos 1990, e nos Estados Unidos fica sob supervisão da entidade Baby-Friendly USA.

Johnson diz não ser contra a amamentação. Ela continua compartilhando sua história porque não quer que ninguém pague o mesmo preço por insuficiência de leite. (Ela teve duas filhas, que foram alimentadas com uma combinação de leite materno e fórmula. Depois, ela recebeu o diagnóstico de insuficiência de tecido glandular.)

O HuffPost US conversou com Johnson sobre a história de Landon e sobre sua história e como ela se transformou em ativismo.

HuffPost US: Landon foi seu primeiro bebê. Como você estava se sentindo, sendo mãe de primeira viagem?

Jillian Johnson: Tive uma gravidez muito tranquila. Fizemos todas as aulas e realmente pensei que estava preparada. Tudo o que eu aprendi realmente me levou a querer tê-lo em um hospital “baby friendly”. Meu marido e eu ouvimos falar muito que “o peito é melhor” e sobre os benefícios do contato direto da pele. Mas obviamente não foi tudo bem.

O que aconteceu no hospital?

Acabei tendo uma cesariana, o que significava que eu estava medicada, e isso me afetou bastante. Estava exausta. Landon ficou comigo. E ele não dormia muito. Quando não estava no meu peito, estava chorando.

Certamente houve momentos no hospital em que pensei: “Nossa, isso é normal? Por que ele está chorando tanto?”

Mas me disseram que ele estava mamando com poucos intervalos, por isso passava tanto tempo no peito. Também me disseram que deveria continuar dando de mamar ― que o colostro que eles acreditavam que ele estava recebendo era suficiente.

O problema é que ele parava de chorar quando estava no peito porque estava se esforçando para tirar o leite. O que eu soube desde então é que ele estava queimando muitas calorias por causa desse esforço.

Ninguém parecia preocupado com o fato de ele não estar recebendo leite suficiente?

Estávamos monitorando as fraldas, e tudo parecia normal. [Nota: pesquisas indicam que a contagem de fraldas não é necessariamente a melhor medida da ingestão de leite.]

Ele certamente estava perdendo peso no hospital. Era considerado um alerta se o bebê perdesse 10% do peso corporal. Mas Landon perdeu 9,7%. Então isso foi meio desconsiderado, porque “10” era o marcador. [Nota: depois do parto, é comum que os bebês fiquem com peso abaixo do que tinham ao nascer.]

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Landon morreu antes de completar um mês de vida.

Você foi para casa dois dias e meio depois que ele nasceu.

Na primeira noite em casa – estávamos lá havia menos de 12 horas ― o encontrei sem respirar. Ele estava azul. Meu marido começou a fazer massagem cardíaca. Muitas lembranças ainda são meio nebulosas para mim, mas sei que foram necessárias seis doses de adrenalina para aumentar a frequência cardíaca de Landon. Ele foi levado às pressas para o pronto-socorro e estava tão desidratado que eles tiveram que lhe dar líquidos através de suas canelas.

E ele foi transferido para a UTI neonatal?

Landon ficou algumas semanas mantido vivo por aparelhos. Ele era perfeito. Ele era lindo. A única coisa que não estava funcionando era seu tronco cerebral.

Acabamos desligando as máquinas quando ele tinha 19 dias. Quando o tronco cerebral morre, tudo começa a morrer no crânio, e a ossatura da cabeça estava começando a entrar em colapso. Era um sinal claro de que era a hora.

Houve uma autópsia depois. O que ela dizia?

Recebemos os resultados seis ou oito meses depois que Landon faleceu. Ela dizia que Landon teve parada cardíaca por desidratação.

Você divulgou bastante sua história. Qual foi a resposta?

Aprendi que não consigo ler os comentários porque ainda existe muita gente tão pró-amamentação e tão antifórmula. Sempre digo que não sou anti-nada. Tenho duas filhas saudáveis, que foram alimentadas com 99% de fórmula (amamentei e suplementei), e elas estão ótimas. Mas também não sou contra a amamentação. Meu objetivo é educar.

Sim, era meu primeiro filho. E, sim, os médicos e enfermeiras deveriam ter me ajudado a ver os sinais. Mas ainda parece o maior fracasso pessoal do mundo.

Demorou um tempo até eu conseguir contar a verdade sobre o que aconteceu. Comecei com apenas algumas pessoas. É uma história horrível. “Como seu filho morreu?” “Ah, ele morreu de fome porque eu não dei uma mamadeira para ele.” Era difícil admitir que meu filho morreu porque eu estraguei tudo. Sim, era meu primeiro filho. E, sim, os médicos e enfermeiras deveriam ter me ajudado a ver os sinais. Mas ainda parece o maior fracasso pessoal do mundo.

Você pensou em dar uma mamadeira para ele quando estava no hospital?

Meu marido nunca se recuperou totalmente da morte de Landon. Algumas vezes por ano, ele me diz que pensou em dar uma mamadeira, mas não queria fazer algo errado. Porque sofremos lavagem cerebral, não dê fórmula para seu filho.

Estávamos tão exaustos quando chegamos em casa que não percebemos os sinais de que ele estava morrendo de fome. Ele chorava ― e isso é sempre uma coisa horrível de dizer  ― e aquele e choro em particular era o último choro de um bebê.

Mas estávamos fazendo tudo o que os livros e as enfermeiras nos ensinaram. Simplesmente achávamos que recém-nascidos choram muito.

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As filhas de Johnson homenageiam o irmão.

Se você pudesse projetar a experiência hospitalar ideal para novas mães, como seria ela?

Tenho duas filhas e literalmente, assim que elas saíram da recuperação, meu obstetra conversou com as diferentes enfermeiras e disse: “Ela passou por isso. Não quero que haja um problema no que diz respeito à amamentação. Se ela quiser dar a fórmula do bebê, deixem”.

Acho que precisa ser personalizado. De que cada mãe precisa? E de que cada bebê precisa? Como podemos ajudá-los? Existem muitas técnicas que os hospitais podem usar para ajudar no sucesso do aleitamento materno, em vez de simplesmente prender-se a protocolos rígidos. Isso é o que me assusta.

Sua experiência com Landon foi trágica. O que você gostaria que outros pais ou futuros pais soubessem? 

A coisa mais importante, eu acho, é que você realmente precisa defender seu bebê. Peça constantemente que as coisas sejam verificadas e não tenha medo de levantar preocupações.

E certifique-se de que você tem uma rede de apoio, seja seu parceiro, sua mãe ou um amigo. O mais importante é ter um bebê saudável e alimentado e ter um pai e uma mãe com a cabeça saudável. 

Entrevista editada e condensada. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.