COMPORTAMENTO
20/07/2019 02:00 -03

A tragédia de Alinne Araújo e os limites da discussão sobre saúde mental no Instagram

Intuímos que é mais fácil buscar o apoio de uma audiência anônima em momentos de sofrimento do que construir relações de presença para elaborar as nossas angústias.

Reprodução/ Mehmet Geren
Enquanto os likes explodem nas redes sociais, o coração está partido na vida real.

Em meio à discussão (necessária) sobre amor próprio que atravessa as redes sociais, assistimos à transformação desse discurso em uma narrativa um tanto quanto narcísica (e bastante irreal) de que somos fortalezas.

Alinne Araújo, 24 anos, decidiu se casar sozinha após seu noivo abandoná-la às vésperas da cerimônia. Com uma voz embargada e o choro preso na garganta, Alinne gravou um vídeo e compartilhou em seu perfil do Instagram explicando que subiria ao altar para honrar os pactos que tinha feito consigo mesma e com a sua audiência. Foi levada a achar que casar sozinha seria um ato heróico e (quase) político. Alinne foi aplaudida — e escrachada — pelos seguidores.

Às vezes, a gente esquece que amor próprio não é sobre se achar imbatível. Não é sobre se bastar, muito menos ser autossuficiente. Isso não é humano. Antes de mais nada, amor próprio é saber se respeitar e se abraçar em nossas maravilhas, mas também em nossas vulnerabilidades.

Alinne, que convivia com crises de depressão e ansiedade desde a adolescência, não seria menos forte se tivesse decidido chorar pelo abandono.

Mas talvez isso não lhe rendesse tantos likes. No dia seguinte ao casamento, a notícia da influencer que decidiu se casar sozinha viralizou. Na rede social em que prevalece a lacração, preferimos endossar o close a digerir o que nos é próprio — os nossos sentimentos.

Empoderada, para alguns. Traidora, para outros. Internamente, Alinne decidiu pôr fim à própria vida. “Você está sabendo, mãe. Meu mundo acabou”, anunciou antes do suicídio. E o seu perfil, que antes era acompanhado por cerca de 25 mil pessoas agora ultrapassa a faixa dos 400 mil. 

Uso o exemplo de Alinne por ser o mais próximo de nós na linha do tempo, mas também pelo peso simbólico que ele carrega. É uma tragédia, não caberia usar outra palavra. Mas Alinne não é a única.

Nesta mesma semana, a youtuber Dora Figueiredo publicou um vídeo em que conta a sua experiência dentro de um relacionamento que ela considerou abusivo com um ex-companheiro.

Em um vídeo de 17 minutos, em que aparece chorando muito, ela dá detalhes do que viveu. No seu canal, Dora também compartilhava desabafos e informações sobre o seu diagnóstico de depressão.

As trajetórias de Alinne e Dora merecem ser honradas em sua missão de tornar pública a rotina de quem sobrevive com a depressão. Mas elas também podem nos alertar sobre como usamos as redes na busca permanente de aprovação.

Intuímos que, muitas vezes, é mais fácil procurar o apoio de uma audiência anônima, vasta e distante em momentos de sofrimento, do que construir relações de presença para elaborar as nossas angústias.

Existem formas indiretas de intensificar o sofrimento das pessoas, me explicou o psicanalista Christian Dunker, professor de psicologia da USP (Universidade de São Paulo). Esse seria o caso das redes sociais.

Essa amplificação acontece especialmente no Instagram, em que a forma de se comunicar é, sobretudo, por meio de imagens. A visualização faz diferença no modo em que percebemos o outro, na velocidade em que compreendemos tudo o que está sendo exposto e na dimensão mais anônima das trocas que acontecem por ali.

As redes são um grande espelho, mas também são um grande palco. Elas aumentam a extensão do auditório imaginário que você tem diante de si”, analisa Christian Dunker.

E o que há de mais problemático nisso é que passamos a ter uma indistinção entre o “palco” e o “mundo”. O que a gente é e quais são as nossas personagens.

Nos moldamos em cima da dramatização do sofrimento. Dramatização essa não em um sentido fake de criar algo que não existe. Mas dramatização no viés da representação em que a nossa vivência perante a dor (ou outro sintoma) se torna algo percebido como longe da concretude da realidade.

“A tela passa a ser cúmplice do que dizemos, sem travas. Mas no virtual não existe presença. E, com isso, o nosso contato com o outro fica empobrecido”, explica a psicanalista Joana D’Arc, doutora em psicologia do desenvolvimento humano pela USP.

Esse empobrecimento nos leva a atos de violência verbal. Não à toa vemos por aí comentários aos montes de coisas que jamais seriam ditas no olho no olho. Criamos um filtro que infla a nossa impulsividade — e também a nossa angústia.

“Esse filtro desestimula o olhar para dentro. Criamos palco para situações esvaziadas. Temos a falsa impressão de que tudo é fácil e de que tudo pode ser transformado em algo feliz”, avalia D’Arc.

“Vemos pessoas que têm a sua identidade tão associada ao personagem da rede social que elas passam a ocupar um espaço de figura pública. Ela se torna um depositário de expectativas que, em muitos casos, podem ser diferentes daquilo que ela realmente almeja. Passamos a valer mais pelo que representamos do que pelo que apresentamos”, argumenta Christian Dunker.

Estaríamos, então, vivendo uma espécie de desestruturação do eu?

Estamos apenas brincando de sempre estar em um palco, nos colocando como pessoas sem qualquer direito a nuances?

Aquilo que antes era fonte de reconhecimento (“Quantos likes! Olha como você tem valor!”) no momento seguinte pode te devastar (“Olha como eles não te reconhecem, mas só o que você representa”.)

Suicídio e depressão podem até ser eleitas palavras do ano, mas se transformarem em hashtag não quer dizer que os temas deixaram de ser tabus nas rodas de conversa.

Temos descuidado da nossa saúde mental como esforço coletivo. E diante dessa carência, passamos a usar os stories como práticas terapêuticas.

É urgente que se coloquem as redes sociais no lugar que elas realmente ocupam. São (ótimas) ferramentas de aproximação, canais de troca e de informação.

É maravilhoso que tags como #Selfcare se multipliquem e passem a chamar a atenção por aí.

Mas não deveríamos esperar mais do que elas podem nos oferecer. O like, mesmo oculto, pode até ser capaz de devolver a autoestima.

Mas é algo tão frágil quanto a ideia de que somos invencíveis.