MULHERES
16/03/2019 11:54 -03 | Atualizado 16/03/2019 11:54 -03

Candidata do PSL para disputar bancada feminina defende cota em fundo eleitoral

Aline Sleutjes se diz contra fim de cota para candidaturas femininas como solução para irregularidades com laranjas.

Divulgação/Mario Agra

No primeiro mandato como deputada federal, Aline Sleutjes (PSL-PR) é o nome do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, para disputar a coordenação da bancada feminina na Câmara. A eleição prevista para o início de abril conta também com outras 3 concorrentes até o momento: Professora Dorinha (DEM-GO), Tereza Nelma (PSDB-AL) e Dulce Miranda (MDB-TO).

Em meio à divulgação de investigações de irregularidades eleitorais envolvendo o uso de candidatas laranja no PSL, a paranaense discorda da solução de correligionários para o problema - acabar com a cota de 30% do Fundo Eleitoral para candidaturas femininas.

“Enquanto o sistema permitir que haja esse dinheiro público alocado para eleições, que tenha a cota feminina sim, porque, se não [houver], não vai chegar a nós [o dinheiro]”, afirmou, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Desde 2018, por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), os partidos são obrigados a destinar 30% do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral para mulheres nas disputas eleitorais.

Alguns parlamentares do PSL passaram a defender o fim dessa cota após investigações envolvendo o partido. O Ministério Público em Minas Gerais e em Pernambuco investiga esquema em que integrantes da sigla teriam lançado candidaturas femininas fraudulentas para desviar recursos públicos do Fundo Partidário. Um dos envolvidos é o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Fomentar a participação das mulheres na política é, segundo Sleutjes, seu principal objetivo. ”É um desafio que vamos ter que conciliar, dividindo as obrigações com os esposos, conscientizando os filhos de que terão momentos em que terão de estar sozinhos, abrindo mão de muitas coisas, mas para um bem maior, para conseguirmos conquistar o nosso espaço.”

A deputada recebeu a reportagem em seu gabinete na última sexta-feira (15). No dia, a agenda da parlamentar incluiu reuniões com o vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, com o ministro Gustavo Canuto (Desenvolvimento Regional), além da participação em um evento com a ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos).

Contra a legalização do aborto, Sleutjes defende ações de educação sexual nas escolas como medida de prevenção à gravidez indesejada. “Não é só tratar a questão do aborto, mas por que engravidar ou por que a gravidez indesejada? Precisamos fazer um trabalho de conscientização escolar, nas comunidades, na assistência social. Não adianta trabalhamos só com problemas e sim não precisar chegar lá”, afirmou.

Leia os principais trechos da entrevista.

 

HuffPost Brasil: O presidente Jair Bolsonaro foi alvo de protestos de mulheres durante a campanha eleitoral e há divergências entre as mulheres sobre a conduta dele em relação a direitos femininos. Por que o PSL decidiu lançar uma candidatura para coordenação da bancada feminina?

Aline Sleutjes: Não houve nenhum posicionamento do Bolsonaro contra as mulheres. Houve uma mídia e um grupo utilizando de má-fé em relação a isso. Eu me filiei ao PSL porque acredito nos valores do PSL. Sendo mulher ou homem, as pessoas que concordam com esse pensamento tiveram vontade de participar. A prova disso é que a população elegeu o Bolsonaro, que tinha uma miséria de Fundo Partidário, de tempo de rádio e de TV. Foi um apelo da sociedade ao candidato que tinha a maior semelhança com o pensamento popular.

Sobre a minha participação [na eleição da coordenação da bancada feminina], nós fazemos parte de uma bancada com 9 partidos e temos possibilidade de lançar tanto um cargo de coordenadoria quanto de procuradoria [da mulher].

Reprodução/Facebook
”É um desafio que vamos ter que conciliar, dividindo as obrigações com os esposos, conscientizando os filhos (...) para um bem maior, para conseguirmos conquistar o nosso espaço."

O bloco do PSL com DEM, PSDB e outros partidos?

Sim. Conversando com as demais deputadas, visto o tamanho da nossa bancada [do PSL], a importância dela... e aí quando você fala do partido do Bolsonaro num aspecto negativo em relação a mulheres, eu quero dizer que esse foi o partido que mais elegeu mulheres. É a prova de que nós acreditamos nas bandeiras.

Eu vim muito alinhada sempre aos valores da mulher e dessa conquista de espaços. Quando estava como vereadora, eu palestrava em muitas instituições sobre a participação da mulher [na política]. Depois, quando fui deputada estadual, tinha um viés forte em relação a isso. Fui trabalhar na Assembleia Legislativa [do Paraná] no gabinete de um deputado e também fiz um trabalho forte de conscientização.

Cheguei em Brasília e percebi que tivemos alguns avanços. Eram 55 deputadas. Somos 77. Ainda é pouco? 15% ainda é pouco, mas estamos alavancando. Mais mulheres estão se interessando e isso me faz ter vontade de colaborar. Tendo esse cargo, o que eu fiz no meu município, na minha região, poderia fazer no Brasil. Poderia conscientizar mulheres da participação na política.

Isso aqui não é um mundo difícil de fazer parte, apesar de ter alguns aspectos de maior dificuldade que os homens, como a questão dos filhos, da casa, fazer compras, levar para um aniversário. 

Nós temos 3 turnos de trabalho no mínimo. Temos 2 turnos no trabalho formal e não deixamos de ser mãe, de ser do lar, de ter afazeres. Nossas obrigações são mais fortes, mais pesadas.

Talvez até isso seja um empecilho [para entrar na política]. A mulher pensa “como vou dar conta? Como vou deixar minha vida, minha casa, minha família, meus filhos para pegar essa atribuição tão grande?”. É um desafio que vamos ter que conciliar, dividindo as obrigações com os esposos, conscientizando os filhos de que terão momentos em que terão de estar sozinhos, abrindo mão de muitas coisas, mas para um bem maior, para conseguirmos conquistar o nosso espaço.

[O PSL foi o segundo partido com maior número de deputadas federais eleitas em 2018. Foram 9 parlamentares, atrás do PT, que elegeu 10]

 

Havia outras deputadas do PSL interessadas?

Quando falei da possibilidade, havia interesse também da Soraya Manato (PSL-ES). Naquele dia estávamos numa sessão com 8 deputadas e decidimos que não adianta lançar 2 nomes, um oficial e um avulso. Vamos lançar um nome só, assim o apelo é maior, o fortalecimento é maior. E todas entraram em consenso. Tivemos uma conversa bem franca, olhos nos olhos, com propostas e metas e a Soraya falou “acho melhor que a Aline fique” e as demais apoiaram.

 

A senhora tem apoio de outros partidos?

A partir de agora, eu pretendo visitar as outras candidatas, conversar, porque nós temos 4 cargos: coordenadoria, procuradoria e os cargos adjuntos. Vamos tentar entrar em um consenso. Se não houver, vamos para eleição. Aí é um processo de conversar, mostrar as propostas, colocar para todas as eleitoras, indiferente de sigla. No meu caso, estou organizando um material com as propostas principais, o viés ideal para a questão da mulher aqui dentro, o meu histórico.

 

O que será prioridade para a bancada feminina, se for eleita?

Temos que começar a autovalorização da mulher, para que cada partido faça um trabalho nos estado fomentando a participação da mulher. Não colocando que somos minoria e as fragilidades, mas as facilidades, a vontade de fazer parte do sistema.

Também quero dar voz a elas. Tem muitos projetos de lei importantes [na Câmara] que vão beneficiar não só as mulheres, mas a sociedade como um todo (...) Quero levantar toda essa demanda e fazer um apelo junto aos demais porque aqui não há os critérios dos deputados e das deputadas, mas o que é bom para a sociedade.

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"Sendo mulher ou homem, as pessoas que concordam com esse pensamento tiveram vontade de participar. A prova disso é que a população elegeu o Bolsonaro, que tinha uma miséria de Fundo Partidário, de tempo de rádio e de TV."

Há algum desses projetos para destacar, quais os principais temas?

Foram discutidos alguns na semana da mulher, mas só foram votados 2. Ainda tem muita coisa a ser discutida. A partir do momento que, se Deus quiser, consiga ganhar essa eleição, ou ao menos compor com esse grupo, vamos fazer um levantamento sucinto de matérias que sejam importantes, realmente pertinentes, e aí sim vamos lutar juntos porque não é uma bandeira da mulher, mas do cidadão brasileiro.

[A Câmara aprovou na última semana projeto que prevê apreensão de arma de agressor de mulheres, assim como proposta que criminaliza o assédio moral no trabalho.]

 

Apesar da idade mínima menor para mulheres no INSS na reforma da Previdência, há críticas sobre o impacto para mulheres mais pobres e do campo. Como a bancada deve atuar na tramitação da PEC?

Acredito que tenha ajustes a serem feitos na reforma, mas não só em relação à mulher. Tem que ser feita uma verificação do projeto como um todo. Estou muito preocupada com a Previdência para que nós façamos o melhor acerto para a população brasileira.

Estive conversando com o [Rogério] Marinho, autor da legislação [secretário da Previdência]. Estive com várias bancadas, discutindo, levando sugestões e esse é um processo que não é para amanhã. Não posso dizer “está fechado”, “vai dar certo” ou “vamos ter que rejeitar”. É um processo de discussão. Temos que sentar depois das eleições [internas da Câmara] com todas as mulheres, estudarmos a pauta.
É muito leviano e vazio dizer que essa reforma da Previdência vai tirar direitos. Também é inverdade dizer que é só pobre e homem do campo que vai ser punido. Essa reforma vai impactar muito mais nos que ganham bastante do que nos que ganham pouco.

Não tem como expandir [legislação sobre o aborto] porque senão vamos estar dando chance para a morte e não para a vida. Essa é uma bandeira minha

O Estatuto do Nascituro foi defendido como prioridade pela ministra da Mulher, Damares Alves. A senhora defende algum tipo de mudança na legislação atual sobre aborto e direitos reprodutivos?

Eu sou pró-vida. Se pensamos só na mulher, quem vai pensar no bebê, no filho? Esse é um tema que eu, como conservadora nessa questão, assim como a ministra, defendo que não podemos legalizar o aborto. A legislação já tem seus critérios específicos. Não tem como expandir porque senão vamos estar dando chance para a morte e não para a vida. Essa é uma bandeira minha.

 

Um deputado do PSL chegou a apresentar um projeto de lei para restringir o uso de anticoncepcionais. A senhora então não apoia esse tipo de restrição ou qualquer mudança nas regras atuais sobre aborto?

Nós temos outras iniciativas. 

Não é só tratar a questão do aborto, mas por que engravidar ou por que a gravidez indesejada?

Precisamos fazer um trabalho de conscientização escolar, nas comunidades, na assistência social. Não adianta trabalhamos só com problemas e sim não precisar chegar lá.

Fui por muitos anos presidente da associação de moradores. Trabalhei ativamente na Câmara com a valorização da família e fazia muito trabalho de conscientização. Palestras, informação, trazer o problema à tona na adolescência, que é um momento muito crucial de descoberta, euforia e às vezes encontramos grandes falhas que vão levar à decorrência de uma tristeza para o resto da vida. Sou a favor de projetos, iniciativas de programas para não acontecer a gravidez precoce ou indesejada.

 

A senhora é favor então de discutir gravidez precoce e planejamento familiar também nas escolas?

Com certeza. Com apoio das secretarias e dos ministérios porque a gente não pode achar que aborto é um tema apenas da saúde. Esse é um trabalho social, educacional, de segurança, de qualidade de vida.

 

Algumas propostas da Escola sem Partido são contra discutir temas ligados à sexualidade ou à mulher. Como a senhora vê essa questão?

Nunca foi questionado ou embutido na legislação não falar sobre mulher. Era não falar sobre a ideologia de gênero e sobre a questão de doutrinação partidária. É só isso que não queremos que aconteça porque, quando estudamos, não havia uma disciplina específica sobre isso. Não havia “você é direita ou esquerda” ou “só a esquerda é boa ou só a direita é boa”.

Queremos que a escola sirva para ser escola. Educar, trazer conhecimento, os professores terem de novo as rédeas, serem mestres e trazer a possibilidade de desenvolvimento, produtividade, futuro das nossas crianças e jovens e resgatar os valores da família.

 

O projeto de lei da Escola sem Partido discutido na Câmara até o ano passado proibia o termo “gênero” em qualquer atividade escolar. Críticos à proposta apontam que esse trecho inviabilizaria discussões sobre temas ligados às mulheres…

Na nossa documentação está escrito se você é homem ou mulher, masculino ou feminino. Não está falando de que gênero você é. Está tirando essa palavra, esse termo muito usado nos últimos anos. Você pode falar da mulher na aula de ciências, sociologia...

 

É mais uma questão sobre o termo usado do que o tema em si?

Exato. A mulher está inserida num contexto da filosofia, sociologia, matemática, português, escola. Não vamos mais poder falar de mulher? Eu seria a primeira a dizer que não, e sou professora inclusive.

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Ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio é um dos investigados em esquema de candidaturas femininas laranja no PSL.

Após a divulgação de esquemas envolvendo candidaturas femininas laranja, parlamentares do PSL, como o senador Angelo Coronel e Major Olímpio chegaram a defender o fim da cota para mulheres no Fundo Eleitoral. A senhora acredita que essa seja a solução para esse tipo de irregularidade?

A gente tem que avaliar bem a fundo porque a maioria das mulheres foram efetivamente candidatas e as que chamam de laranja às vezes é uma mulher sem expressão política. Não tinha voto, está iniciando agora. O processo eleitoral é difícil. Não é para qualquer um chegar lá e fazer 20 mil, 50 mil, 100 mil votos.

Agora, enquanto os homens usarem Fundo Partidário, as mulheres também vão precisar desse Fundo Partidário. Eu sou adepta de que não existisse mais o Fundo Eleitoral e esse dinheiro fosse usado em políticas públicas, de saúde, educação, segurança. Mas enquanto o sistema permitir que haja esse dinheiro público alocado para eleições, que tenha a cota feminina sim, porque se não [houver], não vai chegar a nós [o dinheiro]. Se um dia Deus quiser que a gente consiga avançar tanto assim, então que se retire, mas retire de todos.