MULHERES
26/05/2020 06:00 -03

Ser mãe de UTI me ensinou lições que hoje uso para enfrentar a quarentena

A dona do 23º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a jornalista Alline Dauroiz, que enfrentou 16 dias de um filme distópico em uma UTI neonatal há 2 anos e meio.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Alline amamentando a filha recém-nascida, internada em UTI neonatal para ganhar peso.

Há quase 2 meses, todos nós vivemos numa espécie de fenda no tempo, dessas que a gente vê nos filmes de sci-fi: um acontecimento que faz o tempo parar, a rotina virar de cabeça pra baixo, paralisa planos e que, a rebote, ainda traz um turbilhão de sentimentos tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora. Medo, raiva, frustração, tristeza, angústia pelo futuro incerto, necessidade de viver um dia de cada vez, de ser resiliente...

Acontece que, no meu caso, toda essa sensação esquisita não é nova. Há 2 anos e 5 meses, fui teletransportada repentinamente para um universo paralelo, uma fenda no tempo, completamente distópica, que me fez viver situações e sentimentos curiosamente similares aos da quarentena da covid-19 – só que tudo muito mais intenso e num outro cenário: uma UTI neonatal.

Sim, sou mãe de UTI. Minha filha, Maria Alice, nasceu de 35 semanas (8 meses e meio), com apenas 1,98 kg e 42 cm, e precisou ficar na UTI por 16 dias para ganhar peso.

Até virar mãe, eu achava que podia controlar muita coisa; bastava esforço e dedicação. E, durante a gestação, a sensação de controle foi natural, afinal, tive uma gravidez muito saudável, com todos os exames em dia, alimentação saudável, yoga para gestantes, muito estudo sobre a fisiologia do parto... Fiz tudo certo, a bebê estava saudável e o resultado deveria ser o planejado. 

O primeiro ensinamento que a maternidade nos traz, porém, é que não podemos controlar tudo – muito menos a força da natureza.

O parto

Num fim de tarde de uma sexta-feira, estava na porta de uma loja de rua do bairro, quando a bolsa estourou. Do nada. Por orientação médica, fui pra casa, peguei uma mala e corri para o hospital. Fiquei internada por 48 horas, para tentar o parto normal, mas não entrei em trabalho de parto, nem mesmo com indução. 

E lá se foi a primeira frustração, comum a tantas gestantes: não tive parto normal, mas uma cesárea. Por sorte, Maria Alice nasceu sem qualquer problema de saúde, mas como teve restrição de crescimento, teve de ir direto para a UTI.

Foi um baque chegar ao quarto da maternidade e ver o berço vazio – uma impressão horrorosa, confesso! A bebê nasceu num domingo à noite e só consegui vê-la na segunda-feira de manhã. 

Aquela primeira imagem da minha filha, tão miúda e frágil, numa incubadora, com soro espetado nos pezinhos, vários aparelhos medidores das funções vitais, numa sala de UTI repleta de outros bebês em estado grave (entubados, com traqueostomia...) me fez desabar.

Passei o dia e a noite chorando, de pena, tristeza, frustração, culpa... Será que fiz algo errado? Será que fiquei muito ativa durante a gravidez? Deveria ter ficado em repouso? 

Ainda que minha filha estivesse viva e bem, o sentimento era de luto. Era como perder aquele ideal um tanto romantizado do parto, da ideia de saúde e felicidade que todas nós sonhamos e até das firulas da maternidade – o enfeite da porta, as lembrancinhas para as visitas, as roupinhas separadas para a mala do bebê, a felicidade de sair do hospital com bebê no colo...

O clima da UTI neonatal é muito pesado. A gente nem consegue comemorar uma melhora do nosso filho, pois o filho da pessoa ao nosso lado teve uma piora. E, ali, a gente sofre pelo filho dos outros como se fosse o nosso.

A rotina da UTI

Não há, entretanto, muito tempo para lamentar. A rotina de uma mãe de UTI é intensa e muito atribulada. Acorda às 5h, chega ao hospital às 7h, tira leite e corre para a sala de UTI, pois às 8h é hora da primeira mamada da manhã.

Depois, o dia inteiro é entrecortado pelas funções de tirar leite no Banco de Leite, dar o mamá, fazer canguru (o pele a pele, quando o bebê já tem condições de sair um pouco da incubadora), falar com pediatra, acompanhar exames, entre outras funções cronometradas.

Perder tempo em qualquer distração pode significar que seu filho não vai tomar do seu leite naquele dia, ou perder algum momento importante na evolução do quadro... Havia apenas 3 breves intervalos para as refeições. Chegava em casa às 23h, tomava banho, tirava o leite na bombinha e, no outro dia, tudo recomeçava. Não havia dia de descanso.

O banco de leite é um capítulo à parte nesse universo da UTI neonatal. Esse sim um cenário que parece saído de um filme de ficção científica: um sala toda branca, com mulheres vestidas de máscara, touca e avental brancos, tirando leite em máquinas com barulhos ritmados. Ninguém fica de conversa com ninguém, não se pode levar celular pra se distrair. Tudo muito austero e solene. Estamos todas no mesmo barco.

No geral, o clima da UTI neo é muito pesado. A gente nem consegue comemorar uma melhora do nosso filho, pois o filho da pessoa ao nosso lado teve uma piora. E, ali, a gente sofre pelo filho dos outros como se fosse o nosso. Há um medo gigantesco de ir embora e receber más notícias na madrugada. Um medo do que a gente vai encontrar na manhã seguinte, já que muitas vezes o bebê estava bem e tem uma piora.

Conviver com tantos altos e baixos não é fácil: num dia, alta parece iminente; no outro, uma infecção, uma intercorrência ou uma baixa de peso põem tudo a perder. E, assim, os dias se arrastam. Você pensa que vai ficar uma semana, mas, de repente, está lá há 10 dias, semanas... Conheci uma mãe cuja filha ficou na UTI por 10 meses!

Fora a solidão de estar vivendo uma situação completamente inusitada, a sensação de que o mundo está acontecendo lá fora e você está presa numa realidade paralela, a falta de tempo de trocar ideia e desabafar até com a sua própria família... Ainda que muitas mães estejam ali passando exatamente o que você está passando, não há intimidade, nem clima para desanuviar e bater papo. Embora haja sim muita empatia e solidariedade.

O olhar de entendimento entre aquelas mulheres me fez criar, depois, um grupo muito forte de mães da UTI que, hoje, viraram minhas grandes amigas.

A alta e os aprendizados

Ter alta após a cesárea e sair do hospital sem seu filho nos braços é dilacerante. Mas posso dizer com segurança que o dia em que a Maria Alice teve alta foi o mais feliz da minha vida! Ouvir: “hoje você vai embora pra casa com a sua filha” não tem preço.

Hoje, as sensações da quarentena evocam sentimentos sombrios similares (guardadas as devidas proporções) aos que passei naquela época. Mas as lições que tirei dessa minha experiência estão me ajudando a lidar com esse presente tão estranho pra todos nós.

Eis aqui alguns dos meus aprendizados: 

## O lado bom existe até nos piores momentos: após passar pela UTI, aprendi a cuidar da minha bebê como uma enfermeira e fiz amizades para a vida toda;

## Por mais que a gente se esforce, a natureza não pode ser controlada; é preciso viver o luto da perda dos nossos planos, dos nossos sonhos, do “isso não podia ter acontecido”. Temos de colocar para fora os sentimentos ruins: medo, raiva, frustração, tristeza... Só assim, é possível apaziguar a alma;

## A solidão é inevitável. Mas saber que tem muita gente atravessando o mesmo rio tem muita força. É preciso reunir virtualmente essas pessoas, pois trocar experiências fortalece. Me ajudou muito criar um grupo de WhatsApp com as mães da UTI, para que a gente se ajudasse no puerpério;

## É impressionante como a gente descobre nossa força em situações extremas. Hoje, tenho muito orgulho de olhar pra trás e ver como lidei com tudo, como minha filha foi guerreira e como isso me amadureceu;

## E, por fim, não há mal que dure pra sempre. Essa situação vai passar – esse é o mantra das mães da UTI que cabe muito bem agora... E sempre! 

Alline Dauroiz é a dona do 23º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”.  Paulistana, de 35 anos, é mãe da Maria Alice, de 2 anos e meio. Jornalista e especialista em conteúdo digital, tem uma consultoria (@adonadoconteudo), que ajuda mulheres e marcas a criar conteúdo na web. Em seu perfil pessoal (@allinedauroiz), compartilha informações, experiências e entrevistas sobre Maternidade Real e Criação com Apego.